As
referências com relação à androginia não param em "O Banquete". No budismo existem
representações andróginas de Bodhisattv (aquele que devota sua vida em ajudar
outras pessoas). Já no hinduísmo, Shiva e Shakti, os primeiros deuses de algumas
versões da cosmogênese hindu, formavam, no princípio, um só corpo, na manifestação
chamada Ardhanarisha, o "Senhor Meio Mulher". E na Babilônia, o deus Lua Sinn
era chamado como "Ó, Mãe-Útero, geradora de todas as coisas, Ó, Piedoso Pai
que tomou sob seus cuidados o mundo todo".
Mais
perto da nossa contemporaneidade, o rock também teve vertentes que flertavam
com a androginia. Uma delas, o glam rock, predominante na década de 70, era
caracterizado principalmente pelas performances no palco e pelo visual. Muita
maquiagem, roupas carregadas de plumas e paetês conferiam aos músicos um ar
andrógino, fazendo sucesso entre homens e mulheres.
Sem dúvida,
o maior expoente desse movimento foi David Bowie. Seu visual andrógino, seus
figurinos extravagantes e a incorporação de personagens paralelos, como Ziggy
Stardust, transformaram David Bowie em um espetáculo teatral à parte. Como
explicado claramente no filme "Velvet Goldmine", que aborda o estouro do glam
rock nos anos 70, o comportamento andrógino tornou-se uma febre, com jovens
do mundo todo pintando seus lábios, unhas e raspando suas sobrancelhas. A
maquiagem e o glitter eram as ferramentas da trangressão.
A estética
andrógina dos músicos ajudava a confundir as pessoas quanto suas preferências
sexuais. Talvez porque a androginia tenha sido sempre um fator de total comprometimento
com a sexualidade humana. Mick Jagger disse uma vez em 1985, deixando, como
a própria androginia o faz muito bem, um certo quê de ambigüidade: "Sou decididamente
heterossexual, mas é claro que houve um tempo quem flertei com a androginia,
e daí?" Ainda na música, não podemos esquecer do maquiado Boy Geroge, ícone
dos anos 80, e do excêntrico Marilyn Manson, que já exibiu seu corpo nu, sem
pelos e com seios em um de seus mais recentes trabalhos, deixando muita gente
confusa e boquiaberta.
Sem
pensar diretamente no tema, a fotógrafa Cláudia Araújo explorou a androginia
de uma forma visionária. Ela realizou há cinco anos uma exposição, em Brasília,
com fotos de mulheres de cabelos curtos. "Era moda em Brasília as mulheres usarem
cabelos curtos, todas estavam com cara de garoto", conta. Cláudia diz que as
mulheres que ela fotografou estavam com a aparência bem masculina e isso foi
um pouco chocante na época. "Muitas pessoas pensaram que eu fiz a exposição
com o intuito de explorar o homossexualismo feminino, mas na verdade eu decidi
colocar duas mulheres juntas por causa da moda. Na época as pessoas acharam
estranho, enquanto que hoje em dia é normal ser lésbica, as pessoas não têm
tanto problema com isso", compara.