Enquanto a cópia restaurada de "2001: Uma Odisséia no Espaço" não aporta por aqui (foi prometida para algum momento ao longo do ano), temos que nos contentar com uma cópia já bastante abusada que volta e meia entra em cartaz. Tive, há uma semana, a chance de assistir ao filme no Rio Design Barra. Que, aliás, destaca-se não só pela beleza do shopping como pelo conforto da sala de projeção, com tela modesta mas som, ar condicionado e poltronas bem agradáveis.
O filme começa em grande estilo, com uma abertura à moda antiga: na tela, negra, estalam riscos que atestam a idade da cópia, enquanto a estranha música de Ligeti enche os ouvidos da platéia, preparando o caminho para a viagem que virá. Com a primeira imagem - a Terra e o Sol nascentes vistos da Lua -, explode o "Assim Falava Zaratustra", que ficou conhecido como "Tema de 2001" graças àquela versão pauleira de Deodato. E vem o primeiro ato do filme.

"A Aurora do Homem" não deve ser fácil de digerir para platéias mais novas. Vários amigos que tentaram assistir ao filme desistiram durante os primeiros vinte minutos, em que o diretor Stanley Kubrick e o co-roteirista Arthur C. Clarke ousaram ao retratar a pré-história com longas tomadas estáticas e parcos diálogos de macacos, elaborados especialmente por Anthony Burgess. O silêncio e a cadência lenta porém segura do filme fazem dele uma obra especial, que exige mais do espectador do que as costumeiras pipocas Hollywoodianas. Quando surge o monolito negro, acompanhado de mais Ligeti na trilha sonora, muita gente já ronca sonoramente. Uma pena, porque perde a sugestão mais ousada dos criadores: a de que uma inteligência alienígena tenha impulsionado a evolução da humanidade.
Mas enveredar por esse caminho seria comprometer uma das grandes delícias de "2001", que é justamente tentar interpretar o filme. Confesso que já o vi na íntegra mais de cinco vezes e até hoje descubro novos detalhes que me ajudam a montar o quebra-cabeças.

O segundo ato do filme passa-se na órbita da Terra e na Lua, e abre com uma das mais belas transições da história do cinema: do osso para o satélite, ao som do "Danúbio Azul", com uma elegância que não encontra par em produções recentes. O doutor Heywood Floyd vê-se envolvido na discussão de uma anomalia magnética descoberta sob a superfície lunar. Sabe-se lá como, os tradutores brasileiros conseguiram a proeza de transformar o original "Tycho" em "Cracow", nas legendas. E lá vão os cientistas, agora sobrevoando a Lua, em direção a outro monolito, que transmite uma misteriosa mensagem em alta frequência. Os efeitos especiais de Douglas Trumbull levaram o Oscar e ainda provocam assobios de espanto. Como curiosidade: a filha de Kubrick interpreta a filha do doutor Floyd em uma chamada por videofone.

A música melancólica de Khachaturian e uma interminável tomada da nave Discovery dão início ao terceiro ato do filme, que se passa alguns meses depois, quando uma expedição é mandada até a órbita de Júpiter para investigar um terceiro monolito, desta vez muito maior do que os anteriores.

Aqui, Kubrick dá provas de que definitivamente não estava fazendo um filme para as massas, apesar do apelo universal da história: o vácuo, contrariando os seriados de Flash Gordon e os filmes de George Lucas que viriam depois, não conduz som. A vida solitária e monótona dos astronautas revela-se em imagens assépticas. O cooper, no espaço, deixa de ser um simples exercício para se tornar um meio eficaz de combater o desamparo da centrífuga. Finalmente, a introdução do supercomputador HAL 9000, que controla a nave, vem adicionar um bem-vindo elemento de tensão e humor à história. Antológica a sequência da leitura labial, bem como os diálogos entre o computador rebelde e o astronauta Dave Bowman. Kubrick e Clarke pintavam os prodígios de um futuro próximo, ao mesmo tempo em que chamavam a atenção para os perigos do avanço tecnológico acelerado. Quando o único sobrevivente da missão desativa gradativamente o computador, a sequência é tocante: assemelha-se a um assassinato a sangue frio, pontuada pelo ruído incessante de profundas respirações. Kubrick não poderia conduzir suas platéias mais longe.

Ou poderia? O quarto e último ato do filme intitula-se "Júpiter e Além do Infinito", prometendo levar a limites nunca antes explorados a viagem que começou na "Aurora do Homem". E cumpre à risca. O astronauta penetra o gigantesco monolito, que funciona como portal, e se depara com uma realidade aterradora para sua mente ainda tão pequena. Valendo-se de luzes, filtros coloridos e muito Ligeti, Kubrick constrói a sequência mais exuberante de "2001", motivo suficiente para que ela seja vista no cinema, em todo seu esplendor.

Uma jornada que leva o astronauta, e consigo a humanidade, para além dos limites do espaço e do tempo e, por fim, através de si mesmo, em direção a nova vida. Mas não é um mero humano que encara a Terra, na belíssima tomada final, e sim uma Criança Estelar, fruto da conjunção com uma inteligência alienígena. Serena, ela olha nosso planeta com curiosidade - divertimento, até -, como se percebesse um mundo cheio de novas possibilidades. Ela personifica nosso futuro luminoso.

"2001" não é simplesmente uma obra-prima de ficção-científica: trata-se de um marco do cinema, um dos triunfos que transcendem as limitações do formato e o transformam em arte. O filme merece ser visto, revisto, discutido, apreciado e mesmo estudado. Como pontos de partida, indico o romance homônimo escrito por Clarke, e "Os Mundos Perdidos de 2001", livro escrito por Clarke e Kubrick que detalha a trajetória da ambiciosa produção, desde a idéia original até sua conversão em filme. O caminho foi conturbado, incluindo diversas simplificações e a rejeição da trilha sonora composta pelo renomado Alex North. Talvez seja mais fácil encontrar os livros em sebo: ambos foram lançados em português há vários anos pela editora Expressão e Cultura. Outro caminho a explorar é o da música. A trilha sonora original contém as peças ouvidas no filme na ordem em que aparecem na tela.

Já a música rejeitada de North pode ser conferida em CD com Jerry Goldsmith regendo a National Philharmonic Orchestra, em gravação pelo selo Varese Sarabande que conta com uma extraordinária capa de Matthew Peak. A partitura é agressiva (para o primeiro ato) e etérea (para a viagem à Lua), destinando-se apenas para exploradores mais ousados, claro.

E àqueles que insistem em dizer que Kubrick e Clarke "erraram", que já estamos em 2001 e ainda não existem vôos comerciais da Terra para a Lua, só se pode retrucar: a alma do filme não está em suas previsões, mas na maneira como narra a evolução da humanidade. E, além disso, que maravilha não seria se todos os cineastas "errassem" desse jeito!