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O ano de 1964 marcou o início de duas colaborações que se estenderiam por décadas: com Bernardo Bertolucci, para quem o Morricone musicou "Antes da Revolução", e com Sergio Leone.

A parceria com Leone teve início porque o diretor procurava um novo som para um faroeste que tinha em mente chamado "Por um Punhado de Dólares". Ao ouvir uma das canções arranjadas por Morricone, Leone percebeu que encontrara o estilo de música que queria. A trilha de Morricone demoliu por completo o modelo de música de faroeste até então vigente, baseado nos som expansivo e distintamente americano de Aaron Copland. Morricone representava os personagens sujos e maltrapilhos de Leone com uma dramaticidade exagerada, irônica, empregando uma série de instrumentos incomuns: guitarra, sinos, estalos de chicote, um coro masculino exortando "we can fight" e, sobretudo, o assovio de ouro de Alessandro Alessandroni, também compositor e diretor musical do grupo I Cantori Moderni, que participaria de dezenas de trilhas de Morricone. Pronto! Criava-se uma fórmula de sucesso que seria copiada incansavelmente pelos cineastas italianos, constituindo o chamado "spaghetti-western". Além dos quatro faroestes seguintes de Leone, Morricone trabalhou em outras vinte e cinco produções do gênero que o consagrou e do qual foi o maior expoente.

Pela trilha de "Um Punhado de Dólares", Morricone recebeu o cobiçado prêmio Nastro d'Argento, concedido anualmente à melhor música do cinema italiano. Além disso, Franco Evangelisti o convidou a integrar a Associazione Nuova Consonanza, o que Morricone fez com dedicação, participando várias vezes por semana das atividades do Gruppo de Improvizzacione Nuova Consonanza, que se reunia para tocar música improvisada durante as noites. Morricone, claro, apresentava-se ao trompete. Vários integrantes do grupo eram professores de música, e chega a ser surpreendente que um conjunto de membros tão ilustres tenha produzido apenas resultados medíocres. Alguns anos mais tarde, o conjunto gravaria a música de Morricone para o filme "Gli Occhi Freddi della Paura" (1971), que soa como uma série de ruídos sem sentido e pouco atraentes. Isso prova, entretanto, o interesse de Morricone pela experimentação sonora que o Nuova Consonanza representava. "Tocar com este grupo é muito proveitoso", afirma o compositor. "Relaxa e me estimula ao mesmo tempo, e meu trabalho para o cinema torna-se mais interessante." (3)

Em 1965 Morricone assinou vinte e um filmes, verdadeiro prodígio que motivou os críticos a lançarem a expressão "a trilha de Morricone desta semana é..." Ao contrário do que se poderia imaginar, a qualidade da produção aumentava. A impressão era a de que Morricone guardara muita música dentro de si durante seus quase 40 anos e que agora chegara a hora de extravasá-la. Dentre as inevitáveis músicas para faroestes, incluindo três filmes do popular personagem Ringo, destacava-se uma espécie de continuação do filme de Leone: "Por Alguns Dólares a Mais" marcava o retorno do Homem Sem Nome, interpretado por Clint Eastwood, e das melodias inspiradas e iconoclastas de Morricone. Mais uma vez, Alessandroni contribuía com os assovios, e seu conjunto I Cantori Moderni também marcava presença. Em alguns momentos do filme, Morricone carregava na atmosfera de suspense, dando uma nova dimensão às situações já exageradas concebidas por Leone, como na sequência em que o coronel Mortimer (Lee Van Cleef) acende um fósforo na corcunda do personagem de Klaus Kinski. A parte inesquecível do filme, porém, é o duelo final ao som de uma melodia de caixinha de música que torna a expectativa quase intolerável. Geralmente, o compositor recebe o filme todo montado e deve escrever música que se adeque à ação na tela. Leone, ao contrário, pediu a Morricone que escrevesse a trilha antes de ver o filme e depois montou as imagens de modo que essas se encaixassem à música. O resultado foi mais do que perfeito, e a sequência foi incluída por Leone entre suas três preferidas (as outras seriam o duelo final de "Três Homens em Conflito" e a tomada de encerramento de "Era uma Vez no Oeste").

