Confesso que demorei para escrever esse texto
e ia demorar mais ainda. Mas um fato triste e deprimente me
aconteceu nessa madrugada: preciso terminar um trabalho e
tem uma festinha rolando na vizinhança. Isso me desconcentra
totalmente, principalmente porque toca coisas que eu gosto
- tem aquela música legal do Magal. Tem Gretchen. Tem
Jane e Herondy. E confesso que estou com uma certa raiva -
até pouco tempo atrás, pouca gente admitia que
curtia esse tipo de som (que, convenhamos, é do cacete).
Hoje não existe festa descolada sem aquela seqüência
de música brega.
Há
controvérsias sobre as origens do termo. Caetano Veloso
cita, em seu livro "Verdade Tropical" (pausa - tem
uma trintona histérica berrando ao som de "Conga
Conga Conga", qual é o problema? Há exatos
5 anos, antecipei esse hype e ninguém falou nada, hah
hah hah), que "brega" era uma gíria baiana
pra designar puteiro. Em outro lugar, já ouvi dizerem
que "brega" era gíria de empregada doméstica,
e posteriormente foi usada para designar "coisas que
elas gostavam". Que seja: música brega, hoje,
é coisa de elite. Sua prima patricinha perde a linha
dançando Amado Batista na festinha da faculdade, enquanto
a dona que faz faxina na casa dela se delicia com "Epitáfio",
dos Titãs. Sinal dos tempos, broto.
Ruim?
De jeito nenhum. Os cantores ditos bregas costumam ter um
vozeirão que não se ouve mais por aí.
De deixar Stephen Malkmus se roendo de inveja. Aquela linha
de baixo que faz você reconhecer uma canção
brega é 'catchy' mesmo, confesse, sua banda está
louca para fazer um refrão que grude na cabeça
dos outros de tal forma que no próximo show, todo mundo
vai cantar junto. Mal produzido? Se liga, mal produzidas são
as bandas indies que seguem uma proposta mais "lo-fi".
Mister Sam é um dos melhores produtores já nascidos
em terras latinas (eu ia dizer "brasileiras" mas
lembrei que, como o vocalista do Brazilian Genghis Khan, ele
é argentino), capaz de transformar uma mulher cujo
único talento é rebolar a poupança num
sucesso de vendas de discos (onde não aparecia rebolando),
capaz de transformar um cantorzinho de bossa nova numa máquina
quente de sangue latino tirando onda de cigano, audacioso
o suficiente pra ser "o homem por trás dos 3 Patinhos".
É, tem que ter audácia pra chegar a esse ponto
sem perder a classe. Analisando por esse ângulo, entendo
perfeitamente a transformação da cafonice em
objeto de culto, e ai de quem chamar música brega de
"trash": as músicas são boas mesmo!
Entendam:
naquela época, final dos anos 70 e começo dos
80, tirando a estrutura "três frases repetidas
em inglês, francês e espanhol" da Gretchen,
as letras eram muito melhores que as que tocam por aí
hoje - e por "melhores", que fique entendido que
tinham um mínimo de estrutura narrativa e vocabulário
razoavelmente variado, além de realmente tocarem o
coração do ouvinte. Eu não quero que
me parem e digam que eu sou purpurinada, sou muito mais ser
a ciganinha dona do seu coração - é uma
figura de linguagem um tanto criativa, digamos. Existe homenagem
mais bonita e emocionante do que "Revelação
de Um Sonho", de Carlos
Alexandre, um tributo ao falecido Evaldo Braga? A inacreditável
"Cadeira de Rodas" dá de mil a zero em qualquer
"música para minorias femininas" do Rei Roberto
em matéria de fetiche! E as canções em
homenagem às tantas domésticas, secretárias
("Anúncio de Jornal" é fantástica),
ciganas e até às garotas que, ingenuamente,
caíram na vida ("Funcionária da Calçada"
e "Secretária da Beira do Cais" são
exemplos perfeitos dessa ingenuidade feminina que faz com
que a gente se foda)! O mesmo motivo que fez com que uma música
de amor de estrutura simples como "Anna Julia" caísse
no gosto popular em época de popozudas e preparadas
faz com que todas essas músicas tão fáceis-portanto-assimiláveis
e de temáticas universais (amor e suas variações
pé na bunda e obstáculos físicos, sociais
ou de tempo) voltem com força total em época
de guerras e falta de respeito - ah, se todos os homens cantassem
suas mulheres como um Jerry
Adriani, que dizia "seus olhos são estrelas
que cintilam com fulgor"! Isso sim é classe!
Não
é uma questão de modinha retrô, mas é
que o nível hoje está tão baixo - seja
em termos de harmonia, falta de linhas melódicas ou
letras pouquíssimo criativas - que qualquer pessoa
com um mínimo de conhecimento musical se volta para
essas músicas "bregas" e descobre pérolas
do cancioneiro popular brasileiro - esqueça os clichês
tipo "Fuscão
Preto" e procure a explanação de Reginaldo
Rossi (Tô Doidão), as letras freaks de Jhosep
("Coisa de Índio"), a guitarra metal antes
do metal virar metal da introdução de "Bilu
Tetéia", do mestre Mauro Celso (devidamente cantado
por Sérgio
Mallandro, mas esse Mallandro é outra história,
é trash no sentido "lixo" da palavra) ou
a sinceridade de Zé Cláudio (qualquer uma, qualquer
uma!). Talvez seja por isso que o brega está aí,
com força total - e nem dá pra dizer que "a
moda voltou" porque nunca foi moda, sempre foi tipo de
música para se ouvir no radinho de pilha do quarto
da empregada, sempre vendeu horrores mas nunca dominou a grande
mídia, que sempre renegou o gênero - muito provavelmente
porque nasceu logo depois da bossa nova, que até hoje
é a queridinha da crítica especializada, coisa
de burguesinhos intelectuais da zona sul carioca (nada contra,
essa que vos escreve adora Nara, ama João, mas é
isso aí mesmo) que inventaram uma batida realmente
gostosa, brasileira pra caramba e mesmo assim comparável
ao jazz, e botaram a música do povão no chinelo.
Havaianas. Daquelas amarelas com palmilha branca.
Olha só, não sei se você sabe, mas Havaianas
é a maior moda em Paris nesse verão. E, pra
não dizer que eles eram alienados, acabou de sair um
livro afirmando que os compositores ditos bregas foram os
mais censurados na época da ditadura - quem mais além
de Odair, com aquela pinta de vocalista dos Strokes, poderia
lançar um papo tão subversivo, mandando sua
garota parar de tomar a pílula?
É por isso que eu ajoelho no milho e digo Aleluia,
Gretchen. Chegou a hora e a vez do pessoal que ia à
Discoteca do Chacrinha ter seu reconhecimento merecido. Está
na hora de descobrirem Zé Cláudio, Fernando
Lélis, o som 'brega de boutique' de Emílio e
Mauro.
E você, vai ficar aí dizendo que Gilliard é
ruim baseado numa única música de sucesso? Dê
ouvidos ao dj da sua festa de formatura. Pelo menos você
não pode dizer que não se divertiu - nem que
seja rindo daquele seu primo dançando feito o Magal.
Mas agora que brega é cult, ele pode. Sinal dos tempos,
broto.
Lia Amâncio é editora
do Zine Conga
Conga Conga.
29-10-2003 8:43
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