Rio de Janeiro, meados
de 1984, eu acho: o antigo Drive-In da Lagoa
é uma das melhores recordações da
minha infância. Naquele terreno onde hoje se exibe
a academia de ginástica mais cara da cidade, passei
finais de tarde inesquecíveis, na chamada "Sessão
Coca-Cola". Patrocinada pela homônima marca
de refrigerante, a tal matinê começava por
volta das seis da tarde, contando sempre com alguns resistentes
raios de sol que não respeitavam o início
do filme, mas também não se demoravam muito.
O grande barato desse programa era o refrigerante liberado
para a molecada, que se acotovelava para pegar o maior
número de copinhos plásticos possíveis,
recheados de coca-cola, fanta uva e guaraná taí.
Como a formiga que trabalha no verão para se garantir
no inverno, eu estocava dezenas de copinhos no painel
do Corcel de minha mãe, para o deleite de meu irmão,
ainda muito novo para a guerra do refrigerante.
Assisti
a uma infinidade de filmes infantis naquele pedaço
de céu na Terra, entre desenhos da Disney e filmes
dos Trapalhões. Estes últimos, aliás,
eram as seqüências habituais do programa:
após o filme, direto para casa conferir Os Trapalhões
no canal 4. Mas naquele dia, algo diferente estava para
acontecer quando, ao final da sessão, os carros
começaram a ligar seus motores e levar seus anjinhos
para casa. Só minha mãe não ligou
o carro. O Corcel azul em pouco tempo ficou sozinho
naquele espaço imenso. Minha mãe então
virou e perguntou-me: "Quer ver o filme que vem
depois?"
Engoli em seco. Ver um filme de adulto... bom, eu já
tinha sete anos, e era hora de começar a me acostumar
com a vida de gente grande. Na medida em que ia balançando
a cabeça positivamente, a idéia de participar
de tão seleto evento me excitava cada vez mais.
Saí do carro para fazer um pit-stop e liberar
aquela carga de refrigerante que tanto pesava na bexiga.
Ao sair do banheiro, um susto: dezenas de carros entrando
com seus faróis acessos, alguns com o rádio
a todo volume. Na medida em que iam se posicionando
em frente à tela, eram momentaneamente abandonados
por seus passageiros, em sua maioria jovens - mas que
para mim eram todos adultos. Fiquei um tempo observando-os,
notando como possuíam uma estranha segurança
diante do mundo. Alguns não saíam dos
carros e começavam a trocar beijos antes mesmo
do filme iniciar. Um clarão na tela me advertiu
de que era hora de retornar ao carro.
Após algumas propagandas da Coca-Cola, finalmente
o filme começava. Um texto em inglês surgiu
na tela, e eu tentei pescar algo da tradução
na legenda abaixo. E quando menos esperava, fui transportado
para

Los Angeles, Novembro de 2019:
chaminés explodindo como vulcões!!
Uma megalópole imensa, cheia de prédios
circundados por naves espaciais, como abelhas sobrevoando
flores mecânicas. Um espetáculo visual
que me acertou em cheio, fazendo com que meu corpo estremecesse
ao ver aquele apocalipse urbano refletido nos olhos
azulados de Rutger Hauer.
Desde aquela noite fatídica, nunca mais fui
o mesmo. Passei a carregar comigo questões tão
distantes da minha realidade infantil, como o futuro,
a existência e a morte. Os replicantes, em seu
breve encontro comigo, levaram muito de uma inocência
que eu nem ao menos imaginava ser possuidor.
O mundo poderia mesmo tornar-se o que vi na tela? Sentimentos
contraditórios àquele cenário me
invadiram, repulsa e fascínio... fui alvejado
pela obra de Ridley Scott e continuo ferido até
hoje. E sei muito
bem que não sou o único.
20 anos de
Blade Runner
O filme certo para o público errado
Quando foi exibido pela primeira vez ao público,
em 1982,
Blade Runner foi um fracasso de bilheteria nos Estados
Unidos. A adaptação do romance "Do
Androids Dream of Electric Sheep" do amalucado
escritor de ficção-científica Philip
K. Dick já havia deixado muitos executivos da
Warner Bros. de orelhas em pé, por seus elevados
custos de produção e pela excessiva ambição
envolvida no projeto do diretor Ridley Scott, que tinha
se tornado um realizador cheio de moral por conta de
seu filme predecessor, um thriller sci-fi intitulado
"Alien, o oitavo passageiro".
O
filme amargou cadeiras vazias nos cinemas, e a crítica
o considerou confuso e "dark" demais. Poucas
semanas após sua primeira exibição,
as cópias foram retiradas de circulação,
e os produtores iniciaram a contabilizar os prejuízos.
O clima era funesto para o ousado filme, o que rendeu
mais argumentos para que os caretas investidores de
Hollywood reiterassem que o negócio mesmo era
apostar em filmes no velho e funcional estilo feijão-com-arroz.
Vale lembrar que no mesmo ano a Universal fez fortuna
com um filminho água-com-açúcar
sobre um ser que esticava o pescoço, acendia
a ponta do indicador e - no melhor estilo McGiver, munido
de um radinho AM e uma antena com Bombril - telefonava
para casa, mesmo que esta estivesse a anos-luz de distância.
Nem tão longe assim, porém, estava a
Europa, onde Blade Runner estreou algum tempo depois.