O ano de 1965 também trouxe a primeira colaboração com Pier Paolo Pasolini, no filme "Uccellacci e Uccellini", que trazia créditos cantados. Morricone tornaria a trabalhar com o diretor outras seis vezes. Trinta anos depois, em 1995, o filme "Pasolini, un delitto italiano", de Marco Tulio Giordana, tentaria explicar o assassinato do diretor, e Morricone, ao compor a música, aproveitou para incluir um requiem dedicado ao amigo falecido. Outro diretor com quem Morricone teve um primeiro contato em 1965 foi Gillo Pontecorvo, um dos nomes mais importantes do cinema politicamente engajado. Para "A Batalha da Argélia", Morricone escreveu uma partitura caracteristicamente militarista, densa, contrabalançada pelo tema do personagem Ali: a repetição de cinco notas, sugeridas pelo próprio Pontecorvo.

Morricone iniciou diversas parcerias duradouras com outros diretores em 1966 (Sergio Corbucci, Alberto Lattuada, Damiano Damiani), porém doze de suas trilhas naquele ano empalidecem quando comparadas à décima terceira: "Três Homens em Conflito", a conclusão da trilogia dos dólares de Sergio Leone, novamente contando com Clint Eastwood no papel do Homem sem Nome e com Lee Van Cleef desta vez interpretando um vilão implacável. Pouco resta a ser dito sobre essa trilha, um dos grandes exemplos da arte de musicar imagens. O tema principal entrou para a história e foi usado nos comerciais do cigarro Camel, mas o filme ainda oferece outras melodias notáveis, como as que ficaram conhecidas como "História de um Soldado" e "O Êxtase do Ouro", essa última marcada pela interpretação belíssima de Edda dell'Orso, a voz principal do conjunto I Cantori Moderni. Edda e Morricone trabalhariam juntos em dezenas de outros filmes, explorando progressivamente o uso da voz humana. "A voz é o mais belo instrumento", declarou o compositor. "Ela vem de dentro, do fundo do nosso corpo" (4) .

Na década seguinte, Morricone exigiria que Edda simulasse choro (no episódio "Diario di um Pazzo" da série de terror da TV italiana "Drammi Gotici"), gemidos ("Macchie Solari"), riso maníaco ("Sesso in Confessionale") ou, com maior frequência, sons de cunho erótico, criando músicas absolutamente únicas. Quando Edda enveredava pelo canto lírico, como na trilha de "Vergogna Schifosi" (1968), não sobrava espaço para a concorrência. De todos os solistas que trabalharam com o compositor, foi ela quem melhor representou o contraste, o casamento volúvel entre a inovação e o classicismo, tornando-se perpetuamente ligada ao nome de Morricone.

Em 1967 o compositor foi convidado a integrar o júri do vigésimo Festival Internacional de Cinema de Cannes, um testemunho de seu prestígio. Iniciou na mesma época colaborações que se estenderam por anos a fio com três diretores: Roberto Faenza, Mauro Bolognini e Giuliano Montaldo, para quem escreveu a trilha de "Ad Ogni Costo", profundamente influenciada por ritmos e sonoridades brasileiros. Dentre os dezessete filmes que assinou só nesse ano, destaca-se ainda o psicodélico "Diabolik" de Mario Bava, cuja música era apropriadamente bizarra.

O ano seguinte marcou o início do período mais fecundo e interessante da música de Morricone, que se estenderia até 1974. Diminuindo sensivelmente suas atividades como arranjador de canções em favor da composição de trilhas, em 1968 ele consegue participar de cerca de vinte e nove filmes. Três de suas partituras podem ser descritas como excepcionais: "Era uma Vez no Oeste", "A Tenda Vermelha" e "Metti, una Sera a Cena". Merecem destaque, ainda, "E per Ciello un Tetto di Stelle", linda trilha para um faroeste que se caracteriza pelo assovio de Alessandroni; "H2S", para o filme de Roberto Faenza; "Guns for San Sebastian", primeira colaboração com o diretor Henri Verneuil; e "Un Tranquillo Posto della Campagna", seu primeiro trabalho para o também engajado diretor Elio Petri, de cujos filmes se tornaria compositor constante.

