Por Bernardo Medeiros

Quem não se lembra do mito do "baleiro-traficante" de porta de escola? Aquele que primeiro te oferece de graça alguma substância, depois passa a te cobrar, e logo você estará roubando coisas de casa para sustentar o seu vício. Quando a vovó te falou isso, ela ainda alertou que, se você um dia fumar um baseadinho, em breve se tornará um junkie viciado em heroína.

Passamos nossa infância, nos anos 80, sob a paranóia, plantada em todo mundo, da terrível "maldição das drogas". Uma verdadeira campanha lobotomizante e estigmatizante, injetada, sob o patrocínio/imposição dos EUA, na cabeça da opinião pública mundial e que resultou em um dos maiores fracassos em termos de políticas públicas na história dos Estados contemporâneos.

Como uma mentira que, constantemente repetida, se torna uma verdade, a fábula da "maldição das drogas" se converteu em legislações medievais e inúteis que criminalizaram a produção, porte e uso de diversas drogas. Excluídas desse rol estão as drogas legais - verdadeiros símbolos da hipocrisia, ainda mais quando vistas através de suas envolventes mensagens publicitárias (Free, uma questão de bom senso???).

Hoje, o Rio de Janeiro seria um grande exemplo do fracasso da política criminal-repressora frente às drogas. A cidade vive loteada pelo poder bélico de grupos de traficantes, promovendo uma verdadeira guerra civil, arregimentando jovens pobres sem perspectivas e consumindo um mar de recursos públicos em armas, sem que o consumo tenha diminuído. Ao contrário, o resultado dessa política é um cifra assustadora de mortes violentas de jovens carentes, pessoas vítimas de balas perdidas, populações acuadas pela violência, corrupção policial e tudo, tudo em razão das drogas representarem um problema de saúde pública. Mas afinal o que mata mais: a política policial-repressora ou as drogas propriamente ditas?

O estigma e a demonização afastaram o debate lógico e finalístico da lei e das ações públicas para combaterem os inegáveis efeitos negativos das drogas. Porém quem colocava o tema em questão era discriminado a priore, como foi o caso do então candidato à governador do Estado do Rio, Fernando Gabeira, que perdeu as eleições sob o anti-slogan "quem fuma e cheira, vota no Gabeira".

Hoje, parece que a situação esta se revertendo, e diante da irracionalidade da política policial-repressora, significativos segmentos da sociedade já admitem a discriminalização e/ou mesmo a legalização de algumas ou todas as drogas, para dar lugar a uma ação menos violenta e mais racional, procurando atingir objetivos mais concretos: a chamada política do "mal menor".

Um importante passo foi dado pela influente e ultraliberal revista inglesa The Economist, que milita pela legalização de todas as drogas. O periódico, lido por oito entre dez capitalistas convictos, lembra a lição do filósofo John Stuart Mills (1806-1873) segundo a qual "o indivíduo é soberano sobre si mesmo, sobre seu corpo e sua mente". Apresenta justificativas econômicas e humanitárias, frente à irracionalidade da teoria que prega o binômio abstinência-tolerância zero.

Outra voz que se levanta é a do médico clínico Fábio Mesquita, doutor em saúde pública pela Universidade de São Paulo (só...), em entrevista para a Revista República : "Do ponto de vista de custo social e de saúde pública, a política dos Estados Unidos é completamente irracional. Sou favorável à imediata discriminação do uso de qualquer droga e também que a sociedade discuta francamente a legalização futura de todas as drogas."

Para contrapor com a opinião de um indiscutível especialista, citamos a opinião de um integrante do Grupo MP4, publicada no JB, cujo nome não faz diferença pois a sua opinião de que os "modernos querem relativizar os perigos das drogas em prol da legalização", já é um lugar comum no segmento conservador da sociedade. Ora, não se trata de relativizar os perigos das drogas, mas perceber que a criminalização traz muito mais mortes e violência do que o uso das drogas. É o típico maniqueísmo de quem tem um pensamento curto. Essa visão só pensa em dois pólos: um, onde se joga na cadeia usuários de drogas, ou outro em que supostamente se diz: usar drogas é bacana.

Obviamente, não se está militando aqui pela segunda opção, mas sim por uma política pública onde o Estado atua educando as pessoas e informando-as dos perigos das drogas (aí incluídos o cigarro e o álcool), proíba qualquer publicidade que incentive o uso de (todas) as drogas e cuide dos casos de dependência, os quais, se sabe muito bem, não atingem todos aqueles que usam drogas.

