Quando eu coloquei pela primeira vez o CD solo do Marcelo Birck pra tocar, achei que havia algum problema. Tirei o cd do player, coloquei de novo; nada mudou. "De repente são as caixas de som". Testei com os fones de ouvido; não, não era. O som estava certo.

Várias camadas sonoras, sobreposição de textos, intervenções computadorizadas, dissonâncias ao sabor do vento, atonalidades sortidas e mudanças de andamento sem ligar o pisca-pisca. Parece demais para você? Parece demais pra muita gente, e demais para o nosso tempo. Mas é demais. É um grande barato. Birck promove a desconstrução das melodias singelas da jovem guarda e da surf music sessentista, entremeando a isso harmonias caóticas e vinhetas eletrônicas que, de um jeito que você nem sabe como, acabam cativando e conquistando seu ouvido.

"Na gravação do cd, foi tudo ao mesmo tempo: ensaio, mixagem, arranjo e edição", conta Marcelo, que recebeu a reportagem da MOOD em seu "escritório": um pequeno quarto em seu apartamento, repleto de CDs, fitas de vídeo, discos de vinil, computadores e instrumentos. "Metade foi gravado no Estúdio Dreher, outra metade em casa, com a utilização de computadores - tudo entre 1997 e 2000. Tem coisas que eu nem pensei que iam virar disco, mas acabei entrando". (O estúdio dos irmãos Dreher, aliás, é o preferido de 11 entre 10 músicos sérios do RS. Segundo o próprio Birck, porque "lá o cliente não é um veículo de propaganda do estúdio; o músico é respeitado".) Os micros foram utilizados para correção, edição e também como instrumento de criação (principalmente das vinhetas). O resultado dessa adição são músicas que não podem ser reproduzidas literalmente em shows. "As músicas não tem execução direta ao vivo, precisam de uma adaptação, de uma simplificação". Dessa forma, as faixas ganham uma roupagem mais crua e energizada - que lembrariam a cria mais famosa de Birck, a Graforréia Xilarmônica, não fossem as dissonâncias e atonalidades que o compositor, guitarrista e vocalista imprimiu às composições do álbum.segue>>>