Por Alexandre Travassos


Na São Paulo da década de 80, um porão na praça Benedito Calixto conhecido como "Lira Paulistana" abrigava os mais diversos experimentos culturais, de onde saíram bandas como a hoje esquecida Premeditando o Breque. Arrigo Barnabé, no entanto, nunca se apresentou por lá; mas isto não o impediu de ser considerado o maior expoente da chamada Vanguarda Paulistana. Outro grande nome desse período é o do "artista maldito" Itamar Assumpção.

Paranaense, formado em Composição pela USP, Arrigo Barnabé lançou em 1980 "Clara Crocodilo", juntamente com a banda Sabor de Veneno (que abrigava, entre outros, Tetê Espíndola). O álbum é considerado por muitos a experiência mais radical que a MPB já testemunhou depois do Tropicalismo. A formação acadêmica do então estudante de Composição evidenciava-se no apuro teórico das melodias, e as letras, que misturavam linguagem de HQs, poesia concreta, metafísica e literatura erótica, eram apresentadas em um contexto essencialmente urbano, narradas ao estilo dos locutores de rádio. Seu segundo disco, "Tubarões Voadores" (1984) recebeu aclamação da crítica e foi eleito o álbum do ano pela revista francesa "Jazz Hot".

Nos anos seguintes, Arrigo foi condenado ao ostracismo: sua música não conseguia espaço algum no mercado fonográfico, uma vez que era considerada invendável. Tentou adequar-se às necessidades da indústria, o que se revelou um grande erro. Apesar das recorrentes citações de personalidades como Caetano Veloso e Tom Jobim, seu som não emplacava. Retomou seu trabalho como antes, mantendo-se à margem do processo comercial, e acabou obtendo grande êxito como compositor de trilhas sonoras, com destaque para "Cidade Oculta", onde também atuou.

Seu grande amigo Itamar Assumpção é detentor de um passado artístico semelhante. Filho da Lira Paulistana, surgiu com um trabalho que fundia samba, reggae, funk, pop e rock, sempre experimentando com performances ao vivo que misturavam poesia, dança e vídeo. Itamar também lançou seu disco de estréia em 1980, o desconcertante "Beleléu, Leléu, Eu", com a banda Isca de Polícia. Sempre evitando o sucesso fácil e imediato, acabou sendo rotulado de maldito, underground e marginal, o que ele sempre rejeitou. "Sou compositor de música popular, não adianta vir com historinha, pois a nossa música ainda não chegou numa maioria. E não me venha com essa de maldito, só se maldito significar aquele que faz o que tem que ser feito. Eu não posso ficar nessa. Meus antepassados são a Clementina de Jesus, que foi empregada doméstica durante a vida inteira, e o Cartola", afirma.

Itamar possui uma grande legião de fãs na Europa, sobretudo na Alemanha, onde se apresenta com regularidade desde 1988. Muitas de suas canções foram gravadas por outros intérpretes, notadamente cantoras, como Ná Ozzetti, Cássia Eller e Zélia Duncan. Sem nunca ter se submetido aos esquemas das gravadoras, Itamar, assim como Arrigo, ainda está para ser descoberto: "Nunca quis me dar bem, quero mais é ser dono do meu trabalho. Não recebi herança, minha música é meu patrimônio e eu mando na minha carreira", dispara.

A platéia que lotou o pequeno Teatro III do CCBB do Rio de Janeiro no último dia 20 sabia o que estava por vir. O encontro entre os dois artistas não era propriamente uma novidade (eles já haviam percorrido o Brasil em 1990 com o show "Enfim Solos"), mas certamente isso não tornava o evento menos interessante. Arrigo Barnabé apresentou-se primeiro, sentado ao piano e acompanhado pelo magnífico tecladista Paulo Braga. Esse dueto interpretou as principais obras de Arrigo, especialmente árias de "Clara Crocodilo". Decepcionaram-se aqueles que - como eu - esperavam algo nos moldes do disco, principalmente da versão ao vivo lançada ano passado, com seus arranjos grandiosos. O clima intimista, contudo, ressaltou a virtuosidade de Arrigo ao piano. Outro escorregão foi a interpretação de algumas músicas em versão instrumental, uma vez que suas letras são fundamentais no processo de compreensão da obra. Mesmo assim, não houve quem não aplaudisse entusiasticamente.

Em sua anunciada última música, Arrigo contou com a ajuda de Itamar, que surgiu no palco como um extraterrestre (lembram de "O Predador"?), sacudindo seus dreads e sussurrando os versos finais de "Clara Crocodilo". Depois, Itamar e sua banda tomaram conta do recinto, interpretando inúmeras canções na base do improviso, levando o público à gargalhar diversas vezes, como quando cantou "ontem Deus quis falar comigo / mas não lhe dei ouvidos / você cuida dos seus assuntos / que eu cuido dos meus". E quando, arrependido, tenta novo contato com o Criador, eis que este lhe adverte: "Chama Oxalá". Acompanhado de Clara Bastos no contrabaixo e de sua filha Anelis Assumpção (grávida de três meses) nos vocais, Itamar fez de sua performance carioca uma experiência inesquecível.

É realmente impressionante - e muito triste - constatar que esses dois excepcionais artistas estejamna estrada há tanto tempo, sem qualquer tipo de divulgação consistente de suas obras, e sem que seus trabalhos sejam apreciados fora do circuito erudito. Enquanto nos enfiam garganta abaixo bandinhas da moda e sons de vanguarda duvidosa, ambos estão na área há mais de vinte anos, dando seu recado para quem quiser ouvir, da maneira mais autêntica possível. Numa rápida conversa com Arrigo depois do show, ele me disse estar finalizando os detalhes de sua nova ópera-rock, que estará estreando no CCBB-SP mês que vem. Itamar também está com um novo disco no forno (o segundo da trilogia "Pretobrás"), uma parceria com seu velho amigo Naná Vasconcelos. É aguardar para conferir.