Quem pensa que o mangue
bit (ou beat, ainda há polêmicas sobre
isso) está morto e enterrado, deveria ter aparecido
nas noites de 24 e 25 de junho no Teatro Rival BR,
no Centro do Rio. Estacionei o carro na Rua Senador
Dantas já pensando ‘droga, atrasado e
não vou encontrar a produtora’. Quando
viro a esquina, dou de cara com uma multidão
bebendo chopp na porta e uma fila quilométrica.
Em cartaz, mundo livre s/a. ‘Fui no primeiro
show deles aqui no Rio, em 1999, no Espaço
Cultural Sérgio Porto, e de lá pra cá,
não perco um. Não é toda hora
que se tem uma oportunidade dessas, e a passagem para
Recife está cara...’, disse um amigo
meu. Aliás, palmas para as 3 Meninas (produtoras),
que conseguiram conquistar um público novo
para o tradicional palco da MPB. Durante o show -
simplesmente perfeito, diga-se de passagem –
1200 pessoas dançaram, se beijaram ao som de
“Meu Esquema” (‘os brutos também
amam’, foi o que ouvi) e escutaram FRED 04 comentar
o atentado contra a prefeitura na madrugada em que
eles chegaram ao Rio. Para ele, foi o nosso 11 de
setembro, em referência ao ocorrido no ano passado
nas torres gêmeas de Nova Iorque. Que o movimento
de Recife sempre esteve ligado aos acontecimentos
mundiais e sempre soube aproveitar o melhor da globalização
(a troca de informações) para entender
e modificar a realidade tupiniquim, a gente já
sabia. Mas... será ? Confira no TALK MINUTE
que ele proporcionou, no backstage do Rival BR, entre
uma cerveja e outra depois do show.
TALK MINUTE
– Fred 04
T.M.: Você disse,
durante o show, que traficantes não se dariam
ao trabalho de desperdiçar munição
e granadas para atacar a prefeitura. Qual a sua avaliação
daquele episódio, poderia ter sido uma armação
?
Fred 04: É véio, a gente
teve o nosso 11 de setembro. Há uma percepção
mundial de que o maior beneficiado hoje com o atentado
às torres gêmeas foi o George W. Bush.
A gente sabe que o FBI e o Pentágono tinham informações
de que havia essa possibilidade de atentado, e estranhamente
não se tomou nenhuma providência. O resultado
todo sabe qual foi: o cara saiu de uma situação
de presidente mais fraco que a América já
teve para um dos mais poderosos que eles já tiveram.
É um tipo de situação que gera
uma insegurança geral, uma ansiedade, terror
mesmo, é muito fácil se transformar num
cara superpopular. É muito engraçado ver
Fernando Henrique ao lado de César Maia visitando
a prefeitura, igualzinho George W. Bush com os bombeiros
no World Trade Center no meio dos destroços.
Abro os jornais e vejo o presidente com munição
na mão... Os bandidos não são trouxas,
véio. Se eles queriam uma coisa de provocação
às autoridades de segurança do estado,
eles teriam atacado, feito alguma coisa, contra o Palácio
Guanabara, não contra a prefeitura. O lance ter
sido lá foi altamente conveniente. Rendeu fotos
pra quem ? Pro Fernando Henrique e pro César
Maia. Só sendo muito trouxa, pô ! O óbvio
às vezes tá na cara da gente. Eu não
descarto nem esse troço ter surgido via Consenso
de Washington. Esses caras que estão aí
defendem o poder global, esse tipo de coisa acontece
no Brasil, na Venezuela, na Colômbia, no Paquistão...
Eles dizem ‘os investidores estão nervosos,
então temos que tomar uma providência’.
Eles foram até bonzinhos porque não morreu
ninguém.
T.M.: Mudando de assunto,
para onde vai o movimento Mangue Bit ? A contribuição
e a morte de Chico Science já foi absorvida pelos
outros integrantes ou o impacto foi muito forte ?
Fred 04: Alguns
anos atrás, nego comentou que o mangue bit, com
a morte de Chico, tinha morrido porque as gravadoras
não tinham investido. O engraçado é
que as gravadoras estão falidas, demitindo departamentos
de divulgação, e o mangue bit permanece.
Estamos sem gravadora e estamos aqui, lotando dois dias
seguidos. A morte do mangue bit você viu hoje
aí, todo mundo cantando a morte do movimento.
