| O ato de dançar
é definido como uma manifestação
instintiva do ser humano. Antes de polir pedras e construir
abrigos, os homens já se movimentavam ritmicamente
para se aquecer e comunicar. Considerada a mais antiga
das artes, a dança é também a única
que dispensa qualquer tipo de material e ferramenta. Para
realizá-la, dependemos somente do corpo e da criatividade
para cumprir sua função enquanto meio de
afirmação dos sentimentos e experiências
subjetivas do homem.
De
acordo com certas correntes da antropologia, as primeiras
danças eram individuais e estavam intimamente
relacionadas a conquistas amorosas. Na origem das civilizações
aparecem as danças coletivas, associadas à
adoração de forças superiores para
obter êxito em guerras ou na caça, ou ainda
para solicitar bom tempo e chuva. O desenvolvimento
da sensibilidade artística do ser humano determinou
que a dança se configurasse como manifestação
estética. No antigo Egito, já se realizavam
as chamadas danças astroteológicas em
homenagem ao deus Osíris. Na Grécia clássica,
a dança era freqüentemente vinculada aos
jogos, em especial aos olímpicos.
Se desde os tempos mais remotos os povos dançam,
por que não haveriam de dançar hoje? Não
faltam estilos para escolher: música eletrônica
e todas as suas vertentes, rock, gótico, hip-hop,
forró, funk, gafieira, bolero, tango... E não
é só nas boates, onde normalmente homens
e mulheres se balançam ao som de música
alta e sob luzes hipnóticas. Para quem adora
dançar, não existe tempo ou lugar definido.
Pode ser em um bar, na despedida de solteiro da prima
encalhada, na praia, no meio da rua.... Quem dança
experimenta uma forma de expressão corporal fundamental
e de quebra vários benefícios: aperfeiçoamento
da coordenação motora, paz de espírito,
bem estar e alegria. A jornalista Chris Magnavita vive
recebendo estas boas vibrações. Disposição
é o que não falta para encarar uma pista
de trance psicodélico ou uma bateria de escola
de samba e perder a noção do tempo. "Acredito
que já fiquei umas cinco horas dançando",
conta ela, que considera a dança uma ótima
malhação. "Numa rave trip em Minas
eu dancei tanto que as minhas pernas doíam no
dia seguinte. Mas logo que comecei de novo a dor passou"
Nem
todos são animados como Chris. No universo oposto
ao dos "dançarinos", encontramos os
travados. Estes enfrentam sérias dificuldades
ao tentar conjugar fisicamente este simples verbo: DANÇAR.
Que tal substituir as duas sílabas por duas palavras
e então conjugar estaticamente o FICAR PARADO
ou FICAR SENTADO? É a resposta mais certa que
o diretor de arte Mário Teixeira daria se fosse
convidado para balançar o esqueleto. A boa da
noite, para ele, é ficar estacionado em um cantinho,
numa mesa ou num sofá aconchegante, sem dar vexames.
"Me sinto desengonçado e acho que não
consigo entrar no ritmo das músicas", explica.
Apesar de não curtir uma pista, ele gosta de
observar a maneira como as pessoas dançam. "Vejo
gente dançando virada para a parede, rebolando
até o chão, se rastejando, montando coreografias,
mas o que me chama mais a atenção é
o fato de os homens serem sempre os mais descompassados",
comenta. O produtor Bruno Natal concorda com Mário,
mas não deixa de dançar ! um bom drum
n'bass por causa disso. "Toda vez que me aventuro
em uma pista de dança eu pago um mico",
resume. Só tem um ritmo que o faz travar: samba.
"Fico notoriamente desengonçado, mas dependendo
da situação eu deixo para lá e
mando ver. Samba no pé!", proclama.
Travada
mesmo é a webdesigner Lamia, que odeia se embrenhar
em pistas cheias. "Não gosto de chamar a
atenção e nem destes lugares apertados
nos quais as pessoas, para conseguirem se mexer, ficam
se esbarrando umas nas outras", explica. Dançar,
para ela, é um ato com conseqüências
muito mais profundas do que a simples satisfação
de se envolver por um ritmo. Ela elegeu a dança
do ventre como a maneira ideal de se expressar. Com
uma condição: sozinha, em seu quarto.
"Para mim a dança é um ritual que
pode levar a um certo tipo de transe que não
deve ser compartilhado". Já Chris, ao que
tudo indica, nunca entrou neste estado de consciência
a bordo do trance, mas consegue perceber os efeitos
positivos da dança sobre aqueles que a vivenciam.
"É uma terapia para o corpo e a mente, além
de haver uma troca de energia através do olhar
das pessoas", afirma.
Sozinho, a dois, numa pista cheia, na chuva, sem música:
dançar nunca deixará de ser uma bem inerente
a todos nós. Até para quem não
gosta, existe a chance de fazer como Mário e
observar quem dança e como o faz. Se você
não se empolgar, pelo menos vai ter uma breve
aula sobre o comportamento humano, rir um pouco e tirar
suas conclusões.
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