Segundo as palavras da própria remetente misteriosa, não há uma expectativa de respostas vindas dele. É uma comunicação que "não exige nada", que busca apenas um ouvinte. Se houver retorno, ótimo, afinal todo diálogo se faz rico e interessante. Mas se não houver, tudo bem. Ela o define por sua função de "interlocutor invisível". É um meio de comunicação que funciona como uma catarse, uma necessidade de falar, colocar os bichos para fora, e só.

Outro aspecto interessante é que, quando ele propõe "um contato seguro, um telefone ou uma caixa postal, pra que eu te encontre quando me ocorrer", a resposta dela é incisiva: "contatos humanos assustam os seres". Ou seja, não existe a necessidade deles se encontrarem, uma vez que essa comunicação sem rosto parece ser mais eficaz.

 

Agora, podemos nos questionar sobre essa eficácia. Afinal, o que isso quer dizer? Que relacionamentos virtuais são mais fáceis, pois não estão sujeitos às intempéries existentes entre um casal?Não estão sujeitos aos humores e defeitos de cada um? É o mesmo que afirmar que um encontro (em carne e osso) pode acabar com toda a magia de ter alguém com quem compartilhar idéias e valores. Magia existente entre duas pessoas distantes, sem problemas do dia-a-dia. E, então, a defesa de que, por mais que haja uma espécie de sentimento e expectativa em conhecer o outro fisicamente - e poder olhar dentro do olho - a presença calma, quieta e virtual parece mais reconfortante.

Isso tudo soa meio assustador, pois explicita o medo que as pessoas vêm tendo de se envolver e se entregar de corpo e alma, literalmente. O contato virtual funciona como um anti-corpo da desilusão amorosa. Mas, até que ponto essa é uma situação sustentável? Até quando dá para aceitar a ausência física do outro - o ser com uma só faceta - aquela que se apresenta.

"É estranho saber que conhecem o meu sorriso e que eu, no escuro, nem posso imaginar o seu rosto" é a resposta que o receptor dá a sua emissora enigmática. E, pelo que parece, essa sensação será cada vez mais presente entre os seres. Para quem duvidou do admirável mundo novo previsto por Aldous Huxley em meados dos anos 40... aí está uma boa prova de que o futuro chegou.