O filme estourou no velho continente, suscitando discussões
que iam desde o tradicional bate-papo pós-filminho
até bate-bocas metafísicos em programas
de TV. E adivinhem o que aconteceu depois? O filme foi
relançado nos EUA e tornou-se um estrondoso sucesso,
ganhando status de "cult movie", algo que
não acontecia com a freqüência atual.
E a história, é
muito complexa mesmo?
Bom, isso depende: se você é daqueles
que considera "O Sexto Sentido" um filme genial
com um final ultra-surpreendente, talvez encontre dificuldades
em pegar tudo da primeira vez; mas nada que uma ida
adicional à locadora não resolva...
O filme se passa num futuro hipotético, mais
precisamente em novembro de 2019. Uma empresa chamada
Tyrell Corporation - especializada em biomecânica
- passa a desenvolver andróides da fase NEXUS,
que são idênticos a seres humanos, e atendem
pelo nome de replicantes. O mais avançado de
todos é o NEXUS-6, superiores ao homem em força
e agilidade e com inteligência no mínimo
equivalente a dos engenheiros genéticos que os
projetaram. Os replicantes eram utilizados como escravos
nas colônias fora da Terra, na exploração
e colonização de outros planetas. Como
medida de proteção, os replicantes viviam
no máximo quatro anos.
Após um sangrento motim numa dessas colônias,
os replicantes foram declarados ilegais na Terra, cuja
punição era a morte. Agentes especiais
da polícia - os "Blade Runner" - tinham
ordem de atirar para matar qualquer replicante que desobedecesse
às ordens, o que era chamado de "remoção".
A trama gira em torno de Deckard, um Blade Runner alcoólatra
que é novamente chamado pela polícia para
dar cabo em quatro replicantes que fugiram para a Terra,
todos NEXUS-6. Para conhecer o novo modelo de andróide,
Deckard vai à Tyrell Corporation fazer um teste
identificador - o "Voigt-Kampff Test" - com
um NEXUS-6. Contar o que acontece a partir daí
é estragar o impacto do filme, que vai crescendo
tanto no desenvolvimento dos personagens quanto na riqueza
de detalhes, culminando num emocionante final.
Quando a verdade veio à
tona
No aniversário de 10 anos do filme, uma surpresa
para todos: o diretor Ridley Scott revelou que sua obra
havia sido lançada de uma maneira diferente de
sua concepção original, e anunciava o
lançamento de seu "Director's Cut".
Sob a forte pressão da Warner, o diretor se viu
obrigado a fazer diversas concessões na primeira
versão, como colocar uma narração
em off de Harrison Ford (para que assim o filme ficasse
mais inteligível) e bolar um horroso happy end
com Deckard e Rachel fugindo de carro num lindo dia
ensolarado, o que destoava completamente da atmosfera
do filme.
Comparando as duas versões, é de se perguntar
por que Bin Laden não explodiu os estúdios
de Hollywood... a versão de 1992 se tornou praticamente
um novo filme, infinitamente superior. Além das
supressões feitas pelo diretor, o filme trazia
um elemento novo e impressionante: uma cena eliminada
da versão original em que Deckard sonha com um
unicórnio, o que no contexto da obra leva-nos
a acreditar que ele também seja um replicante.
O "Director's Cut" hoje é a única
referência do filme, a versão mais encontrada
em locadoras e a única lançada em DVD,
apesar de algumas emissoras de TV cismarem em exibir
a cópia antiga. A nova versão também
foi responsável pelo surgimento de diversos relançamentos
em versões "redux", como A Marca da
Maldade, O Exorcista e Apocalypse Now.
Para celebrar o relançamento da nova versão,
o compositor Vangelis finalmente lançou o álbum
com a trilha do filme, o que ele havia decidido não
fazer após discussões com Ridley Scott.
Em 1982, a trilha sonora do filme havia sido lançada
numa versão orquestrada, com a The New American
Orchestra interpretando as partituras de Vangelis. O
novo álbum, além de ser melhor, traz ainda
algumas músicas que não estão no
primeiro disco, e outras que nem mesmo entraram no filme.
Mais, mais, mais!
Para aqueles que se deixaram seduzir por este apaixonado
relato ou se identificaram com ele, a má notícia
é que não existem muitas opções
para se embrenhar mais no assunto. O primeiro passo
é procurar o livro que originou o filme, que
foi lançado no Brasil pela editora Francisco
Alves, com o título de "O Caçador
de Andróides", o mesmo que o filme recebeu
por aqui.
O livro recebeu uma continuação, que
não foi escrita por Philip K. Dick, falecido
no mesmo ano do lançamento do filme. Ao que tudo
indica, não é boa. Outra excelente sugestão
de leitura é o importado "Future Noir -
The Making of Blade Runner", a mais completa pesquisa
já feita sobre o filme. Assinado pelo obstinado
Paul M. Sammon - repórter de uma revista de sci-fi
que cobriu as filmagens de BR -, o livro traz todos
os detalhes possíveis e imagináveis sobre
a obra. O DVD do filme infelizmente não contém
nenhum material adicional. Um documentário exibido
na TV inglesa chamado "On The Edge of Blade Runner"
resgatou algumas imagens de arquivo e apresentou entrevistas
com o elenco. Apesar de não ter sido lançado
comercialmente, você pode achá-lo na Internet
.
Ao que tudo indica, o 20° aniversário do
filme vai passar em branco mesmo, sem nenhuma novidade
que faça jus à sua grandiosidade. Resta-nos
ligar o videocassete e transportarmo-nos novamente para
um futuro que a cada dia se torna menos distante e mais
assustador. Boa viagem.
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