| Era legal. Eu ia até as Lojas Americanas e comprava
meia dúzia de Basf Ferro II 90 minutos. (Meu 3 em 1 não
tinha seleção para as fitas com camada de Cromo.)
Tirava o invólucro de plástico, colocava no deck,
apertava o pause, depois o rec. Colocava o disco no prato, soprava
a agulha (até hoje tenho uma cápsula Le Son guardada
como relíquia), girava o braço em direção
ao centro do bolachão. O motor começava a funcionar,
girando o disco, onde eu pousava delicadamente o braço.
Fechava a tampa com carinho e soltava o pause.
Grandes tardes da minha infância e adolescência
foram assim, gravando os LPs que o meu padrinho me emprestava
– no início Pink Floyd, depois Rush, Led Zeppelin,
Deep Purple e, por fim, Black Sabbath. De vez em quando, eu
conseguia discos com meu primo ou com algum amigo. Escutava
a música, controlava no relógio o tempo que
ela durava e fazia as anotações, para ver quantas
cabiam no lado A e no lado B. (As fitas de 46 minutos era
um verdadeiro quebra-cabeças!) As fitas cassete começaram
a ocupar mais e mais espaço. Tinha orgulho de abrir
as gavetas do armário da sala e dar de cara com elas,
numeradas e catalogadas em ordem crescente, com o nome do
artista na lombada. As caixinhas quebradas ou lascadas eram
trocadas sempre que possível. Sabia a posição
exata onde encontrar cada fita, e nelas via um pouco da história
da minha vida – no começo, alguma coisa de Legião
Urbana misturado ao The Wall, mais tarde apareceu um Rick
Wakeman, lá pelo meio Pearl Jam, e no final Carcass
e Voodoocult. Cheguei a algo como 250 cassetes. Do meio para
o final, as gravações já eram feitas
de CD, alugados da locadora mais próxima, ou emprestados
– geralmente via meus brothers Uilson e Gustavo. E constava
lá, orgulhosa, a informação, escrita
a mão ou marcada com um “x” no campo respectivo:
“source: CD”. Junto do nome das músicas,
do álbum da banda de onde foram extraídas e
as datas de lançamento do disco e gravação
da fita.
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Década
de 20: Começam os
expe-rimentos com gravação
magnética na Alemanha
Década
de 30: Um magnetofone, para
gravação e reprodução,
é aperfeiçoado pela Telefunken
Década
de 40: Durante a Segunda
Guerra, as rádios alemãs usaram
o magnetofone para gravar os discursos de
Hitler e depois colocá-los no ar.
1948:
A Basf começa a fabricar fitas para
gravações musicais. A Ampex
fabrica gravadores profissionais. Bing Crosby,
legendário cantor americano, descontente
com a qualidade das gravações
em acetato, decide usar o sistema Ampex-3M.
1949:
De uma hora para outra, as fitas magnéticas
de alta fidelidade tornam-se o padrão
da indústria fonográfica.
Antes disso, longas sessões de estúdio
eram improváveis: os discos, de cera
ou acetato, gravavam no máximo quatro
minutos de cada lado.
1958:
Nos Estados Unidos, os gravadores caseiros
de rolo já são utilizados.
1963:
A Phillips holandesa coloca no mercado as
primeiras fitas cassete compactas, tais
como as conhecemos, e seus aparelhos gravadores.
A patente foi colocada à disposição
de quem interessasse, o que difundiu sua
utilização no mundo todo.
Surge o toca-fitas automotivo.
1969:
São lançadas as fitas virgens
com sistema dolby de redução
de ruído
1979: A Sony lança
o walkman, que trouxe a portabilidade à
musica.
1984:
A mesma Sony apresenta o mini-disc (MD),
criado para ser o substituto da fita cassete.
Ele grava 160 minutos de áudio, em
sistema digital, e mede cerca de 7 centímetros.
Oito anos depois, o invento ainda não
decolou na maior parte do mundo. O preço
continua alto e a oferta é baixa.
2000:
Eu gravo minha última fita cassete
– um trabalho de faculdade, para a
cadeira de Produção Publicitária
em Áudio.
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Todo mundo que curtiu um álbum de vinil disse alguma
vez: “CD não tem vida! Vinil é que é
legal! Encarte grandão, os detalhes do selo, o chiado
– o chiado faz parte, meu Deus! Deixa o chiado!”
Mas da fita cassete ninguém fala. Ninguém lembra
dela! Gravar um long play em cassete era perfeito, porque
ruído de fundo tinha em qualquer mídia mesmo.
Mas passar CD para cassete já não tinha a mesma
graça, a diferença de qualidade é gritante
demais. Ficar procurando aquela música no meio da fita
também ficou chato depois que inventaram a tecla “skip”.
E com o preço dos gravadores de CD caindo, nem tem
motivo. Aliás, cada vez menos se compra CD, não
é verdade? A 30 reais cada, e com a internet aí...
Mas quantas boas histórias renderam as K7... Alguém
aí chegou a conhecer as T-120, com uma hora de cada
lado? Não durava um mês, eram muito pesadas para
o motor dos toca-fitas, e em dois toques arrebentavam. (Olha
só! As fitas arrebentavam, enrolavam no aparelho! Hoje
o CD arranha, mas a gente mal enxerga a olho nu. Naquele tempo,
as coisas estragavam mesmo.) A manutenção do
tape deck exigia limpeza com um algodão embebido em
álcool anidro uma vez a cada quinze dias. Também
tinha a paranóia da velocidade de rotação:
a gente ouvia a música no toca-discos, gravava em fita,
e quando ia escutar, socorro: a música estava dois
milésimos de segundo mais rápida, ou mais lenta!
Neurose total! Ia com chave de fenda e faca de ponta fina
catar o parafusinho que regulava a velocidade do motor...
Sem falar no objeto de desejo maior: os mini-systems com duplo
deck. Gravar de fita pra fita! Em high speed recording!
Sem falar na importância social da fita cassete. Sem
ela, nove entre dez bandas surgidas entre 1960 e 1990 teriam
morrido em suas garagens. A CIA, os serviços de espionagem
e os governos não poderiam registrar conversas telefônicas
para usar contra nós mais tarde (e receber aquele filtro
“voz de pato” no jornal de TV). A questão
da pirataria na música iria esperar até o Napster
para preocupar os executivos das gravadoras. Os jornalistas
ainda estariam presos aos cursos de transcrição
dinâmica e estenografia, e os bloquinhos de papel ainda
seriam indispensáveis. Sem o cassete, você não
poderia ter gravado aquela fita para a namoradinha da sexta
série, misturando OMD, Pet Shop Boys e Roxette.
Ainda hoje elas estão lá. A metade já
foi doada ou jogada no lixo – aquelas cuja origem eu
já tenho em CD. Algumas estão na gaveta da minha
escrivaninha: são as que eu ainda escuto de vez em
quando (como, por exemplo, cinco músicas de I Can See
Your House From Here, do John Scofield com o Pat Metheny,
ou os quatro Leibach Remixes do Morbid Angel, ou o Low, do
Gorefest). O resto ainda continua no armário da sala.
Estão ali, à espera de serem escutadas de vez
em quando, para desenferrujar. Ficam me lembrando dos CDs
que preciso comprar, das músicas que preciso baixar
da internet. E não me deixam esquecer de um passado
bem pertinho, onde cada disco ou cada música da rádio
gravados em fita eram um tijolo assentado na história
da minha vida.
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