Quase uma hora da manhã de 25 de maio de 2002. Estou na minha quinta cerveja, mas não alcoolizado o suficiente para perder um show magistral.
FERNANDA PORTO no palco da Loud!. Eu olhava pros lados e via gente dançando sem parar. As poltronas cheias, os corredores entupidos, os andares pulando (não, eu não estava doidão). Quando a mulher
pegou o saxofone, pensei ´caramba, é Kenny G. com Luiz Gonzaga !'. Um arraso. Melhor ainda saber que depois tinha uma entrevista marcada. Fernanda me recebeu atrás da tela do Cine Íris (que tinha mais uns três jornalistas esperando) e deu este TALK MINUTE contando um pouco da trajetória e comentando a nova música brasileira.

TALK MINUTE - Fernanda Porto

T.M.: Como você vê a influência da Bossa Nova na concepção da música eletrônica brasileira, já tendo dois exemplos em que essa mistura deu certo, como "Só de tinha de ser com você", e "Sambassim", com o Dj Patife ?

Fernanda: É muito importante a gente não rejeitar o que é nosso. Não é porque se pretenda ser moderno que isso signifique abafar a nossa
brasilidade, o suingue. Com certeza, muito do que aconteceu, no meu caso especialmente, é que quando eu falo a palavra 'samba' lá fora, as pessoas já têm aquela simpatia, aí eu fiquei pensando porque essa música que deu certo, né?
Tem tanta coisa ali cuja história não fui eu que fiz. Aquela história que a gente já conquistou. Acho importante para as pessoas saberem 'é meu, é da gente', então vamos realmente usar isso. No meu caso, eu nunca saí de perto da música brasileira, mas eu já fui pra uma coisa muito 'popinha' e tal, mas não funciona. Você tem que trazer o que é mais genuíno, absorvendo a infância mesmo.

T.M.: Mas por que só agora se descobre essa mistura eletrônica com resgate da Bossa Nova se isso já acontecia lá fora, no Japão e na Inglaterra, principalmente, com jovens procurando discos raros em sebos e dj's remixando Joyce, Marcos Valle e outros ?

Fernanda: É natural, a própria música brasileira estava meio perdida. Teve uma época maravilhosa com os Titãs, só que era uma época que não tinha melodia. "Ó, que super moderno", eu adoro Titãs ! Em termos de MPB, de construção de história a coisa ficou um pouco parada, as canções, eu mesmo, quando eu compunha, falava "ah, isso é velho, é antigo", mas na verdade essa mistura dá um frescor que faz com que a gente acredite novamente nisso. Não acho que seja culpa dos brasileiros, é uma indústria fonográfica. Essa música, "Sambassim", a história dela é uma história muito natural, lá em São
Paulo, pelo menos, as pessoas começaram a ligar pra rádio, não foi jabá nenhum. É só escutar as pessoas, o problema é que as multinacionais às vezes querem botar aquela música mastigada, fácil pras pessoas.

T.M.: Desse jeito, fica mais difícil que novos rostos, como o seu, possam atingir o grande público, né...

Fernanda: Normalmente, quando você não tem uma música no rádio, aí você faz o circuito cultural, é muito difícil, porque no máximo você chega a trezentas, quatrocentas pessoas de público, e não necessariamente você vai conseguir viver disso. Eu tive que me virar em um monte de coisas dentro da música pra sobreviver até agora, fazendo trilha, gravação... Tudo bem, eu não tenho uma mágoa, mas é difícil realmente. Essa força que o rádio deu, os dj's também é muito importante para o meu trabalho. Para dar uma empurrada, mesmo antes de ter gravadora, você dar uma respirada legal.

T.M.: E depois do empurrão, o que você achou de ter se apresentado aqui, no Cine Íris lotado ?

Fernanda: Acho maravilhoso esse lugar, porque é uma coisa que faz sentido, de cuidar do que é nosso mais uma vez. É um lugar legal, se sensação boa de cultura, imaginar o que já rolou aqui dentro.

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