Era um risco. Misturar num mesmo ambiente fãs de Otto com os de Patrícia Marx, periquitas e mauricinhos que foram escutar dance music na tenda da Rádio Jovem Pan FM com os piercings e cabelos coloridos de quem procurava música eletrônica mixada pelos dj's Baractho, Mad Zoo (Technozoide) e Anderson Soares poderia ser entendida como mistureba sem sentido. Mas não é que deu certo ? Cinco mil pessoas lotaram o Jockey Club na festa "Música Urbana", realizada pela gravadora Trama. Claro, as pragas da noite carioca, os chamados "pitboys", aproveitaram a proximidade com o cheiro dos cavalos e distribuíram sutileza na hora de se aproximar das garotas - valia de puxão de cabelo a abraço estilo 'mata-leão' na cintura. Nada que prejudicasse a festa. As filas dos banheiros civilizadas, segurança discreta, pseudo-celebridades (como os ex- participantes do programa global "Fama") e fotógrafos me fizeram pensar estar num evento mainstream total. Mas o clima era de festa, e foi com esse espírito (e uns drinks muito loucos do barman da área Vip) que tirei Alessandra Negrini do caminho e fiz algumas perguntas ao pernambucano Otto enquanto ele esperava uma demorada vodca. Em seguida, enquanto se apresentava com a banda Afro Rio na tenda Urbana, ele viu Seu Jorge, ex-vocalista do Farofa Carioca, na platéia e o intimou para subir ao palco. "Eu mal entrei no baile e vi Otto e Afro Rio no palco, amigos de carreira, de estrada... É foda não tocar, é difícil... Eu estava no Baixo Gávea falando 'hoje é o meu dia de folga, hoje não tem som' e aí eu chego aqui...", disse Seu Jorge. Era só o início de uma noite que teria seu ponto máximo durante o show de Cláudio Zoli. O ex-Brylho fez uma apresentação que teve no palco Otto, Seu Jorge e Fábio Fonseca (tecladista, produtor) e na platéia Maria Paula, do Casseta & Planeta. Enfim, a noite foi boa, de tudo rolou, e aqui estão OTTO, SEU JORGE e CLÁUDIO ZOLI num TALK MINUTE quase especial. Só não vai ser porque faltou Patrícia Marx. Justiça seja feita, ela merecia espaço para justificar a mistura do evento. Mas os organizadores da festa, que me ajudaram do início ao fim das entrevistas, não conseguiram localizá-la. A ex-Trem da Alegria (lembram ?) entendeu que a hora era de se misturar e caiu na gandaia. Ela é que está certa.

TALK MINUTE - Otto, Seu Jorge e Cláudio Zoli

ottoT.M.: O que vocês acham de participar de um evento como esse que tem misturas inusitadas, além de três tendas diferentes reunindo tribos que parecem tão antagônicas entre si ?

Otto: Eu acredito que a música brasileira precisa de algumas coisas que dêem
gás a ela e a Trama está acreditando nos artistas dela. E o povo que está
comparecendo está entendendo o recado. É meu trabalho querendo ser mostrado, a Trama querendo se mostrar e o povo querendo ver coisas novas, isso é legal.

Cláudio Zoli: Eu não fazia show no Rio há muito tempo. Esse tipo de evento tem
que ter sempre, porque no Rio de Janeiro a gente não tem tantas opções de casas
de show e num evento como esse você reúne a maior galera, de várias tribos, é
um movimento cultural que tem que estar vivo.

T.M.: O público carioca está mais receptivo às coisas novas que estão surgindo?

Otto: O Rio de Janeiro está sempre antenado e tem muita gente daqui que está
fazendo uma música misturada, um samba que procura a diversidade e dentro das raízes brasileiras. Então, é mais um braço no Rio de Janeiro que é uma cidade satélite que emana raios que provocam o artista a fazer tours pelo mundo, pelo Brasil, é uma cidade calendário mundial.

T.M.: Seu trabalho hoje está mais voltado para a música eletrônica, mas ainda
restam raízes do movimento Mangue Bit de Recife ?

