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Joca Vidal
O drum’n’bass rolava solto na pista da Bunker,
em Copacabana, zona sul do Rio. As luzes piscavam quase na
mesma velocidade dos corpos que balançavam ao som da
batida quebrada do ritmo inventado pelos ingleses. Eis que
surge na cabine uma figura com uma bandana na cabeça.
Rapidamente, várias pessoas correm para ver o que ele
iria fazer com as pick-ups. O dj’ reverencia, dá
as mãos como se pedisse benção. Não
demorou para o público reconhecer as mãos do
Dj’ Patife. Bastou tocar “Só Tinha De Ser
Com Você”, parceria com Cosmonautics e Fernanda
Porto (já entrevistada aqui no Mood), para a boate
carioca pegar fogo. E não foi só isso. Teve
versões de "Balança Pema", "Que
Beleza" (da fase Racional de Tim Maia), convivendo harmoniosamente
com o mais pesado drum de Roni Size. Os poucos sortudos que
se esbaldavam presenciaram uma celebração de
um som eletrônico sem igual, o que explica o fascínio
dos gringos pela ginga brazuca. Fascínio e uma ponta
de inveja. “Olha, eu vou te dizer, uma meia dúzia
aí coçam o cotovelo... Eles ficam ‘esses
brasileiros aí, meu...’ Às vezes você
chega para algum produtor para pedir música e ouço
‘não vou dar música pra você, não’.
É meio um boicote’, confessa o ex-entregador
de pizzas da Zona Sul de São Paulo. Ele, que já
tocou para cinqüenta mil pessoas na Parada da Paz, em
São Paulo, diz que ainda não realizou um sonho:
se apresentar na Austrália. Ainda. “Estou indo
em março do ano que vem. De 22 de fevereiro a 10 de
abril vou fazer Cingapura, Nova Zelândia, Japão...
e Austrália”. Será que ainda vai sobrar
algum lugar no mundo para ele ? Confira no TALK MINUTE o bate-papo
com uma das duas maiores autoridades brasileiras em drum’n’bass
do mundo. A outra, Dj’ Marky, também estava lá.
A princípio ele disse que não iria tocar, mas
acabou enfeitiçando todos que ali estavam. Uma dupla
afinada: Patife o conheceu quando Marky era balconista de
uma loja de discos. Enfim, quem não foi, perdeu.
TALK MINUTE – Dj’ Patife
T.M.: Tem alguma diferença no teu set list
quando você toca em Montreux ou em Londres para aqui,
na Bunker ?
Dj’ Patife: A boa diferença é que eu
hoje posso fazer um set de produção nacional,
das coisas nossas e da galera que vem produzindo aqui no Brasil.
Lá fora, se você toca mais a nossa produção,
fica faltando algo. Tem coisa que funciona aqui e não
funciona lá. Mas na maioria das vezes meu set é
o mesmo. Não é mesma seqüência de
músicas, mas é o mesmo clima melódico,
jazzão, que é minha marca.
T.M.:
Mas lá fora essa mistura de música brasileira
com drum’n’bass não é mais valorizada
?
Dj’ Patife: Claro, tudo aconteceu lá, depois
que a galera abriu o olho aqui pelo fato de ter acontecido
lá.
T.M.: Como você se sente hoje, depois de ter
saído da Zona Sul de São Paulo e hoje ser reconhecido
não só pelos críticos mas também
pelo público como um dos melhores dj’s de drum’n’bass
do mundo ?
Dj’ Patife: Eu me sinto muito feliz, muito grato. Nunca
imaginava que isso podia acontecer comigo. Quando comecei
com essa história de dj’, eu só queria
tocar o que eu achava demais, fazer uma festinha e colocar
as pessoas para dançar. Até hoje, onde eu cheguei
foi fazendo o que eu gosto, eu nunca precisei me vender, pagar
para uma música minha tocar no rádio, pagar
para fazer festa... Já fiz festa para poder tocar,
na vila, com a minha galera. Tive a ajuda de muita gente,
mas pesquisei e fiz muita força, às vezes vendendo
o almoço para comprar a janta para comprar disco e
etc. Agradeço a todo mundo que valoriza o nosso trabalho,
que fala do nosso trabalho, seja bem ou mal... Apesar de que
mal é bem difícil ouvir, de vez em quando você
ouve.
T.M.: Você tocou em três viradas de ano
na Europa. Você conseguiu notar diferenças entre
o reveillon daqui do Brasil com o de lá ?
Dj’ Patife: A virada do dia 31 para o dia 1º é
muito importante para os ingleses, onde eu fiz os últimos
três reveillons. É uma noite onde tudo é
caro. Muitas pessoas guardam dinheiro para gastar nesse dia.
Aqui no Brasil muita gente trata como dia normal, outros como
uma data especial, mas não como é para eles.
Os caras vão para três, quatro lugares na mesma
noite, tentam curtir o máximo possível.
T.M.:
Antes de fazer essa entrevista, dei uma pesquisada numa página
de buscas na internet e seu nome apareceu 3180 vezes. Como
é ter o seu nome hoje escrito na música brasileira
ao lado de ícones como Marcos Valle e Elis Regina no
exterior?
Dj’ Patife: Eu vou ser sincero, eu ainda não
tenho noção do que o Patife representa no Brasil
e mundo afora. Eu só sei que muita coisa está
acontecendo, remixando vários artistas, tocando de
segunda a segunda... Hoje eu estou até meio mal, passei
o dia no hospital tomando soro. Febre alta, uma tremedeira...
Foi descuido, viajando muito, eu não paro, dormindo
duas, três horas por dia, isso não é normal...
(N.doR.: Patife tinha um curativo no braço esquerdo,
resultado do soro)
T.M.: E quais são os projetos em mente ?
Dj’ Patife: Bem, álbum ano que vem com parcerias.
Estou planejando muita coisa com a (gravadora) Trama para
este ano ainda, remixando com Mad Zoo para a Marisa Monte
no novo disco dela. E vou fazer uma tour, de 30 de setembro
a 7 de novembro, em doze cidades dos Estados Unidos e em cinco
países na Europa. Vamos ver o que vai rolar...
29-10-2003 8:42
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