Os anos 80 foram tão importantes para a música pop mundial que estão sempre por aí, de volta. De fato, após a explosão do technopop, do rock inglês, do rock gótico e afins, foram poucos os movimentos musicais que tiveram tamanha força. Tudo bem, teve o “grunge”, catapultado por toda a cena de Seattle (mas vamos ver se sua influência cultural vai durar mais de 20 anos) e, agora, vivemos no auge da cultura club e de toda a força da música eletrônica. E é exatamente aí, se misturando com a nova cena eletrônica, que a cultura 80´s encontra as bases para o seu mais novo renascimento.

O Futurepop

Na verdade, falar de eletrônica e som dos anos 80 é quase uma redundância. Pois foi nessa época que o casamento entre música pop e sintetizadores teve a sua fase mais feliz. Tudo bem, o namoro começou ainda no final dos anos 70 (com bandas como o Kraftwerk), mais filhos como o technopop e o synthpop só se mostraram definitivamente para o mundo ao longo dos 80´s. O Depeche Mode, se não for o mais, está entre os representantes mais queridos.

Atualmente, ecos da Europa nos fazem ouvir falar muito em futurepop. É a tal “nova tendência” da qual produtores, DJs, jornalistas e todos os envolvidos com música moderna vivem correndo atrás. Dizem que é a adaptação do EBM (Electronic Body Music) e do electro (o batidão que originou o miami bass e, por aqui, o funk carioca) para as pistas de hoje em dia (ou melhor, de hoje à noite).

Para o DJ e produtor do projeto Catedral, Eduardo Maia (qualquer semelhança com o sobrenome deste que vos escreve é mera coincidência), “O futurepop é simplesmente o EBM revisitado, com um rótulo mais comercial que Electronic Body Music. Mesmo assim, tornou-se uma forte tendência dos tempos atuais, principalmente nas pistas de dança européias”.

Por apresentarem texturas sonoras densas e letras (quando as possuem) obscuras, mas sem perder o vibe da música eletrônica, o futurepop conseguiu, mais uma vez, unir duas tribos que estão sempre se esbarrando: os góticos e os clubbers. Até porque, a maioria dos clubbers que viveram bem os anos 80, já foi meio gótica um dia. Para se ter uma idéia, até mesmo o Soft Cell, que estourou no mundo inteiro com o sucesso “Tainted Love”, voltou para se apresentar nos megafestivais de música eletrônica (como o Homelands).

Se por um acaso alguém puxar um papo sobre futurepop, para não se fazer de desentendido, fale a respeito de bandas/projetos como Covenant, Console, ADD N to (X)... e principalmente do Ladytron e do Fischerspooner. Este último fez do seu hit “Emerge” uma das músicas mais tocadas nas pistas européias e presença obrigatória em festas especializadas no gênero.

Uma década que não quer passar.

Há controvérsias sobre essa paixão do brasileiro (e, principalmente, do carioca) pelos anos 80. Como foi dito no começo desta matéria, realmente foi uma época de grande produção musical. Tinha muito lixo, claro, mas sobravam muitas coisas legais. Do mundo inteiro vinham bandas que são idolatradas até hoje. E aqui no Brasil criou-se uma forte cena que levou o rock nacional para o topo de qualquer parada. Era o BRock.

O lado ruim disso é que adorar os anos 80 pode ser apenas a conseqüência de um completo desconhecimento de novidades, fruto de uma política de total desinformação promovida pela grande mídia e, no caso do Rio, não termos sequer uma rádio rock decente para simplesmente divulgar o que o mundo inteiro está ouvindo. O saudosismo, muitas vezes, é apenas a opção mais fácil para quem gosta de música pop mas não tem disposição ou paciência para pesquisar bandas e sons novos.

