Mesmo para aqueles que só vão ao cinema uma ou duas vezes por ano, o nome de Ennio Morricone deve trazer boas lembranças. Autor de cerca de 400 trilhas sonoras ao longo de quase 40 anos de carreira, Morricone entrou para a história da sétima arte ao compor temas inesquecíveis para "Era uma Vez no Oeste" e "A Missão". Apesar de seu envolvimento intenso com o cinema, Morricone jamais deixou de produzir música erudita, talvez impulsionado pelo desejo de ser reconhecido como um compositor sério, e sem dúvida seu nome figura entre os maiores e mais produtivos músicos do século XX.

Sua obra contém altos e baixos, e uma vez que se encontra quase inteiramente disponível em LP ou CD, torna-se oportuna uma recapitulação dos momentos mais marcantes. É possível que cada compasso de um compositor revele muito mais sobre sua personalidade do que ele gostaria. Analisando a extensa obra de Morricone sob essa ótica, percebe-se que ele é um romântico que responde com sarcasmo na dose necessária. Suas composições incluem inúmeras evocações das obras barrocas e clássicas, mas são em alguns momentos perigosamente transgressoras, beirando a cacofonia. O compositor não se interessa por rótulos, preferindo experimentar de tudo. Obrigado a escrever música tonal e consoante para o cinema, não espanta que vários de seus trabalhos para concerto sejam rigorosamente atonais e que não caiam com tanta facilidade nas graças de muitos. Parece que Morricone lança mão deles como um recurso para ventilar e renovar suas idéias. Os trabalhos de Morricone situam-se na encruzilhada mal-definida onde tradição e inovação se encontram, representando quase sempre um misto dessas duas. Não por acaso, o biógrafo Sergio Miceli define a música de Morricone com um anagrama que muito agrada ao compositor: "Norme con Ironie".

Ennio Morricone nasceu em Roma a 10 de novembro de 1928, filho de um trompetista e de uma dona-de-casa. Influenciado pelo pai, ingressou aos 9 anos na aula de trompete do Conservatório de Santa Cecília. Iniciou-se aí uma afeição especial que ele sempre cultivou pelo instrumento. Em 1943, o professor Roberto Caggiano reconheceu seu talento musical e o indicou para o curso de Harmonia, com duração de 4 anos. Morricone completou o curso em tempo recorde (6 meses) e o mesmo professor, entusiasmado, sugeriu que ele estudasse Composição.

Em 1944 Morricone iniciou o curso de Composição, tendo como orientadores Carlo Giorgio Garofalo e Antonio Ferdinandi. Na mesma época, já se apresentava como segundo trompete, ao lado do pai, no conjunto de Alberto Flamini. Em 1946 recebeu seu diploma de trompete, graduando-se com média 7/10. No mesmo ano, escreveu "Il Mattino", peça para voz e piano que conquistou o primeiro lugar em um concurso. O ano marcou também seu primeiro contrato -- como instrumentalista e arranjador para o teatro de revista. No ano seguinte, começou a compor para o teatro sério. Em 1951 abandonou o curso de Música Coral e Regência de Coro no terceiro ano. Já em 1952, diplomou-se em instrumentação para banda com média 9/10 e escreveu música para dramas de rádio. Em 1953, trabalhou com grande afinco na rádio e compôs uma "Sonata" para metais, tímpano e piano, seu Opus 1. Concluiu seus estudos de Composição em 1954 com média 9,5/10, sob a orientação do famoso Goffredo Petrassi, que se tornou um grande amigo e fonte de inspiração. Dois anos depois veio o casamento com Maria Travia.

Em 1960, começou a colaborar como arranjador em programas de televisão. Contava então 32 anos. Talvez estivesse um pouco decepcionado com a evolução de sua própria carreira. Suas peças mais sérias não atingiam a repercussão esperada, e ele temia seguir os passos do professor Petrassi, tornando-se um compositor de renome acadêmico porém praticamente desconhecido do público. Aceitava trabalhos como arranjador em televisão e rádio para garantir o sustento da família, que já somava um filho. No entanto, mal sabia ele que seu nome, em breve, correria o mundo.

Duas atividades marcam a década de 60: o início de sua colaboração com o cinema e a intensificação de seus trabalhos como arranjador para a RCA. Certamente o ingresso na indústria de cinema deixou a marca mais duradoura, porém não se pode ignorar o mérito de Morricone em transformar canções banais em sucessos de venda. Nessa época, trabalha com os cantores italianos mais em voga, incluindo Mina ("Se Telefonando" estoura nas paradas), Gianni Morandi, Milva e Gino Paoli (com destaque para "Sapore di Sale"). Não chega a ser surpresa que vários de seus temas para cinema sejam imediatamente transformados em canções populares gravadas por artistas como Paul Anka, Françoise Hardy, Charles Aznavour, Sergio Endrigo, Georges Moustaki, Scott Walker e até a nossa Astrud Gilberto. O nome do arranjador Morricone, no início mantido em segredo, vira sinônimo de grande êxito.

Em 1961, surgiu um convite que mudou por completo a vida de Morricone e influenciou as futuras gerações de compositores para cinema: Luciano Salce, conhecido diretor de comédias, chamou-o para escrever a música de "Il Federale". Trabalhou com Salce outras seis vezes nos anos seguintes. Aliás, diversas colaborações com um mesmo diretor são uma constante na carreira de Morricone, que se sente mais à vontade para compor quando se familiariza com a personalidade e as preferências do diretor.

Três anos depois, em 1964, Morricone começou a exigir de si mesmo um ritmo de trabalho que só tenderia a aumentar -- era uma locomotiva tomando fôlego antes de acelerar. Naquele ano, Morricone fez a trilha de doze filmes, o que se não chega a ser um marco ao menos atesta que ele compôs sem parar.

Para Morricone não existe segredo: sua jornada de trabalho é rígida. Ele se levanta cedo e compõe durante toda a manhã em seu estúdio, usando apenas um lápis e a pauta. "As pessoas que escrevem ao piano não são músicos de verdade. Eu componho direto no papel e às vezes, depois disso, vou até o piano para experimentar algumas coisas. Mas uso esse método raramente, pois a orquestra [aponta a própria testa] está aqui em cima" (1). A música flui do cérebro para o papel através de movimentos rápidos da sua mão, que logo enche a folha de pontos pretos. Após uma pausa para o almoço, Morricone retorna ao trabalho, com frequência orquestrando o que escrevera durante a manhã. Como predomina na indústria de cinema o uso de orquestradores para

acelerar o processo, Morricone se defende: "É um erro grave considerar um compositor que não faz suas próprias orquestrações como sendo um compositor 100%. Ou ele não é capaz, ou ele é preguiçoso, ou ele até é capaz mas não ama sua profissão - três pontos negativos que fazem dele metade de um compositor. Sinto-me confortado em dizer isso ao analisar os grandes compositores de outrora. Beethoven, Bach, Stravinsky e Mozart não utilizavam arranjadores ou orquestradores." (2) >>>segue>>>