Ela acredita que a eterna vontade de ser diferente faz com que as pessoas busquem novas formas de se destacar. Uma delas está na androginia, enigmática e misteriosa. Todos esses elementos, utilizados por Cláudia nas fotos, conseguiram mexer com o imaginário das pessoas. "Quem via as fotos acabava ficando com mil dúvidas, se eram mulheres ou homens, se eram lésbicas, e isso fez com que se pensasse um pouco no assunto", diz.
A psicanalista Lúcia Ozório discute ainda mais profundamente a questão da androginia e suas conexões. Segundo ela, a androginia não está apenas no campo estético: ela nos insere no campo da sexualidade quando associada a nossa multiplicidade. A sociedade, por sua vez, exerce um peso muito grande neste campo. Ser homem ou ser mulher significa desempenhar uma série de papéis sociais, cumprir exigências e se submeter à uma identidade sexual que nos faz felizes. Entretanto, a angústia aparece diante das nossas fantasias mais ocultas.
"Vem então a androginia e questiona toda esta sociedade de controle. Face ao determinismo, ela nos apresenta a indeterminação, que adquire uma estranha visibilidade a qual nossos olhos não estão acostumados: a da não identidade sexual. Faz as nossas certezas vacilarem diante da fascinação pela incerteza", explica.

Independente de qualquer ponto de vista, o que está em jogo é a constante utilização de elementos que confiram ao homem a capacidade de explorar a sua criatividade e suas potencialidades. Quanto mais mistérios e dúvidas encontrarmos pela frente, mais chances de formular novos pensamentos e combinações. "Falar de androginia é falar do devir, este constante vir a ser que tanto nos amedronta e nos enfeitiça. Ser andrógino é parecer homem e mulher e planta e animal e bruxo e flor e sátiro e fauno, compondo uma estética singular, a estética da multiplicidade que vaga, vai por ali e por aqui sem precisar de modelos prévios para se movimentar, para acontecer", completa Lúcia. Assim pensando, o "andrógino", em qualquer esfera de avaliação, só contribui para o aperfeiçoamento de nossa condição humana.

Rio de Janeiro, 27 de novembro de 2000.

e-mail:alexandramarchi@hotmail.com

 
 

 

 

 
 
 
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