por Alexandre Travassos


Uma das bandas mais influentes da história da música pop está completando vinte anos de existência. Como se isso não bastasse, também está com um disco novo na praça, razão mais do que suficiente para comemorar. Resumir tanto tempo de intensidade criativa parece ser um trabalho árduo mas, como tudo o mais que se refere ao New Order, as coisas parecerem simplesmente fluir de uma maneira muito natural...

18 de maio de 1980 - Manchester, Inglaterra: após uma discussão com sua esposa Deborah, Ian Kevin Curtis assiste ao filme "Stroszek" de Werner Herzog e ouve "The Idiot", de Iggy Pop. Fuma um cigarro, escreve uma carta à Deborah, e enforca-se com a corda de pendurar roupa.

Ian Curtis era vocalista e letrista de uma banda que despertara a atenção do público e crítica por levar o rock à beira do abismo de uma maneira jamais imaginada. O nome daquela banda era Joy Division, e no dia seguinte seus membros estariam carimbando os passaportes para uma turnê pelos Estados Unidos, o que possivelmente os transformaria em uma das maiores bandas do planeta à época.

Os demais integrantes do Joy Division viram o sonho morrer junto com Ian. Anos de trabalho árduo viraram poeira diante dos olhos de Bernard Sumner (guitarra), Peter Hook (baixo) e Stephen Morris (bateria). Ainda atônitos com a tragédia que os abateu, fizeram o que qualquer pessoa em sã consciência jamais pensaria em fazer naquelas condições: recomeçaram tudo do zero.


Decididos a continuar, os rapazes recrutaram a namorada de Stephen, Gillian Gilbert, para tocar teclados e guitarra. Numa espécie de concurso interno, Bernard se saiu melhor e assumiu os vocais. Tudo o que precisavam era de um novo nome, algo que representasse sua nova condição. Surgia então o New Order.

O primeiro single da banda - lançado pela independente Factory Records, a mesma do Joy Division - trazia duas composições de Ian, finalizadas dias antes de sua morte, "Ceremony" e "In a Lonely Place". Em seguida, a banda entrou em estúdio para a gravação de seu primeiro álbum, "Movement". Iniciaram uma série de shows pela Europa e Estados Unidos, ainda sob a sombra do Joy Division. A comparação com o antigo trabalho era inevitável, mas isso não os abateu, e o status de banda "cult" não tardou a vir. Mas ainda haviam algumas coisas fora dos eixos, além do evidente desconforto de Bernard como "frontsman".

A banda "ressurgida das cinzas" lançou seu segundo álbum em 1983, intitulado "Power, Corruption And Lies", onde demonstrava uma maior confiança nas experimentações eletrônicas, sendo rapidamente içada ao topo do tecnopop. A banda parecia ter novamente encontrado seu caminho, mas muitas surpresas ainda estavam por vir.


Para o lançamento de "Power, Corruption And Lies", o designer Peter Saville (co-fundador da Factory e responsável também pelas capas do Joy Division) criou um código "secreto" que só os fãs do New Order poderiam entender. O encarte do disco continha um decodificador, que consistia em um círculo com múltiplas cores onde, no sentido horário, cada cor correspondia a uma letra do alfabeto. Dessa forma, os fãs da banda poderiam reconhecer um disco do New Order pelo código, já que raramente havia algo escrito na capa. Doideira, não?

Peter Saville também foi o responsável pelo mito criado de que o New Order era "uma banda sem rosto". Suas belíssimas capas de álbuns e singles contribuíram para isso, já que nunca continham qualquer foto que identificasse seus integrantes.


As coisas estavam mais uma vez começando a dar certo para os garotos de Manchester, quando uma melancólica canção despretensiosamente revolucionou o cenário pop mundial ao unir soturnos sintetizadores e uma batida frenética inspirada no código morse. "Blue Monday" era diferente de tudo o que já havia sido feito, uma inovadora e magnífica obra que levou o New Order ao topo das paradas de sucesso, se tornando o single de 12" mais vendido da história da indústria fonográfica. "Blue Monday" revelou-se um clássico instantâneo, e hoje é considerada um marco da história do pop, a fronteira definitiva entre a "disco music" dos anos 70 e a "dance/house/techno music" que surgiria em seguida e perdura até os dias atuais.

Após inventivos flertes com o hip-hop nova-iorquino - que gerou os singles "Confusion" e "Thieves Like Us" - o New Order mantia-se autêntico e, sem ter que fazer qualquer tipo de concessão em relação à sua música, havia definitivamente conquistado o título de "maior banda independente do planeta".


