Desde agosto de 1999, as terças-feiras do multicultural Bar Ocidente são povoadas por um público muito eclético - que reúne pessoas jovens, outras nem tanto, garotas de cabelo roxo e até gente que parece que vai no Venezza. O motivo? Literatura, poesia, bom humor. Esse é o Sarau Elétrico, bem sucedida empreitada que tem à frente a "mãezona" do radialismo gaúcho Kátia Suman, o músico de veias literárias exacerbadas Frank Jorge e o professor da UFRGS e escritor (que vende muito bem na Feira do Livro) Luís Augusto Fischer.

A mecânica do Sarau Elétrico é bastante simples: poemas, crônicas e textos diversos - sempre reunidos por um tema - são lidos pelos três integrantes fixos e por mais um convidado especial. Só para dar dois exemplos, já estiveram no Sarau pessoas tão distintas como o governador e pajador Olívio Dutra e o cineasta e replicante Carlos Gerbase. Depois, uma canja musical é servida, também por um convidado especial.

O Sarau dos colorados (além de não ter nenhum gremista entre eles, só o Frankjá vale por 2, dos mais fanáticos) é um programa cultural que combina com a estética do Ocidente. As luzes apagadas, com velas nas mesas - em castiçais improvisados de garrafas -, dão o clima de penumbra e intimidade. O público lota a casa; quem chega cedo consegue uma mesa, e os retardatários ocupam qualquer espaço disponível. Público, aliás, que fica se babando para participar: alguns levam textos - próprios ou não - para serem lidos pelos integrantes do Sarau; outros pleiteiam alguns segundos no microfone, rara e eventualmente cedidos pela Kátia ao final da sessão.

"Como se divertir num programa desses?", perguntou uma amiga esses dias. "Como não se divertir!", eu respondi. A simples audição de textos pode ser, de fato, maçante; mas o carisma da trupe do Sarau e as gotas de humor que permeiam até textos mais sérios - ainda que sempre mantendo o respeito pela obra - fazem do programa um prato cheio de erudição e divertimento bem dosados. Frank Jorge, que sempre leva um ou mais textos próprios, nvariavelmente arranca risos dos presentes, com suas "crocâncias" e tiradas irônicas de fino humor guasca. As intervenções líricas e recheadas de cultura de Fischer pontuam o quase proverbial "machismo" do Prof. Moreno, "convidado permanente" há um ano do Sarau, com sua Coluna Grega - uma história, muito bem interpretada e devidamente comentada, que relaciona a mitologia com o assunto ou autor do dia. A afinada química entre todos eles acaba, muitas vezes, deixando os textos em segundo plano.

Especialmente indicado para dias de tempo fechado, o Sarau vai muito bem com vinho tinto e uma companhia agradável. Mas não espere uma aula de literatura; o aula que eles dão, na realidade, é de como fazer cultura em nossa cidade.