Elas podem ser antipáticas, mal-humoradas, agressivas. Às vezes se mostram cordiais e educadas, quase fofas. Mas quando um incauto não cai nas suas graças o adjetivo que melhor as descreve é um só: implacáveis. Portadoras das listas VIP - e donas do poder - nas boates, as hostesses (ou doorwomen, como preferem algumas) ressuscitam no Rio o doorpolice, uma prática comum e até glamourizada na Nova York dos anos 70.

O negócio é mais ou menos o seguinte: quem não tem o perfil da casa, segundo os critérios dessas guardiãs, não entra. Ou pelo menos amarga horas do lado de fora, o que dá no mesmo. É simples assim. O modo de barrar é que varia.

- Não digo "você não entra" para alguém feio ou malvestido. Só o deixo
mofando na fila. Só tem gente linda aqui - manda, na lata, Carol Zawadzki, hostess do Baronetti, em Ipanema.

Entre um sorriso e outro, ela chega a "dar um toque" em quem insiste em pleitear um lugarzinho no paraíso.

- O Studio 54 de Nova York fazia sucesso, nos anos 70, por isso - analisa, citando o clube que foi a meca da era disco nos Estados Unidos, onde até a cantora Cher foi barrada certa vez. - Muita gente me acha antipática. Mas quem consegue passar fica feliz porque se sente VIP.

E não é que (acredite!) ela tem lá sua razão?

- Gosto do rigor daqui. Chego a passar 40 minutos na fila, mas não ligo. Só tem mulher bonita - deslumbra-se o estudante Antonio Araújo, que se diz freqüentador da casa.

A modelo inglesa Naomi Campbell deve ter respirado aliviada, noite dessas. Passou incólume pelo rigoroso crivo de Carol.

Não teve a mesma sorte a também modelo, brasileira, Cristiane Dantas, a Xaiane.

- Quando ela chegou, a fila estava imensa. Ela me puxou pelo braço e disse: "Escuta aqui, eu sou a Xaiane, do 'Big Brother'. Não vou entrar?". Eu respondi: "Eu sou a Carol, do Baronetti. Espere na fila" - diverte-se a
hostess.

Apesar de tudo, ela garante barrar com delicadeza. Um atributo de que nem sempre lança mão Suzana Trajano, a doorwoman do Galeria Café, também em Ipanema. Ela faz a linha cão que ladra muito mas não morde, pois não pode impedir a entrada de ninguém. Pelo menos oficialmente. Mas adivinhe quanto tempo passa na fila quem ela não gostaria de ver entre os eleitos.

- A door tem que ser nojenta, tem que ter cara de má. Se for fofa, as
pessoas puxam o saco e acham que podem ter privilégios. Quem é amigo da casa entra na hora. Quem não é ou não tem o perfil do lugar fica na fila - conta.
- Eu trabalhei no Smith (a Dr. Smith, recanto dos "mudernos" cariocas no
início da década passada, reinou até 96). Lá a barração era forte. Todas as meninas gostariam de barrar, mas aqui no Rio o doorpolice, hoje, tem que ser pelo cansaço.

A promoter Helen Lorenzo talvez não concorde. Quem não está na lista VIP da Nuth, na Barra, quarta e quinta, não entra. E sem meias palavras.

- Na minha festa entram os sócios da boate, os meus amigos e os meus
convidados. Só. Não gosto de barrar a torto e a direito, mas também não ponho gente vudu para dentro. Nas noites que eu e minha sócia produzimos temos o poder - sentencia.

A jornalista Ana Paula Pinheiro sabe muito bem disso. Ela garante já ter
sido agressivamente barrada por Helen.

- Fomos a um aniversário na Nuth com amigos e ela disse que o horário para a entrada na festa já tinha passado. Ela foi muito autoritária e antipática. Não voltei mais lá - conta Ana Paula.

Razoavelmente bem-aceitos na Nuth, playboys, pitboys e congêneres não têm vez com Verena Isaack, da Dama de Ferro, na Lagoa:

- Se chega um playboy aqui, eu digo a ele: "Talvez você se sinta melhor em outro lugar. É melhor nem entrar" (o público da casa é essencialmente de modernos e GLS). Se insistir muito, não posso fazer nada. Mas nunca faço carão (traduzindo: ato de olhar para tudo e todos com uma atitude que varia da fleuma à pura arrogância).

De tanto distribuir patadas, quem acabou se afastando da noite foi Flávia Caloni, famosa door da Bunker, em Copa, por mais de três anos. Ao lado de Roberta Abelha, ela era a responsável pelo impiedoso crivo aos deslocados, o que lhe rendeu inimizades.

- Roberta e eu íamos até a calçada e tirávamos da fila quem estava com uma camisa legal, quem tinha estilo. Aos poucos o doorpolice foi relaxando. Uma vez levei uma cusparada de um cara que eu barrei - lembra. Flávia deixou a Bunker no mês passado. A roda-viva da vida noturna é, para ela, extremamente desgastante:

- Às vezes eu chegava em casa, depois de uma noite estressante, e chorava sem parar. Estou cansada das relações falsas, da solidão. Mas não vou deixar a noite.


*Publicado no caderno Ela, de O GLOBO, em 20/7/2002