Um dilema que todos vivemos nessa época é o quê fazer com tanta "correria atrás do tempo". Por um lado, a falta de tempo para fazer tudo o que é preciso (e desejado) já é considerada intrínseca a esse período da vida. Afinal, jovens costumam ter um gás especial para realizar seus projetos, de acordo com os anseios de cada um e, muitas vezes, ultrapassam as barreiras do permitido pelo limite cronológico. Por outro, essa "eterna falta de tempo" diz respeito ao que temos observado da contemporaneidade. Nunca basta falar uma só língua, nunca basta ler meia dúzia de livros, nunca basta ver alguns filmes. Internet, jornais, tv, revistas, festas, centros culturais, informações, informações e mais informações. Essa sensação de falta de tempo tem estado muito presente para todos. Resumo dos tempos modernos... ou melhor, tempos (pós) pós-modernos.
Um assunto que tem estado em voga diz respeito a isso e vai além: o quê fazer com nossos sonhos? Vivemos uma época bastante produtiva tanto por nossa idade quanto por nossa capacidade informacional. Nossos interesses são diversificados e apontam para diferentes projetos. No entanto, ao tentar colocá-los no papel e começar a produção, de fato, vemos tudo correr por água abaixo.
Claro que existem os sobreviventes. Não é raro vermos amigos próximos que se dividem de forma heróica entre o trabalho e produções particulares. Matias Maxx, é um ótimo exemplo do "jovem-multi-uso". Ele nos falou um pouco de como faz para conciliar a produção própria com seu trabalho de programador. "Como eu consigo? Eu não consigo..." foi a primeira reação do jovem zineiro e fotógrafo. E complementou com a afirmação de Neil Gaiman e Dave Mckean (respectivamente, roteirista e ilustrador de HQs) de que "o dia deveria ter 32 horas".
Para uns, pode parecer exagero, mas o que Matias demonstra é um sentimento que está em todos nós. Falta tempo para respirar, falta tempo para parar e refletir, falta tempo para fazer a produção particular condizer com o que se deseja. No trabalho, por sua vez, não há muita saída. "É uma grande bola de neve... no trabalho eu tenho que ser 100%, e manter meu status de funcionário eficiente... Daí, o zine fica para as madrugadas e fins de semana... de vez em quando eu viro a noite e chego no trabalho que nem um zumbi, me entupo de cafeína furando o estômago até o fim do expediente".
Que assim seja, porque o que ele não faz é abrir mão do Cucaracha. Se tivesse que escolher um dos dois, não hesitaria, "escrever sobre baratas, guerrilhas e hip-hop me dá muito mais tesão do que ficar montando páginas para grandes clientes".
A bem da verdade, todos temos um pouco de Matias dentro de nós. Cabeças borbulhantes a todo vapor. Idéias.... Algumas originais, algumas nem tanto. Vontade de mudar o mundo. Intenções inovadoras. Tentativas mis. "Tudo ao mesmo tempo agora" é o lema que vinga, não somente pelo seu cunho interessante, mas também, e principalmente, pela necessidade. É a possibilidade de englobar o sonho e a realidade, o projeto e o trabalho. O ideal seria que esses dois pilares fossem um só: trabalhar no que se acredita, sonhar no que se batalha, realmente.
Para os que não agüentam viver no dilema, surge a questão: como fazer com que seu anseio seja tanto seu trabalho quanto diversão? Será possível viver as duas situações sem "pirar"? É necessário escolher uma só?
Para Léo Feijó, sócio da da Matriz, considerado um dos maiores responsáveis pela noite dita alternativa do Rio de Janeiro, a decisão veio em forma de radicalização. Abriu mão da 'grande-e-maravilhosa-empresa-que-todos-queriam-estar' e foi em busca de seus projetos experimentais. A bem da verdade, nem eram mais tão experimentais assim, pois tanto a Loud! quanto a Casa da Matriz já estavam indo de vento em poupa. Largar tudo causou surpresa em alguns, e compreensão em outros, "jornalistas são seres muito abertos a idéias novas, e por isso sempre recebi muito apoio de quem sabia o que eu estava fazendo no Bukowski, na Casa da Matriz e na Loud!. Claro que alguns me chamaram de louco, mas e daí?".
E foi sem medo de arriscar que o produtor cultural carioca pôs os pés no freio. Jornalista da Gazeta Mercantil, Léo já havia trabalhado no Jornal Extra e Jornal do Brasil. Segundo ele, as diferentes redações foram uma ótima aprendizagem e fundamentais para desenvolver seu lado produtor, no tempo certo. Mas arriscar foi necessário. "Estabilidade é importante mesmo para quem não acredita nas possibilidades que existem além de um escritório e um cargo qualquer".
Sim, existe vida fora do mundo pragmático que vivemos. Existe experimentação, existe possibilidade de realização e produção. Claro que, para isso, é necessário ter planejamento e persistência.
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