A trilha de "Era Uma Vez no Oeste" foi um verdadeiro fenômeno naquele ano: o compacto contendo os dois temas principais tornou-se o mais vendido em todo o mundo. O filme talvez seja a obra-prima de Sergio Leone: lento, meticuloso, ao mesmo tempo reverente e debochado, beneficiava-se de dois toques de gênio: a escalação de Henry Fonda, o bom moço de Hollywood, para o papel do brutal vilão Frank, que não hesita em assassinar uma criança, e a música de Ennio Morricone.

Antes mesmo da filmagem, Leone encomendou a seu compositor um tema para cada personagem do filme. Morricone, então, compôs vários, e Leone descartou aqueles que não lhe interessavam. Restaram cinco: à ex-prostituta Jill (Claudia Cardinale) coube o tema principal, de um lirismo impressionante, reforçado pela voz de Edda; Gaita (Charles Bronson) tem sua própria assinatura, um motivo tocado no instrumento que carrega sempre consigo; Frank ganha um tema ameaçador; Cheyenne (Jason Robards) é representado por uma música brincalhona, refletindo a atitude do personagem; e o dono da ferrovia (Gabrielle Ferzetti) aparece associado a um tema curto e sonhador relacionado a seu desejo chegar até o mar. Além de Edda, outros colaboradores importantes na trilha são I Cantori Moderni de Alessandroni, com assovios do próprio e a gaita de Franco De Gemini. A música, utilizada com parcimônia, eleva o filme à categoria de clássico. Não é possível esquecer as imagens do último duelo, musicado com uma superposição dos temas de Gaita e Frank, sugerindo assim que fatalmente os dois se encontrariam para decidir velhas pendências. É curioso notar que, na abertura do tema de Frank, Morricone emprega permutações de três notas, uma técnica a que tornaria a recorrer várias vezes na mesma época.

Depois de "Era Uma Vez no Oeste", Morricone não teria muito a acrescentar ao gênero. Retornou ainda algumas vezes àquele estilo de composição, como em "Por um Punhado de Dinamite" (1971), o último faroeste assinado por Leone, e "Meu Nome É Ninguém" (1973), de Tonino Valerii, filme que Leone produziu e, em parte, dirigiu. Tanto um quanto o outro apresentam temas memoráveis que alcançaram algum sucesso, como "A Marcha dos Mendigos" (sincopada ao som de arrotos!) e a melodia pop que representa o pistoleiro Ninguém. "Occhio alla Penna" (1981), filme risível com Bud Spencer, já revela um Morricone entediado, repetindo truques antigos, e desde então ele vem relutando em musicar outro faroeste.

"A Tenda Vermelha", outro filme de 1968, foi um fracasso internacional, apesar da excelente contribuição musical de Morricone. O filme era confuso, repleto de erros históricos, mas ainda assim Morricone empenhou-se em refletir a tragédia da malfadada expedição ao pólo Sul, contando com os talentos vocais de Edda e a viola de Dino Asciolla, outro colaborador frequente.

Já "Metti, una Sera a Cena", de Giuseppe Patroni Griffi, inspirou o compositor a escrever um de seus temas mais famosos, mais uma vez recorrendo a permutações de três notas e à voz de Edda. Pode ser que a presença da atriz brasileira Florinda Bolkan no elenco tenha induzido Morricone a emular a bossa nova. De qualquer maneira, a parceria entre Morricone e Edda chegou a ser comparada àquela entre Tom Jobim e Elis Regina graças a uma série de trilhas, a começar por aquela que ele compôs para este filme. "Metti, una Sera a Cena" também inclui o versátil tema "Nina", e merecidamente o compositor foi de novo laureado com o prêmio Nastro d'Argento.

