Estava lendo a coluna da Patrícia Rocha na MOOD e achei algo interessante enquanto ela comentava sobre apertar o botão do foda-se. Não é o fato de apertá-lo em si que importa, mas sim ela achar que nós homens temos tal botão apenas na posição ligado. Bastante simples imaginar isso quando não se é um homem. Mas não pretendo usar a deixa pra falar disso. Pretendo aproveitar pra algo mais importante.
A verdade é que nenhum de nós (seres de todos os sexos que tem até mais ou menos 30 anos) possui a invejável capacidade de dizer, de uma maneira plena, sincera, e completamente despreocupada: foda-se! Não aprendemos a deixar as coisas pra lá. Não nos foi ensinado a não nos estressar com aquelas coisas que simplesmente não podemos mudar. Nos ensinaram a nos sentirmos culpados por não poder mudar a merda do mundo. Não é a toa que nossa geração é, embora nossos pais engenheiros jamais possam vir a aceitar, muito mais estressada do que a deles.
Assim como um pouco de ruptura é necessário, também não dá pra ser maluco demais. Então, qual a melhor maneira de lidar com essa situação? À procura de orientação profissional, a MOOD conversou com Themiz Constantino, psicoterapeuta do ESIPP.

"As gerações anteriores começavam sua vida mais cedo, casavam antes. Isso preocupa o jovem e causa a pressão da comparação", afirma Themiz. E aí os filhos acabam ouvindo aquela velha frase que começa com "quando eu tinha a tua idade...", para exemplificar que já haviam saído de casa, tinham dois empregos ou mesmo que você já havia nascido. Some-se a isso a sociedade, que espera que os jovens salvem o mundo - pressão essa que, segundo a psicoterapeuta, vem ocorrendo há várias gerações -, e o que se obtém é uma situação quase insustentável para muitos "jovens-adultos".

E se não se pode (nem adianta) mandar tudo pro inferno o tempo todo, o que fazer? "O ideal é parar para pensar e compreender o que foi feito, e os motivos que o levaram a tomar tal atitude". Já fez a merda? Todos tem o direito de errar. "Mas por que isso aconteceu? É preciso refletir para na próxima vez fazer diferente. E sem se culpar", pondera Themiz. "Isso é evolução".

O ESIPP - Estudos Integrados de Psicoterapia Psicanalítica, possui serviço de atendimento psicoterápico. Informações pelo fone (51) 3332.6436.

Não que eu ache que nossos pais são os culpados por sermos desse jeito estranho. Até não são. O problema é que vivemos em um mundo que nos mostra duas alternativas: ou tu trabalha feito um condenado e não erra nunca, ou tu tá completamente fudido para sempre (são falsas, mas a gente cai nelas direitinho). Temos diante de nós um mercado de trabalho que está saturado em todas as profissões, o que faz com que o salário baixe cada vez mais, e que não consigamos ter planos pra sair da casa dos pais antes dos 30. E assim jovens de 20 anos vão tendo ataques cardíacos por causa de estafa, coisa que antes só se via em pessoas de mais de 45 anos.
Bem... precisou minha vó me dizer com todas as palavras: o problema é que vocês não sabem dizer foda-se! Quando não tem como resolver, esquece e sai pra se divertir. Quando não tem o que fazer, mesmo que tu tenha culpa, deixa pra lá. Tenta melhor da próxima vez. Isso me deixou assustado. Minha vó me mandando mandar o mundo à merda me pareceu completamente bizarro.
Mas logo vi que ela tinha toda a razão e que existem duas situações nas quais devemos aprender a dizer foda-se: nas que não temos culpa por algo não poder ser mudado, e na que temos culpa por não ter feito na hora certa e agora não dá mais tempo e não tem mais como arrumar.
No primeiro caso basta deixarmos de frescura e esquecer do negócio. Não somos responsáveis, é culpa do mundo, do acaso, da sociedade, e eles todos que arquem com isso. Ou que esqueçam também. No segundo caso, na boa... depois que tá feita cagada, deixa pra lá e pára de tentar arrumar só pra saber que tentou. É inútil igual e só serve pra cansar mais a gente.

"Larguei a família, os amigos, o namorado e o emprego pra tentar montar minha empresa de webdesign em São Paulo. Não só não deu certo como descobri que queria distância dessa área. Voltei para Porto Alegre decidida a perseguir outro sonho: o de comissária de bordo. Larguei o diploma de publicitária num canto e estou fazendo um curso de formação".
Laura Lopes, 23 anos, futura comissária de bordo

"Tinha um emprego e havia até recebido uma promoção. Disse foda-se e caí fora! Estava achando aquilo tudo uma merda".
Alexandre Torres, 25 anos, empreendedor desempregado

"Falta de emprego, brigas com a namorada e pressão em casa por falta de dinheiro me motivaram a largar tudo e recomeçar uma vida nova em outro lugar - no caso, Itajaí, em Santa Catarina. Mas depois, ao ver que pessoas dependiam de mim aqui, voltei atrás ao perceber que tal mudança não valia a pena - e desisti da viagem no dia do embarque. Hoje, não me arrependo. A vontade de dizer "foda-se" foi um rompante de raiva por causa das pressões do momento".
Eduardo Cunha, 23 anos, estudante

"Esqueçam tudo o que eu escrevi"
Fernando Henrique Cardoso, 76 anos, presidente da república. A frase foi proferida logo após ter assumido o primeiro mandato, e os "escritos" a que ele se refere são seus livros da década de 70, quando era um sociólogo de esquerda. Que belo foda-se, hein???


Me perdi. Sempre me perco. Mas no fim, o importante é o seguinte: tá na hora de aprender a deixar as coisas rolar. Levamos a vida a sério demais, e ela nunca vai nos levar a sério. Ela nem mesmo tem sentido. Então vamos dizer foda-se mais vezes e ser menos tristes (pois só a ignorância traz a felicidade, e a maioria daqueles que chegam até uma página que tem um texto desses já deixou sua irrecuperável ignorância pra traz). A cada dia que passa nos perdemos mais e mais nessa rotina sem nexo que só nos faz perder a consciência que antes de existir nós deveríamos era viver. Foda-se o mundo!