"Criar tão-somente pelo interesse real na criação é uma necessidade que se faz cada vez mais urgente em nosso tempo"

Para quem quer "ler" Marcelo Birck, há disponível na internet o texto "Música, músicos e prioridades", publicado no Jornal da UFRGS (www.ufrgs.br/jornal/html/nov99/pag08.htm). "Baseamos nossos argumentos em 'pontos de vista', um mero termo que nada mais é que uma redução visual de um estado psicológico, no qual está necessariamente implícita a idéia de exclusão". A frase, extraída do quase-manifesto, ilustra exatamente a mentalidade necessária para se ouvir corretamente as experimentações de Birck. "Se, quando confrontados com uma experiência nova, nossa abordagem se dá por comparação com a experiência anterior, é o mesmo que avançar de marcha-a-ré". É a deixa para que possamos "zerar" nossos padrões e possibilitar uma nova percepção criativa. A faixa Surf Atonal vem quase como uma continuação do texto: Birck quebra regras e manda claramente seu recado: "Não queira me dizer que eu estou fora de tom/ escandalizem-se os quadrados, para mim tá muito bom". Também na fantástica Biquínis em Versos Birck desfaz-se de vínculos com o pasteurizado para criar uma canção de amor eletrificada, com cheiro de Syd Barret sessentista (não a toa, a letra foi escrita em parceria com Plato Divorak, um dos loucos-gênios de plantão da cena portoalegrense).

O que resta, quando nos acostumamos a ouvir o álbum, é a sensação de estar participando de alguma revolução, de um novo paradigma (ou da destruição de todos os outros), de redescobrir que não há limites para a criação musical. Ou de estar sendo enganado por um grande piadista. Faz diferença? Na pior das hipóteses, é só mais um puta CD.

(Em tempo: o CD de Marcelo Birck pode ser adquirido diretamente pelo e-mail da Grenal Records: grenal@hotmail.com.)

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