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"Moda não é só uma bichinha desenhando, enlouquecida... um estilista, ou sei lá o quê. Moda não é arte; é indústria acima de tudo, é business, é negócio." A afirmação do estilista gaúcho Daniel Lion mostra que a cara da moda do Rio Grande do Sul no novo século é outra. Esqueça o glamour, dondocas se acotovelando em desfiles e modelos dentro do padrão de beleza. Em tempos de pós-modernismo, quando se individualizar é uma questão essencial, novos criadores jogam no corpo de modelos cheias de atitude suas idéias, seus sofrimentos e suas percepções do mundo, buscando o único no meio de um mundo onde peças em série comandam o mercado.

Mas ter estilo de vanguarda, como André Courrèges, Paco Rabanne e Emilio Pucci, não basta. É preciso conhecer o público que quer o diferente. A moda está virando cada vez mais uma imagem, um conceito, e a roupa propriamente dita é um artigo descartável, não apenas pela pouca durabilidade, mas também pelas constantes mudanças de tendências. Nesse contexto, investir trabalho em uma única peça não é mais vantajoso: o melhor é investir em uma imagem de marca ou de estilo. A primeira Maison da moda a usar isso foi a Channel, com Karl Lagerfeld; depois, Tom Ford na Yves-Saint-Laurent. Mas tanto a moda como a busca pela novidade surgiram como uma necessidade do homem de criar, necessidade que foi incentivada pelo capitalismo e sua ideologia, mas que não matou a imaginação dos estilistas.

Vender sim, mas com estilo

Nem Galliano, o mestre da moda conceitual, nem Tom Ford, o homem que colocou o marketing na moda sem qualquer pudor: os novos estilistas gaúchos querem que a moda exerça sua função básica que é vestir os corpos. Eles querem vender sim, mas o diferente. O que importa é atitude e estilo. Os novos estilistas não procuram mais a fama pela fama, querem um lugar ao sol para se expressar. Para isso, procuram desenvolver a criatividade. Uma das formas encontradas para buscar esse lugar no mundo da moda, são os cursos superiores de Moda espalhados pelo Brasil. No Rio Grande do Sul, a Universidade de Caxias do Sul foi a primeira a oferecer o curso, que já completa dez anos.

Cristiane Taufer e detalhe do seu trabalho de final de curso

Cristiane Taufer, 21 anos, está formada no curso de Tecnologia em Moda e Estilo da UCS há dois. Como a maioria dos novos estilistas, ela pretende ter uma marca própria, revolucionária, mas sem abusar muito das noções de estética do público. "Uma loja com design arrojado pode fazer até as pessoas terem medo de entrar", declara. Em seu trabalho de conclusão do curso, ela buscou anular as diferenças homem-mulher. Na sua futura coleção, ela pretende investir em recortes, sem deixar de lado a silhueta brasileira. Cristiane não procura com sua moda alcançar essa ou aquela tribo: "O mais alternativo é criar uma roupa que a pessoa consiga achar sua sintonia com ela, independente do estilo, sem estereótipos", e completa: "Os próprios burocratas da moda como John Galliano e Christian Dior ousam em suas coleções com o estilo streetwear; está tudo muito padronizado e o mercado pede coisas diferentes".

detalhe do trabalho de final de curso de Cristiane Taufer

Também formada pela UCS, Fergs Heinzelmann queria Publicidade, mas foi seduzida pela moda e a busca pelo belo. A estilista pensa que não adianta criar uma moda voltada para o comercial hoje em dia, que não atingirá o público. Fergs também considera que mesmo comercial, a moda não deixa de ser autoral, sempre é criação: "Nos trabalhos que eu faço, por exemplo, sempre tem alguma coisa de lúdico". Ela também pretende lançar uma marca própria: "A minha etiqueta seria roupa de adulto com cara de criança; roupas com uma certa ironia".

