Você sabia que na Dinamarca, a maioria dos jovens de 18 anos já mora sozinho, em seus próprios cantos, longe da casa dos pais. Não quer dizer que eles trabalhem em lanchonetes desde os 14 anos como os "programados" jovens norte-americanos. O fato é que nossos amigos escandinavos vivem sob a tutela de um Estado que garante o direito de todo jovem, ao completar 18 anos, buscar a sua liberdade, ou seja - pasmem - o governo paga para a garotada morar sozinha.
Nossa realidade, ainda que de classe média brasileira, é extremamente diferente. Podemos citar dois fatores que dificultam a saída dos jovens tupiniquins de seus ninhos: 1) as dificuldades financeiras que enfrentarão (o que chega a ser uma obviedade), e 2) a cultura ítalo-judáica centrada na figura protetora e centralizadora da MÃE (que medo...), que mina, através de seu árduo labor gratuito, as ponderações sobre os prós e contras de se morar sozinho (quando não caem em prantos chantagistas quando aventada a hipótese).
Como abrir mão dos mimos de caminha feita, comida quentinha na mesa, roupinha lavada e impecavelmente passada? Como viver sem a automaticidade com que a toalha molhada em cima da cama vai direto para o varal, as cuecas usadas para o cesto de roupa suja, os pratos e copos usados para a pia da cozinha, sob o módico preço de um sazonal espasmo no estilo "Essa casa tá uma bagunça!" ou "Você acha que eu sou sua empregada?", o qual tem validade de poucas horas.
Temos também que dar os devidos créditos (ou débitos) a nossa realidade social que permite um descanso para as mamães por meio de suas servis ajudantes: as empregadas, verdadeiras mães de baixa remuneração. Com certeza, nossa realidade é muito diferente da Dinamarca, que muitos podem não achar por estarem conectados à internet (globalizados, antenados), porém ainda capazes de gritar: "Zuleika, traz uma xícara de café!".
Ainda há o que se dizer da conta de luz que nunca repousou sob a sua escrivaninha, a lâmpada queimada do seu quarto que no dia seguinte já é outra, a televisão que quebrou e que, fora de qualquer ato seu, aparece consertada.
Dá até para lembrar daquela revistinha de sacanagem que você lia na adolescência, que, por descuido, repousou debaixo da cama, e que no dia seguinte, apesar da afronta moral, aparece ajeitadinha naquele esconderijo que você "achava" irredutível, sem que ninguém fale nada sobre o assunto. Eu sei, tem ingredientes sobrenaturais, assim como de concorrência desleal com a hipótese de morar sozinho.
Mas como esta é uma revista sobre hábitos noturnos, vamos às vantagens de se morar sozinho. Chamar quem você bem entender para sua casa, até aquela malucada motoqueira, sem que a mamãe pergunte com que "tipo" de gente você anda. Transformar a sua casa numa verdadeira Jamaica, sem que você seja objeto de um inquérito maternal-policial com direito à busca e apreensão. Armar aquela festa arrasa-quarteirão e acordar na maior rêbordosa para limpar a sujeira que seus amigos não podem fazer em suas próprias casas. Para finalizar, fazer de sua casa um ninho de louco-amor, sem ter que entregar o currículo de sua companhia no setor de recursos humanos desta grande instituição que é a casa dos pais.
Pois é, todos esses argumentos tem uma validade imediata. Para quem só pensou neles na hora de sair de casa, e pintou e bordou nos primeiros meses, vai chegar a hora dos verdadeiros e mais legítimos motivos para você ter seu espaço aflorarem. E nem tudo serão flores, mas os resultados em seus hábitos serão extremamente construtivos.
Próxima semana continuamos com nossa série "Morando Sozinho" para saber mais sobre a dor e delícia desse novo degrau em nossas vidas. Até lá.
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