O mundo mudou de repente. Mudou radicalmente a forma de entender, compreender, captar as pessoas. E para além disso, a forma de se relacionar. Se a compreensão, antes, era real, agora ela virou totalmente virtual. É a sociedade do discurso, na qual compreendemos as coisas pelo que elas se dizem ser, e não pelo que são realmente.

Quando a internet virou febre entre as pessoas, as histórias de gente que se conhecia através da rede ficaram corriqueiras. Muitos papos e identificações faziam com que a possibilidade de conhecer outras pessoas triplicasse. Muitos se conheciam, ficavam, viravam amigos, alguns chegaram a casar. Foi, aí, o ponto inicial da tal sociedade baseada no discurso. Você era entendido pelo outro por aquilo que estava dizendo de si mesmo, pela forma como se descrevia, etc. Não, necessariamente, pelo que você era, de fato.

Atualmente, penso que estamos começando a viver uma nova etapa desse processo cibernético. Digo nova porque, até então, a rede servia de elo entre as pessoas, mas elas acabam se conhecendo. O virtual levava ao real. Quero dizer que se uma pessoa se descrevia como loira, alta e magra e era, na verdade, morena, baixinha e gorda, isto acabava aparecendo, porque as pessoas chegavam a se encontrar, em carne e osso.

Hoje, esse encontro está sofrendo uma transformação brusca. Ou melhor, não há mais esse encontro. O discurso passa a ser o único elo entre as pessoas. Estranho? Pois então vamos aos esclarecimentos e às evidências.

Um amigo vira-se e conta que vem recebendo mensagens enigmáticas de uma menina, que ele não tem a mais vaga idéia de quem seja. Frases poemas, trechos de livros, textos próprios, letras de música, questionamentos, divagações. A bem da verdade, o enigma é tanto, e tão eficiente, que nem a certeza do sexo do emissor se pode ter. Mas isso não é o que importa para nós. Não vamos questionar a identidade proposta. O lance aqui é mostrar que a nova forma de relacionamento que está surgindo.