Mas foi em 1985 que a criatividade da banda parecia ter alcançado seu auge: com o lançamento do álbum "Low Life", o New Order havia finalmente alcançado sua maturidade sonora. Um disco memorável e coerente, trazendo como carro-chefe a música que rapidamente se tornaria sua obra-prima: "The Perfect Kiss", uma ode à solitude pontuada por timbres alucinógenos e sintetizadores a todo volume. Uma emocionante e passional sinfonia pop. Seu maravilhoso videoclip original, com quadros estáticos da banda tocando a versão integral (quase dez minutos de música) em estúdio, foi dirigido por Jonathan Demme, que se tornara mundialmente conhecido por dirigir o histórico "Stop Making Sense", dos Talking Heads, e ainda faria "Filadélfia" e "O Silêncio dos Inocentes".

"Brotherhood", lançado em 1986, trazia entre suas canções o megahit "Bizarre Love Triangle", o maior sucesso da banda no Brasil. Com o estouro do single "True Faith" (1987) e o lançamento da coletânea de remixes "Substance" (que vendeu mais de um milhão de cópias só nos EUA), a banda pôs o pé na estrada, apresentando-se inclusive no Brasil em 1988, em São Paulo, Porto Alegre e Rio de Janeiro.

No mesmo ano, o mega-produtor Quincy Jones remixou "Blue Monday", e o single chegou novamente ao topo das paradas. O álbum seguinte, "Technique" (1989), gravado em Ibiza, foi o último pela Factory, que estava à beira da falência. Antes de sair da gravadora, a banda ainda teve fôlego de lançar "World In Motion", uma espécie de hino da seleção inglesa de futebol para a Copa de 90. Os ingleses não levaram o caneco, mas a música alcançou o primeiro lugar na parada britânica.

Nos anos seguintes, em vez de aproveitar a ótima fase, os integrantes da banda resolveram dar um tempo no New Order e dedicar-se a atividades paralelas. Bernard se juntou à Johnny Marr (guitarrista dos Smiths) e formou o Electronic, enquanto Peter Hook encabeçou o projeto hard-rock Revenge. O casal Stephen e Gillian formou na mesma época o The Other Two.

Quando todos apostavam no fim da banda, ela mais uma vez ressurgiu com o álbum "Republic" (1993), dessa vez sob a batuta de uma grande gravadora. Agora eles já não eram mais independentes... e também não eram mais os garotos de outrora.

Alto lá, que a história ainda não acabou!! Depois de todo esse tempo sem gravar nada, o New Order mais uma surpreende a todos com o lançamento de seu novo álbum, apropriadamente intitulado "Get Ready". Quem teve o prazer de escutar o disco sabe que não é brincadeira, os caras definitivamente sabem o que fazem. Com canções que colam no ouvido, "Get Ready" é um maravilhoso trabalho, que não deixa nada a dever aos anteriores.

"Crystal", que abre o álbum, é uma das melhores músicas da banda já feitas. Com uma melodia contagiante, é impossível ficar parado. Já o single com os remixes da música (feitas por DJs da moda, como Lee Combs, John Creamer & Stephane K e Digweed & Muir Bedrock) deixam um tanto a desejar, por não aproveitarem a harmonia da canção original, transformando suas versões em bate-estacas desprovidos de sentido. O ponto alto do single de "Crystal" definitivamente é a inédita "Behind Close Doors", um retorno magnífico aos tempos do Joy Division. Mas pela grana a desembolsar (US$8 pelo menos), vale muito mais baixá-la na Internet.

Outras surpresas que "Get Ready" reserva são as colaborações com Billy Corgan (Smashing Pumpkins) e Bobby Gillespie (Primal Scream) nas faixas "Turn My Way" e Rock The Shack", respectivamente. A primeira é uma balada nos moldes das canções que Corgan compôs para sua banda sob inspiração do New Order ("1979", "Perfect") enquanto a segunda está muito mais para o Primal Scream do que propriamente para o New Order, o que de forma alguma pode ser encarado como um defeito.

Outras músicas que merecem destaque são "Vicious Streak", um delicioso trance-pop e "Someone Like You", que acaba de sair na Inglaterra como single, com seus timbres inspirados em videogames e "backing vocals" afinadíssimos.

E eles já estão fazendo novos shows, que já contaram com a participação de grandes nomes da música, como o já citado Billy Corgan e Moby. Obviamente, sempre fica a expectativa de que eles retornem ao Brasil... de qualquer forma, há ainda muitas novidades por vir, como o lançamento no ano que vem do EP "New Order Vs. Chemical Brothers", uma colaboração com o duo homônimo.

No mais, vale aproveitar esse novo trabalho, para degustar mais um memorável álbum e correr atrás dos zilhões de remixes que vêm por aí. E, acima de tudo, torcer para que esse não seja o capítulo final na história dessa incrível banda.