Para o DJ Amândio, “os anos 80 realmente representaram a melhor fase da música pop mundial”. Eduardo Maia concorda que existem mesmo os dois tipos de oitentamaníacos: “Por um lado, muitos consideram (inclusive eu) que a melhor produção musical do mundo foi a dos anos 80. Já ouvi dizer que isso é uma doença sem cura. Mas admito que há uma falta de conhecimento do pessoal sobre coisas mais novas, conseqüência de no Brasil não haver espaço na mídia para este estilo”.

Seja qual for a verdadeira razão para isso acontecer, o que importa é que o Brasil (e mais precisamente, o Rio) tem um público fiel para artistas (originais, revivals e covers) dos anos 80. Tanto que, nos últimos tempos, por aqui houve (e ainda está havendo) uma invasão de bandas que resolveram voltar depois de um término ou então que não costumavam dar as caras em seu auge. Temos como exemplo o Echo & The Bunnymen, que em menos de quatro anos já veio duas vezes, o Mission, o Gene Loves Jezebel, o Morrissey, o Cult... forçando a barra, até o Guns´N´Roses.

Quem já prefere os nacionais, encontra diversão garantida nos disputados shows da banda Perdidos na Selva, que mensalmente agitam o Ballroom, no Humaitá.


Góticos: de onde vieram e para aonde vão.

O movimento artístico (a ênfase aqui será na música) conhecido como gótico foi um dos que mais tiveram força na década de 80. No Rio de hoje, órfãos da antológica boate Crepúsculo de Cubatão e uma turma bem mais jovem que foi devidamente apresentada às sombras pelos mais velhos vivem numa interminável peregrinação de um lugar que os reúna... e não feche.

Alguns meses antes, a mesma história aconteceu no Catete, mais precisamente na Nautillus, que por um bom tempo abrigou a cena gótica carioca.

Para a produtora Soraya AC, diga-se de passagem, uma veterana em festas especializadas no estilo gótico, considerada por muitos como a mãezona da cena, a culpa dessa crise está na falta de união e o “olho grande” entre produtores e DJs desse meio. Soraya dá ainda a a fórmula para uma possível renovação de forças: “Para uma cidade como o Rio, o ideal é que as festas góticas aconteçam com um intervalo pelo menos mensal. Não podem ser todos os dias de todo final de semana, como andou acontecendo na Spin. A cena também não deveria se dividir tanto. Hoje existem muitos produtores de festas e, praticamente, todos eles vêm dos mesmo projetos. Daí um gosta mais de metal, outro de synthpop; um de clássicos, outro de novidades... o resultado acaba quase sempre sendo uma racha no projeto original e cada um vai fazer a sua própria festa. Acabam dividindo ainda mais uma cena que já é pequena”.

Mas é assim mesmo. Oras em baixa, oras tão em alta que acabam sendo retratados de forma caricata em novela das oito. Os góticos estarão sempre por aí esperando a noite perfeita chegar. Walk... Walk... Walk… Walk… Walk awaaaaaay.

Onde curtir clássicos dos anos 80, futurepop, rock gótico e afins.

>>>Spin
Rua Teixeira de Melo, 21, Ipanema.

Sextas, sábados e domingos têm festas com ênfases em alguma vertente (seja ela clássica ou moderna) dos estilos com raízes nos anos 80. Mas corra. Cada final de semana pode ser o último.

>>>Bunker 94
Rua Raul Pompéia, 94, Copacabana.

A casa noturna underground, vira e mexe, tem em sua Pista Groovie um DJ especializado em midbacks dos anos 80. De tempos em tempos, a casa também produz noites especiais dedicadas ao rock gótico.

>>>Ballroom
Rua do Humaitá, XX, Humaitá.

Tem as suas melhores noites quando rolam os shows da banda Perdidas na Selva que, de Blitz e Absynto a Plebe Rude e Tokyo, faz a galera dançar e pular muito com sucessos do BRock.

>>>Em São Paulo
Tanto para quem curte os clássicos como para quem aprecia novidades, as noites do bar Orbital, na Rua Augusta, e da Festa S.O.U.N.D., no DJ Club, são ótimas opções.