Temos que levar em conta o absoluto despreparo dos executivos
de gravadoras, eles são umas portas, incompetentes
e estúpidos. Ontem, Luana Piovani esteve aqui
por causa da música ‘Meu Esquema’.
A gente fez um clipe com essa música, que eles
rapidamente tomaram a providência de esconder,
e logo em seguida a música virou tema de um programa
com a Luana na MTV (‘Tudo de Bom’), apresentado
de Nova Iorque. A música começou a tocar
em várias rádios do país, e ela
chegou aqui ontem e me perguntou ‘Quando é
que a gente vai fazer esse clipe ?’. Até
hoje ela está esperando, desde aquela época
ela estava ansiosa para fazer o clipe, na ‘brodagem’,
sem cobrar nada. Enfim, acho que Luana Piovani não
significa nada pra eles. Qualquer coisa que traga um
pouco de inteligência ameaça para um modelo
que é todo construído na falta de escrúpulos...
Pensar é perigoso. Agora, todo o superfaturamento
e a lavagem cerebral foi colocada em xeque pela pirataria,
que foi a melhor coisa que aconteceu na cultura brasileira
nos últimos tempos, porque destruiu o modelo
de corrupção de clonagem da era da cópia
que era muito perverso para a música brasileira.
À medida que esse modelo vai ruindo a gente vê
manifestações como essa aqui hoje.
T.M.: Você citou
a pirataria como arma contra as gravadoras. Recentemente,
a faixa ‘Caiu a ficha’, do mundo livre s/a,
que foi disponibilizada para download na internet, foi
adquirida por 54 mil pessoas em apenas dois dias. Como
você vê medidas como a proibição
de trocas de música em MP3, por exemplo, quase
sempre apoiadas em pretextos de prejuízos para
as gravadoras ?
Fred 04: A música
sempre existiu e sempre vai existir. As formas de divulgar,
distribuir e difundir música é que são
diferentes. Desde os tempos dos tambores nas primeiras
sociedades tribais, já existia música
com outras funções, como religiosas, ritualísticas...
À medida que a sociedade vai evoluindo, entre
aspas, com outros estágios, a função
da música e dos músicos vai mudando. Já
houve tempo em que para ser compositor tinha que ser
apadrinhado por uma igreja, um bispo, um mecenas ou
uma corte para conseguir um instrumento. Isso durou
séculos. Com a Revolução Industrial,
isso se tornou um pouco mais democrático e o
músico passou a ter um certo prestígio
na sociedade porque ele passou a fazer parte de uma
engrenagem industrial, onde várias cópias
podiam ser vendidas de uma mesma música. A gente
está passando por uma outra fase de civilização
nesse sentido, de difusão da música. Então,
há certos setores que tentam barrar isso, eles
passaram décadas se beneficiando com a mamata
de um modelo que eles percebem que está sendo
ultrapassado e não se conformam com isso, acham
que podem prolongar uma mentira. Dizem que mentira tem
perna curta. Eu acho que hoje em dia ela tem uma perna
longa demais, mas eles não conseguiram achar
um jeito de fazer a mentira eterna. Eles estão
tentando prolongar, mas no fim a história vai
vencer.
T.M.: Pergunta inevitável:
de onde veio essa admiração pelo Rivaldo,
além do fato, claro, de ele ser pernambucano
(o jogador é de Paulista, região metropolitana
de Recife) ?
Fred 04: Eu
sou admirador não só do futebol mas também
da atitude de Rivaldo. É um cara que nunca se
vendeu a essa coisa fácil do jet-set do futebol,
não virou um playboyzinho, um pop-star, ídolo
das revistas de fofoca e tal. Isso tem muito a ver com
o temperamento nordestino e com a gente também,
pelo fato de sermos ignorados pelas gravadoras. A gente
é alma gêmea de Rivaldo
T.M.: E como é
voltar ao Rio de Janeiro, encontrar o Teatro Rival BR
lotado como esses dois dias ?
Fred 04: Eu
sinceramente, no começo demorei para entender
o que estava acontecendo, juro que não esperava.
Eu saio daqui mais otimista do que quando vim para cá,
volto para Recife satisfeito, e cria uma expectativa
natural em torno do nosso próximo disco, que
vai ser todo gravado lá, longe do circuito das
grandes gravadoras.
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