Recentemente a apresentadora da TV Cultura, em entrevista à Revista Época, assumiu que usa maconha. A revista, apelando para o seu típico sensacionalismo (que só perde para a Veja), estampou na sua capa: "EU FUMO MACONHA - Cada vez mais pessoas ignoram a lei e usam a droga". Uma verdadeira enganação, pois a manchete deveria dizer: "cada vez mais os usuários enfrentam o preconceito e assumem que usam a droga", pois é óbvio que sempre se fumou e não haverá lei que impedirá que as pessoas, de fato, usem drogas.

Pois é, a apresentadora, por causa da manchete sensacionalista da Revista Época, perdeu seu emprego na TV Cultura e (pelo lado bom) acirrou o debate na sociedade. Está na hora de outros usuários darem a cara a tapa contra a hipocrisia que reina em nossa sociedade.

Seu caso é mais um exemplo de um profissional responsável, cumpridores de seus deveres, que se dá o direito de fazer com o seu corpo o que bem entender. Ora, a verdade é que se uma pessoa usa alguma droga e só cause mal a si mesmo - ou seja, não pegue um carro ou exerça atividades profissionais relevantes sob o efeito da droga - o certo é que o Estado não tem nada que meter o bedelho na vida privada dessas pessoas.

Essa provavelmente seria a manchete de nossos jornais conservadores e/ou o grito de reacionários alarmistas caso seja levado adiante um projeto da Secretaria Municipal de São Paulo para recuperar viciados em crack. Na realidade, essa possibilidade nasceu dos estudos do conceituado Programa de Orientação e Assistência a Dependentes (PROAD), premiado pela ONU, que atestou que 60% dos viciados em crack não conseguem largar o vício, mesmo submetidos a todos os tratamentos conhecidos. Através de relatos, percebeu-se que muitos desses, que estariam condenados à um vício destrutivo como é o do crack, conseguiram largá-lo depois que passaram a fumar maconha. Pela teoria do "mal menor", a troca é extremamente benéfica, pois os efeitos do crack são infinitamente piores que o da maconha.

Mas, como vivemos em uma sociedade hipócrita, com certeza vamos ver o Sr. Maluf atacando a Prefeita Marta Suplicy nesse sentido. Ele, com certeza, falará com um semblante de defensor da moral e dos bons costumes, apesar de ter sido descoberta uma conta sua em um paraíso fiscal, onde depositava dinheiro desviado dos recursos públicos e longe de tributação. É ou não é uma grande inversão de valores: roubar, desviar dinheiro público, barganhar votos pode, só não pode fumar maconha.

A Revista MOOD se alia com os meios de comunicação responsáveis, que estão colocando a questão das drogas para a opinião pública de forma racional, sem tabus ou sensacionalismos e, acima de tudo, não subestimando a inteligência da sociedade. Dentre essas, a já citada revista inglesa The Economist e as brasileiras "República", "TRIP" e o site www.no.com.br.

Gostaríamos de enfatizar, novamente, de que não se trata de fazer apologia às drogas (como querem fazer crer os maniqueístas que não encontram argumentos racionais para seu preconceito), mas fazer apologia à políticas públicas que respeite a individualidade e a escolha de cada um, não abrindo mão de informar, educar, reprimir os excessos danosos à terceiros e à sociedade. Uma política pública inteligente e justa, que busque enfrentar o problema sem medo de tabus e procure, com base na legalização das drogas, acabar com a onda de violência, seja da polícia ou de bandidos que se apoderam do comércio ilegal.

A MOOD quer ouvir de seus leitores sua opinião. Não deixe de se posicionar em um tema extremamente importante, pois ele não envolve apenas o uso de drogas e a lei que a proíbe. O tema envolve a violência nas grandes cidades brasileiras, a corrupção e a truculência policial e o mercado de trabalho para jovens menos favorecidos. Jovens que tem anseios e desejos consumistas como qualquer jovem de classe média/alta. Jovens que são seduzidos pelo lucrativo mercado das drogas, pois o salário que receberiam para trabalhar legalmente é imoral e indigno. Jovens que, por essa razão, morrem sem que ninguém se importem com eles. Jovens como muitos de nós.