Próximo ao final da década, Morricone não aparentava sinais de cansaço: em 1969, escreveu dezoito novas trilhas, várias delas dignas de nota. "Investigação sobre um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita", o cínico filme de Elio Petri, ganhou um tema apropriado. Em "Metello", de Mauro Bolognini, o sucesso adveio da romântica melodia principal, cantada pelo astro Massimo Ranieri num arranjo do próprio compositor. "Queimada", de Gillo Pontecorvo, soa hoje em dia como um estudo para a realização de "A Missão" quinze anos depois, porém sustenta-se muito bem como acompanhamento do filme. "O Clã dos Sicilianos", dirigido por Henri Verneuil, com quem Morricone ainda colaboraria outras quatro vezes, trazia um tema brilhante que não se desgastava, apesar de repetido ao longo do filme.

O maior sucesso de 1969, no entanto, foi "O Pássaro das Plumas de Cristal", que marcava o início da carreira de Dario Argento como diretor. Argento e Morricone já se conheciam, e foi mais do que natural que os dois trabalhassem juntos, situação que se repetiu outras quatro vezes. Entretanto, a parceria mais marcante foi, sem dúvida, o primeiro filme, uma vez que, à semelhança do que ocorrera anos antes com "Por um Punhado de Dólares" e a gênese do spaghetti western, Morricone e Argento criaram um novo gênero de cinema, que foi denominado de "giallo" (amarelo, em italiano) porque as histórias lembravam os livros de suspense baratos publicados em páginas amarelas. Caracteristicamente, os roteiros de filmes do gênero incluíam vários assassinatos, filmados com requintes explícitos de crueldade, além de um ou mais vilões gravemente perturbados por traumas de infância e uma série de pistas falsas. Por via de regra, as soluções não faziam muito sentido, mas a atmosfera de mistério era suficiente para atrair o público. Morricone definiu um modelo para esse tipo de filme ao musicar "O Pássaro das Plumas de Cristal" com sons estranhos (que remetem ao seu trabalho com o conjunto Nuova Consonanza) para gerar suspense e uma canção de ninar que representava a aparência enganosa do assassino - bem como suas neuroses não resolvidas.

"O Pássaro das Plumas de Cristal", de fato, é um filme superior aos vários que brotaram logo a seguir, assim como sua trilha. Muitos eram atrozes, com títulos zoológicos sem nexo, e a música de Morricone fazia um pastiche da cartilha que ele mesmo inventara, a exemplo do tema principal de "A Tarântula do Ventre Negro" (1971) e dos sons insuportáveis de "Macchie Solari" (1974), em que Edda geme como se estivesse sob tortura. Era o cinema italiano se retroalimentando à exaustão.

Mas, afinal, por que Morricone insistia em trabalhar tanto, escrevendo freneticamente para mais de vinte filmes por ano? De acordo com Michael Nyman, que também escreve para cinema (compositor dos filmes de Peter Greenaway e de "O Piano") e tem Morricone como uma espécie de mentor: "Morricone queria que a música de todos os filmes fosse da mais alta qualidade e, ciente de que nem todos os outros compositores garantiriam o mesmo padrão, aceitava o máximo de trabalhos que podia, incluindo projetos que não mereciam seu talento. Com isso, compensava as deficiências dos outros. Ele trabalhava com ardor para garantir que os filmes teriam trilhas elegantes." (5)

A SEGUIR: Fastígio e Queda -- os anos 70

Referências:

(1) Em entrevista a Alejandro Ryker, no jornal ABC de 19 de março de 1995.

(2) Em entrevista a Chris Willman, no Los Angeles Times de 23 de junho de 1994.

(3) Em Les Entretiens du monde de la musique #33 de abril de 1981.

(4) "Por un puñado de musica", Musica de Cine #4, Outubro de 1990.

(5) Declaração à revista Sight & Sound de outubro de 1994.