Otto: Meu trabalho hoje é um trabalho maduro de alguém brasileiro que curte
música brasileira e que por acaso é do Nordeste mas que tem toda uma essência
que vem do folclore popular nordestino e... (estamos no bar, Otto pede mais uma
vez a vodca e acaba se perdendo na resposta) qual era mesmo a pergunta ?

T.M.: O que resta de Mangue Bit no seu trabalho ?

Otto: Tem muita coisa boa, o mangue mudou o Recife, falar que mudou o Brasil eu não sei, mas que tem muita gente por esse país que acredita e que se usufrui desse caso... Chico Science foi um cara que atacou em todas as vertentes
populares brasileiras e todo mundo tem um pouco de Chico Science... Lá em
Recife tem um monte de Chico Sciences... (e nada da vodca de Otto)

T.M.: No seu caso, Cláudio, como é ver gente que nem tinha nascido quando você tocava "Noite do Prazer", com o Brylho, e que hoje canta de cor a música ?

Cláudio Zoli: Olha, eu estou surpreso com o sucesso de "Noite do Prazer",
depois de quase 18 anos. O cd já está em mais de 50 mil cópias vendidas e pra
mim está sendo muito bacana estar de volta através dessa nova geração com a
música.

zoliT.M.: Hoje você é contratado da Trama, mas há algum tempo, você fez parte da "Tigres de Bengala"(banda formada por Cláudio Zoli, Ritchie e outros músicos), que tentava enfrentar mais uma crise na indústria fonográfica com a reunião de vários artistas. Hoje, mudou alguma coisa na relação entre
gravadoras e músicos ?

Cláudio Zoli: Eu acho que a gente está vivendo uma mudança, até mesmo em
relação à vendagem e ao cd pirata e uma necessidade de renovação no cenário da música brasileira. Isso está fazendo com que as gravadoras se questionem todo o processo de novo de como lançar o artista, de como vender disco, de colocar disco em loja, e a gente realmente só vai conseguir isso se mantermos um nível da música aonde ela tem de estar.

T.M.: Algumas músicas suas já foram mixadas por dj's. Você acha esse aspecto
positivo, como você vê a influência da eletrônica no cenário musical
brasileiro ?

Cláudio Zoli: Os dj's viraram músicos. Eles me dão uma visão diferente, e isso
só tem a acrescentar.

Seu Jorge: A música brasileira sempre esteve bem. O que não está bem é a
economia brasileira. Isso tende a prejudicar a sua produção, a sua execução, os
profissionais da área... (nesse momento, a entrevista é interrompida pela
apresentadora Maria Paula, que tasca um estalinho no cantor. Ele perde a linha
de raciocínio e decido fazer outra pergunta...).

T.M.: Falando na atual situação econômica do país, como foi trabalhar no filme "Cidade de Deus" (Seu Jorge fez o papel principal) ?

Seu Jorge: É engraçado porque eu estava fazendo o personagem como se estivesse fazendo a minha vida. No cinema, diferente do teatro, você vivencia, não interpreta, e vivenciar um personagem como Mane Galinha é voltar numa raiz que eu deixei há muitos anos na minha comunidade chamada Gogó da Ema, em Belford Roxo (cidade da Baixada Fluminense), que não é muito diferente da Cidade de Deus. Foi de extrema importância, acredito até que tenha que se discutir mais e mais o tema violência até porque o filme está em foco para mostrar a realidade da construção dessa coisa que chamam hoje de poder paralelo, o poder que faz paralelo com quem tem poder. É importante um cinema mais realista, visceral, que conte mais com experiências de vida como a que Paulo Lins teve (escritor do livro homônimo que inspirou o filme. Paulo morou quase 30 anos na Cidade de Deus). Eu espero um sucesso muito grande aqui no Brasil, já que fez lá fora, em Cannes. Eu filmei durante um mês e meio, fiz grandes amigos, exercitei minhas artes cênicas, que estava um tempo sem fazer, eu sou de formação de teatro, e a música me roubou um pouco... Eu nunca imaginei de fazer cinema na minha vida e eu já tenho um filme pra ver e mostrar pros meus netos no futuro. Tô muito feliz.

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