 

Anne Anicet é destaque nacional. Foi a única gaúcha selecionada em 2000 para participar da Fenit, I Prêmio de moda do Brasília Shopping e ficou entre os dez finalistas. Em março, ela foi convidada para participar do Salão Internacional da Moda. Começou a desenhar roupas pela falta de mercado de trabalho na área de artes. A relação de arte e moda para ela é a questão do processo criativo: "Moda não é simplesmente passar as tendências para o papel; é uma pesquisa, é uma criação tipicamente brasileira em que eu acredito". Anne aposta na sua criação e pesquisa para se diferenciar: "Acho que já tem bastante roupa básica de ótima qualidade e preço. O que é importante, mas faltam no mercado, são roupas diferenciadas, com um toque mais pessoal, que faça a pessoa se sentir não-massificada".

Para Anne, seu destaque na moda aconteceu exatamente por trabalhar com coisas diferentes. A maior parte das pessoas, segundo ela, não aceita a nova moda, mas acha que é pela criação que se cresce no mundo da moda de hoje. A estilista já abriu sua própria empresa e etiqueta que leva seu nome: "A consultoria não te dá liberdade para fazer o que tu quer, por isso, busquei a minha empresa, a minha marca. Muitas vezes eles te pedem uma coleção e querem que tu copies de uma revista." Sobre a moda conceitual, Anne diz que é importante até para o estilista-artista se sentir realizado: "Muitas vezes a gente se frustra de não poder fazer criações mirabolantes porque sabe que não vai vender".

Se vasculharmos as faculdades de moda do Rio Grande do Sul, podemos achar muitas socialites, mas poucos capitalistas enfurecidos atrás de números. A maioria dos alunos do curso de estilista vem para a moda seduzidos pela criação e pela busca do belo. Lá desenvolvem gosto pelas técnicas. "Eu me realizo com a moda", diz Denise Britto, 24 anos, aluna do 4 o semestre da UCS . A maioria dos cursos no Brasil surge nas Universidades, geralmente vinculados ao curso de Artes Plásticas. Na UCS, é vinculado ao curso de Arte e Arquitetura. "São áreas afins, de criação pura," afirma Bernadete Susin Venzon, coordenadora do curso da UCS. Bernadete diz que a moda hoje vem se firmando cada vez mais com a questão da criatividade. A coordenadora conta que no curso os alunos são estimulados a fazer peças criativas, sem preocupação com a produção: "Tentamos trabalhar dentro da Universidade os dois lados, mostrando como se trabalha na produção em grande escala e em momentos onde o aluno pode usar toda a sua criatividade, no laboratório". Bernadete incentiva as criações diferenciadas: "Todo estilista hoje tem que mostrar conceito. Nós vendemos uma coisa chamada sonho; quem faz moda trabalha muito com a imaginação".
Também vinda das Artes, Beth, como é conhecida pelos alunos, tenta passar para eles noções de Arte e Psicologia: "Moda hoje trabalha muito em sintonia com as pessoas, podendo passar conceitos de comportamento e criatividade".

Para desenvolver este lado criativo, a UCS conta com Sérgio Lopes, artista plástico e professor de laboratório de criatividade do curso. Ele estimula os alunos através de exercícios e concorda com os novos estilistas: "Mesmo que tu faça uma coleção super comercial, sempre tu vai ter que inventar algo diferente, algo que chame a atenção, mas poucos conseguem trabalhar a questão arte. Pode-se colocar uma peça, um detalhe que vai deixar a coleção mais artística, não uma obra de arte".

Foi pelas possibilidades criativas que Marcelo Bohrer começou a desenhar moda. Vindo das Artes Plásticas, ele tentou a Publicidade como forma de expressão antes de tentar a moda. Destaque nacional selecionado pelo concurso Amni Hot Spot com sua marca, Visgo, Bohrer criou para suas roupas o conceito cyberorgânico: "A tecnologia está muito presente no dia-a-dia e deve ser incorporada às roupas". Dentro desse conceito, ele investe em tecidos de alta tecnologia, como o neopreme, nylon e até plásticos fluorescentes. O estilista busca com suas coleções a identidade da nova geração que já nasce cercada pela tecnologia: "Tento fazer uma moda sem pé no passado, buscando uma verdadeira identidade para essa geração que vem aí e nasceu sabendo mexer no computador". O artista plástico Sérgio Lopes concorda: "Estamos em um mundo super tecnológico e refletimos isto nas roupas. "Mas Bohrer não vende só conceito: "Para se dar bem na moda, hoje é preciso entender de marketing, publicidade, direção de arte e tecnologia".

