No ano seguinte, mais colaborações com velhos amigos como Alberto de Martino, Vittorio di Sisti, Henri Verneuil, Mauro Bolognini, Aldo Lado e Sergio Sollima. Morricone também assina uma trilha que costuma citar entre suas favoritas até hoje: "Il Sorriso del Grande Tentatore", filme de Damiano Damiani. A música só pode ser descrita como imprevisível e irônica. Inicia-se como um texto litúrgico, cantado em latim com deferência, e súbito degenera em uma canção de rock psicodélico, como se o coro da igreja fosse possuído por um demônio zombeteiro. Tal sacrilégio justifica-se pelo tema do filme, que envolve conflitos em um convento habitado por pessoas decididamente perturbadas. Chega a ser impossível explicar como um filme tão medíocre inspirou ao compositor uma obra criativa assim.
Talvez decadência seja um termo exagerado para designar o período que se seguiu, porém nota-se que a música de Morricone passou a sofrer estagnação a partir de um limite um tanto impreciso, em torno de 1974-75. Escrevendo incessantemente para o cinema há dez anos, o compositor começava a aparentar cansaço, retornando com frequência a estruturas já usadas e produzindo uma série de trilhas boas, mas poucas verdadeiramente notáveis, e mais fracassos do que de hábito.

Ao invés de trabalhar em "O Exorcista", Morricone recebia material como "O Anticristo", uma adaptação evidente e sem sutilezas do filme americano que fizera sucesso anos antes. Até mesmo seus parceiros representavam clones pálidos de originais brilhantes: em "Leonor", ele trabalhou com Juan, filho de Luis Bunuel. Por mais que tentasse, ficava difícil abrilhantar tamanhas catástrofes cinematográficas. Ainda assim, vez ou outra Morricone reunia energias e escrevia um tema marcante como o de "Spasmo", grotesco filme de Umberto Lenzi. Dentre as boas trilhas desse período, destacam-se "Allonsanfan", partitura eclética para o filme dos irmãos Taviani, e "Moisés", música para a série de TV com Burt Lancaster que despertou um ímpeto criativo em Morricone.

A questão da reciclagem de material antigo é controversa. Morricone, mirando-se no exemplo de compositores ilustres que o precederam, como Haendel, toma motivos e temas inteiros de obras anteriores, desenvolve e os converte em novas trilhas. Ele parece sentir que as idéias antigas ainda não foram esgotadas e se entrega sem pudor à tarefa de as reutilizar.

Ninguém contesta, entretanto, o fato de que quando se oferecia um grande filme a Morricone, este respondia com uma trilha à altura. "Novecento", que Bernardo Bertolucci dirigiu em 1976, narrava uma história épica envolvendo o conflito entre o comunismo e o fascismo na Itália, com algumas imagens belíssimas e referências a Verdi, um dos compositores preferidos de Morricone. O resultado foi uma de suas partituras mais românticas e arrebatadoras. O diretor ficou tão satisfeito que comentou: "Ennio, sem se dar conta, escreveu dois ou três possíveis hinos nacionais italianos". (2)
No mesmo ano, Morricone assinou outra trilha bastante lírica para o último filme do diretor Valerio Zurlini, "O Deserto dos Tártaros", contando com o piano bem temperado de Alberto Pomeranz.
Mas o pior estava por vir. Em 1977, o compositor participou de dez projetos, entre filmes e séries de TV ("Drammi Goticci"), dos quais apenas três contam com música razoável: "Il Gatto", mistura de comédia e filme policial produzida por Sergio Leone, aproxima-se demais (intencionalmente?) da trilha que ele escrevera para "Investigação sobre um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita", com momentos de genialidade. Começava, porém, a preponderar uma sensibilidade pop que, por mais que se aplique ao filme, faz com que a música torne-se horrivelmente datada e rasteira. A utilização da voz de Edda já se tornara um clichê, mas o compositor parecia não encontrar alternativas e continuava a se valer da mesma.
"Il Prefetto di Ferro" e "Il Mostro" eram trilhas competentes, embora apresentassem material reutilizado.
O fatídico ano de 1977 foi também aquele em que Morricone iniciou sua instável colaboração com o cinema americano da maneira menos auspiciosa possível: escreveu a partitura requentada para a bomba cinematográfica de John Boorman chamada "Exorcista II: O Herege". Morricone utiliza ritmos e sonoridades africanas para sublinhar a presença do demônio (truque que repetiria em "Holocaust 2000", do mesmo ano), mas a música jamais diz a que veio, assim como o filme. A esse projeto seguiu-se "Orca, a Baleia Assassina", de Michael Anderson, uma risível cópia de "Tubarão" que merece entrar para a galeria dos piores filmes de todos os tempos. Morricone reconhece que a trilha é "apenas mediana" (3), uma vez que o tema principal compensa a mesmice do resto.
Em 1978 Morricone surpreendeu ao conquistar uma indicação ao Oscar por seu trabalho em "Cinzas do Paraíso", de Terrence Malick. A bem da verdade, a trilha complementa adequadamente o filme, porém deve muito a "O Carnaval dos Animais" de Saint-Saens. Mas a expectativa foi vã, pois a famosa estatueta acabou nas mãos de Giorgio Moroder pela trilha de "O Expresso da Meia-Noite", um forte indício de que músicas com um toque moderno tendiam a fazer sucesso e eclipsar trabalhos mais refinados. >>>segue>>>