Se você foi recentemente a alguma rave, estivesse ela acontecendo no Recreio ou em Cabo Frio, provavelmente esbarrou (e se assustou) com uma multidão de pessoas vestindo roupas em tons flúor. É isso mesmo... mesmo sem saber diferenciar trance de techno ou house de jungle, milhares de jovens que se contentam com hits comerciais resolveram invadir o Mercado Mundo Mix e afins à procura de um figurino adequado ao trance.

Por incrível que pareça, depois da música eletrônica ter caído nas mãos imundas das gravadoras e das rádios, o trance foi eleito o estilo preferido de quem resolveu se jogar na onda do tekinô. Mas por quê logo o trance? Ouso arriscar um palpite: por causa da moda que acompanha o som. Não pretendo aqui estereotipar o figurino que cada estilo musical envolve, mas não há quem discorde que basta chegar na porta de uma boate para, através das roupas das pessoas, descobrir que som você escutará em seu interior.

 

Pois bem, assim como você se deparará com meninas com os famosos "bodys" e tamancos na porta da W, com plataformas, braceletes e spikes na porta da Bunker, com tênis e jeans na porta de shows de punk rock, você verá pessoas brilhando no escuro em festas trance.

Isso mesmo! Brilhando no Escuro! Essa é a nova moda "glow in the dark". São roupas em tons flúor (lembra das famosas canetinhas iluminadoras de texto, na época do colégio?), verdes, amarelas, laranjas ou rosas, mas o grande must são as peças brancas. Isso porque, numa boate, a luz negra dá um efeito brilhante nas roupas brancas. Para se ter noção da proporção desta nova mania, em SP, na Galeria Orofino, existe uma loja chamada "Glow", onde a iluminação é toda de luz negra, e assim você pode ver como as roupas ficarão à noite.

Mas não pense que esta moda medonha ficou apenas por aí. Com certa facilidade qualquer mortal pode encontrar colares, pulseiras, meias, maquiagem emesmo tintas de cabelo que brilham no escuro. Eu mesma admito já ter comprado, há alguns anos, um esmalte que brilhava no escuro. E achava realmente o máximo. Mas, por favor, não vamos comparar ao fato de se ter os cabelos em chamas!

No início de dezembro, quando cheguei à rave que acontecia na Terra Encantada, qual não foi meu susto ao me deparar com a pista de techno vazia, enquanto que uma multidão brilhante lotava a pista de trance, todos devidamente uniformizados. Parece quer as mesmas pessoas que diziam gostar de tekinô, rumaram para outra tribo, sem nem mesmo saber a diferença entre os estilos. O que influencia é a moda, e apenas ela.

Acho bom deixar claro que, apesar do trance não me estimular muito, não tenho nada contra o som. Minha indignação é com o fato das pessoas terem comprado a imagem que veio com ele. Se a música eletrônica está se popularizando, e ficando cada vez mais acessível a todos, ótimo! Mas o que está acontecendo é uma prostituição do estilo; a massificação que todo bom apreciador teme.

Para o estudante de Desenho Industrial e DJ Gustavo Fróes, a repercussão do trance tem seus aspectos positivos: "Será ótimo para fazer com que o techno volte ao underground." Quem sabe assim, cada estilo não encontra sua verdadeira cara, e começa a se diferenciar? De repente este é o início do caminho para o fim do tekinô.

Tudo o que posso fazer, é procurar minha pista, e rezar para que não acendam um facho de luz negra sobre minha cabeça quando estiver usando preto. O resultado, abominável, seriam milhares de pontinhos brancos histéricos dançando pelo tecido preto, delatando todos os lugares por onde já passei.