Marketing da Moda

Outro ponto comum é a formação desses estilistas em Publicidade e Marketing. Não basta criar coisas diferentes por criar, tem que saber o público que se vai atingir. Márcio Lopes, assim como Bohrer, também vem da Publicidade: "Sou um homem de marketing". Seu estilo é muito relacionado com o psique feminino: "Eu busco estar em conexão com a mulher. A mulher se busca por um lado, e eu busco auxiliá-la por outro. A mulher está em um período que sai do minimalismo e entra em uma fase de mais brilho, mais informação na roupa. Eu tenho que entender que a mulher dentro de seu desequilíbrio está procurando se equilibrar." Mesmo com essa bagagem psicológica, Lopes não se esquece de que tem que vender: "Por mais que eu busque dar meu toque pessoal, é necessário estar conectado com o momento feminino para que ela veja na minha roupa um certo auxílio para a auto-afirmação. Se o momento é esse, não posso ir contra". Lopes admira a moda conceitual, mas confessa que não é o seu ramo: "Acho que meu trabalho tem relação com as duas pontas e eu quero que as pessoas usem minhas roupas, esse é meu objetivo. Não quero meu vestido em um quadro: quero no corpo de uma mulher".

Para Lopes, a moda é a expressão do momento, não é arte. Posso gerar um produto de moda que é uma obra de arte, mas moda é para ser usada: "Hoje eu consigo fazer uma peça que tenha todo um trabalho de pesquisa, que tenha toda uma preocupação com a fibra e tenha um uso, que seja usada e desejada". Assim como Bohrer e Anne Anicet, Lopes tem ligação com as Artes Plásticas, mas alerta: "Para mim o processo criativo da moda é diferente do processo criativo da arte. Meu trabalho na arte não é para ser consumido, para gostarem ou desgostarem. É sem nenhuma preocupação. Já na moda, eu quero que as pessoas usem e desejem. Arte se cria para a gente mesmo; é uma coisa narcisista. A moda é para os outros. Por que é feio vender? Por que marketing é feio?".

Do alto de seus quarenta anos trabalhando com moda, o estilista Ruy Spor confessa que, como alguns estilistas de hoje, ele também buscou o belo na moda: "Não sabia que queria fazer moda, mas sempre quis trabalhar com o bonito". Para Ruy a moda é procurada para segurança pessoal. Sobre a moda atual, ele afirma que existe uma liberdade muito grande de se vestir e de ser que é muito positiva, mas há décadas todas as classes se vestiam mais ou menos igual: "a moda era ditatorial; hoje é democrática". Ele considera importante ter um estilo e uma verdade na sua moda e achar um estilo dentro da evolução. Ele compara o estilo do estilista ao do pianista que toca Chopin: "A sonata é a mesma; o estilo é o diferencial". Na moda seria a mesma coisa, o estilista acompanha a moda global, mas dá sempre a sua interpretação pessoal: "Se eu coloco um vestido meu circulando aqui em Porto Alegre, em uma festa, a pessoa, mesmo anônima, chega na festa e as pessoas dizem que é do Ruy." Sobre essa moda que busca o diferente, afirma: "O conceito é muito importante dentro do profissionalismo da moda, mas eu não tenho mais idade para concorrer com esses jovens que estão aí." E de um grande ícone da moda porto-alegrense e gaúcha, uma dica sobre a moda conceitual: "Os jovens estilistas não podem viver só de conceito se depois não tem ninguém que compre, se não tem ninguém que use. Fica muito artística. A moda conceitual é avançada no tempo, não tem uma estrutura de apoio para ela." Para Ruy, as roupas conceituais de desfile são jogadas de marketing: "Na hora de vender, eles vão vender jeans, perfume...".

