O segundo andar do Moog Bar, em Botafogo (nova empreitada dos mentores da Casa da Matriz e da Loud!) estava lotado. Não havia lugares nas cadeiras, o chão tinha sido tomado e pessoas esticavam o pescoço na escada para assistir não a um mero show, mas a um mix de arte que misturou pintura, poesia e música. No palco do projeto Panorama, uma cara nova impressionava por ser multi: ele tocou saxofone, flauta, violão, piano e, insatisfeito, ainda disse que começou a tocar clarinete recentemente. “O violão e o piano são os instrumentos que eu uso mais para composição, arranjos... O saxofone e a flauta são instrumentos solo, que tem todo um estudo de técnica que é muito mais apurado e por isso eu me dedico. E tem a voz, que completa o pacote da composição”, analisou. Idade não é documento, já diziam, e ele, que já gravou com Kid Abelha (do primo George Israel), lançou recentemente o primeiro CD solo, distribuído nas lojas Corpo e Alma, e teve três músicas remixadas numa coletânea de Lounge Music pela Sony. Nada mal para quem se confessa um privilegiado por poder tocar aquilo que gosta e sente, sem as rédeas das grandes gravadoras. Talvez por isso este TALK MINUTE com Rodrigo Sha tenha sido bem relax: do jeito que ele curte a vida e a música.

TALK MINUTE – Rodrigo Sha

T.M.: De onde veio toda a sua formação musical ?

Rodrigo Sha: Eu vou ser muito sincero, vem de muita vontade e determinação que eu tenho em relação à música. Tive professores maravilhosos, não fiz nenhuma faculdade de música, mas vem pelo fato de estar tocando muito... Desde que eu comecei a tocar sempre dei muito valor pra estar na rua, porque é ali que se aprende mesmo, na hora do vamos ver. É a minha maneira de desenvolver a minha música. Acho que eu desenvolvo estudando e colocando em prática, porque é o tempo de você absorver e colocar aquilo pra fora. Senão você fica estudando três anos e só toca em casa, e aí fica uma coisa meio entubada e as fichas demoram a cair.

T.M.: Mas além dessa formação, você já tinha músicos na família ?

Rodrigo Sha: Eu tocava violão desde os seis anos, foi um instrumento que eu sempre brinquei. O meu primo é o George Israel, do Kid Abelha. Quando eu fui num show deles quando eu tinha onze anos, eu pirei... E aí ele me emprestou um sax e eu comecei a aprender. Com doze anos eu comecei a tocar saxofone (detalhe: durante a apresentação no primeiro dia do projeto, Rodrigo tocou com o primo sem nenhum ensaio, o que provocou um pouco de nervosismo: “Toda vez que eu estou do lado dele rola uma pressão”).

T.M.: Você acabou de lançar o seu primeiro CD. Se você tivesse que definir a música que você faz para o grande público como seria ?

Rodrigo Sha: É muito difícil a gente definir o próprio trabalho. Às vezes essa rotulação dá uma comprimida. Mas eu diria que eu gosto muito da música do mundo... Sou brasileiro, sou fã da música brasileira, mas dizer que minha música é só brasileira é muito pouco. Desde moleque, eu viajo, já morei fora algumas vezes, tocando, estudando e trabalhando também. A música de outros lugares me influenciou muito, é uma coisa que me chama mesmo. Música oriental, africana, espanhola, o jazz, o pop, de Londres, dos Estados Unidos... Meu trabalho é uma fusão, é o que eu busco mesmo, uma constante mistura porque eu acho que é fruto e espelho do que eu sou.

T.M.: E depois, você vai se enquadrar se uma gravadora decidir te contratar e tentar ditar as chamadas regras do mercado ?

Rodrigo Sha: Você tem que saber aproveitar as oportunidades e ter essa flexibilidade. Por exemplo, depois de ter gravado esse CD eu fiz três remixes que foi lançado pela Sony numa coletânea chamada “Brazilian Lounge” e são versões diferentes. Você tem que ser versátil, aberto ao mercado senão você morre de fome. Eu sou romântico, mas você tem que ter o pé no chão, senão você não vive. O que é o comercial? É o autêntico e acho que é isso o que as pessoas estão querendo cada vez mais.

T.M.: Apresentar-se num clima diferente como este do projeto Panorama, sem um set list fechado, ajuda ?

Rodrigo Sha: Esse é um projeto maravilhoso. Aqui as pessoas estão respirando arte, não se visa fins lucrativos. É um movimento artístico. Ter uma poesia declamada já te inspira na hora em que você for tocar...

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