Segundo Ruy, a moda jovem atual é de um vestir econômico, barato. O jovem de hoje quer mudar muito de roupa; quer mudar a imagem para se sentir seguro, ao mesmo tempo em que ele quer se identificar com um grupo. "Há 20, 30 anos, as pessoas tinham mais dinheiro. Hoje existem muitas opções para gastos", afirma. Para ele, a moda faz parte da distinção, da necessidade inerente da diferenciação e ao mesmo tempo de se igualar a um grupo: "Na China comunista, Mao-Tse-Tung vestiu homens e mulheres iguais. Para se diferenciar, algumas pessoas usavam tampinhas de coca-cola como botons nas roupas".


Atitude pela Imagem

O mercado pede algum diferencial, seja em corte, modelagem ou em peças únicas; pede individualização e estilo próprio. Muitos estilistas buscam o diferencial no visual completo, não apenas nas roupas, como Alexander McQueen, que investe em uma identidade própria, colocando maquiagem, cenário e cabelos em função dela. Daniel Lion, ao estrear nas passarelas no Donna Fashion Iguatemi do ano passado, buscou também essa diferenciação: "No meu primeiro desfile, as modelos não tinham cabelos nem boca. Só tinham olhos e pareciam todas carecas." Daniel é ator, diretor de arte para teatro e sempre desenhou figurinos. Também nunca escondeu a influência da carga super dramática que vem do teatro na sua estréia no mundo da moda: "Fiz um show. As roupas eram basicamente para passarela". Na sua primeira coleção, Daniel inspirou-se na obra de Shakespeare e no período elizabetano. "O meu segundo trabalho já foi todo vendido para a mesma loja que comprou o primeiro", declara. "Esta minha segunda coleção é mais comercial. Meu objetivo é vender. Desta vez não terá manchas de sangue nas roupas das modelos", afirma. Daniel Lion nunca fez curso de estilismo, nem pensa em fazer, mas acha ótima a existência de faculdades de moda: "As pessoas que entram na faculdade não conhecem nada sobre o assunto. Geralmente são pessoas que gostam de comprar roupas e folhear revistas de moda".

Para o fotógrafo Marcelo Nunes, a moda pode passar mensagens sim. Inspirado pela irmã, Marcelo começou a fotografar moda, avesso às fotos de realidade: "Me choca a idéia de ganhar dinheiro em cima de alguém que está morrendo. "Ele admira a moda exatamente pela sua frivolidade: "Sempre tem alguma coisa nova, e eu gosto da novidade." Para Nunes, a foto de moda também tem a qualidade de dar liberdade para o estilo do fotógrafo, onde ele procura colocar em suas fotos modelos "estranhas", looks undergrounds e punks e muita atitude: "Busco passar nas minhas fotos algo que choque um pouco as pessoas, não só o bonito pelo bonito". Nunes também é da geração que via a moda com futilidade e buscou nas artes e na comunicação um respaldo teórico para ela.

A moda, essa anciã nascida em meados da Idade Média, emerge poderosa neste fim de século, com toda a complexidade de objeto epistemológico dos mais instigantes. Supérflua, efêmera? Pode até ser! Mas, quem há de negar-lhe a importância como produto sócio, econômico, político e cultural efetivo? Tanto, que não é por acaso que vemos crescer, em todos os grandes centros, o espaço a ela reservado na mídia bem como a proliferação dos cursos e Faculdades de moda.

Moda hoje é um dos principais meios de individualização do ser humano, e individualizar-se hoje é uma questão de sobrevivência. Tanto a nossa integração como indivíduos dentro da sociedade, como para a auto-estima. Os estilistas que querem vender vão ter que buscar peças únicas para consumidores a procura de uma identidade própria.

A moda impõe uma regra de conjunto e, ao mesmo tempo, deixa lugar para manifestação do gosto pessoal. Não importa se a moda é comercial, artística ou conceitual. Sempre será preciso ser um pouco como os outros e não totalmente como eles; é preciso estar na moda e isto significar um gosto de particular. Enfim, é preciso vender, mas com personalidade. Resta saber se os novos estilistas vão conseguir continuar exercendo a criatividade e respondendo ao mercado de forma tão engenhosa por muito tempo.

Outros links:
Moda Brasil
Erika Palomino
Moda Point
Dazed & Confused
Vogue

*** as roupas das modelos nas fotos são criação do estilista Daniel Lion.