| Imagine a
cena. Ronerval, fã de carteirinha de David Lynch, espera
pacientemente o dia em que Mulholland Drive vai chegar às
telonas brasileiras. Na internet descobriu o casting, já
leu sinopse, resenha e até descobriu os erros de continuidade.
Aí ele lê no jornal que está chegando
“Cidade dos Sonhos”, o novo de David Lynch. Os
paramédicos tem dificuldade para controlar seu ataque
de fúria.
Outra cena: Rodifredo e Rosélvia estão no hall
dos cinemas de um shopping da sua capital, à procura
de um bom filme. Entre eles, um chama a atenção
– por causa do nome horrível: “O Império
do Besteirol Contra-Ataca”. Acabam desistindo de assistir
a qualquer filme, e comentam, entre um pastel e um gole de
cerveja na praça de alimentação, sobre
a derrocada do cinema americano, a pasteurização
da cultura e a falta de imaginação da indústria
hollywoodiana. (Enquanto isso, em Nova Jérsei, Kevin
Smith tem pesadelos durante o sono.)
As cenas descritas acima são fictícias. Ou será
que não? A adaptação dos títulos
dos filmes estrangeiros para o português são,
freqüentemente, alvo de polêmica. A ira dos cinéfilos
é dirigida contra as distribuidoras – “Não
dava pra colocar um nome menos ridículo? O que eles
pensam que a gente é, idiota?” E é por
isso que a MOOD foi procurar algumas empresas para entender
melhor este processo.
Será que não é fazer tempestade num
balde de pipoca? (“Pipoca não! Pipoca nããão!”,
devem estar gritando os puristas.) Não há unanimidade,
entre as distribuidoras, quanto à importância
do título. Maneco Siqueira, assessor de imprensa da
Europa Filmes, diz que “É um bom caminho para
se conquistar os espectadores. Quanto mais fácil de
guardar, mais sonoro, mais atrativo, melhor será assimilado”.
Mas ressalta: “Se não existir um bom filme, com
elenco famoso e competente, e um roteiro que prenda o espectador
na poltrona, nenhum título funciona bem por muito tempo”.
Já Telma Gadioli, gerente de marketing da Columbia
Cinema, acredita que só há influência
do título quando é uma tradução
literal do original – como Homem Aranha ou Homens de
Preto – e já tenha desempenhado boa performance
e exposição de mídia no exterior.
Entre os argumentos dos mais aficcionados está a caracterização
do filme como obra de arte. Seria justo que, numa exposição,
se chamasse as Demoiselles D’Avignon, uma das maiores
obras de Picasso, de “Garotas Muito Loucas” ou
“Três Gatinhas e uma Cidade”? Impensável,
não é? E com o cinema, por quê o mesmo
não ocorre? Se Alfred Hitchock resolveu chamar seu
filme de Vertigo, quem somos nós para dizer que o nome
passa a ser Um Corpo que Cai? A resposta é simples:
o mercado. A massificação da cultura e o lucro
que provém dela fazem com que questões como
essa fiquem em segundo plano. Os distribuidores não
negam a característica artística do cinema,
mas tampouco vêem na adaptação um crime.
“Exatamente por isso tentamos ficar sempre com a tradução
literal”, justifica a assessoria de imprensa da United
International Pictures. Telma Gadioli, da Columbia, segue
a linha de pensamento: “Vemos a adaptação
mais como uma forma de aproximar o produto ao público
à que se destina, e que tem como língua-mãe
o Português”. Maneco Siqueira fecha a questão:
“Concordamos que um filme é uma obra de arte,
mas cada país tem sua cultura e seu modo de ver as
coisas. Um exemplo que sempre cito é Um Tira da Pesada,
que, no original, era Beverly Hills Cop (Tira de Beverly Hills).
Ficou ou não ficou melhor o título brasileiro?”
Opiniões à parte, Siqueira, quase sem querer,
toca num ponto sensível da questão: o excesso
de uso de expressões como ...do Barulho, do Espanto,
da Pesada, Muito Louco: por que a predileção
por estas expressões na hora de titular filmes –
notadamente os que não entram em circuito nacional,
indo direto para as prateleiras? Ele mesmo responde: “Você
esqueceu de citar ‘Maluca’... Quando se dá
títulos mensalmente para oito, nove, dez filmes, alguns
devem beirar o óbvio – quando notamos que vai
funcionar junto ao grande público”, explica Maneco.
“É mais no sentido de “localizar”
o máximo possível o título original com
expressões corriqueiras utilizadas por brasileiros”,
completa Telma Gadioli. O argumento é válido,
mas a falta de criatividade é maior. (Ainda que Loucademia
de Polícia tenha sido um achado. Alguém aí
sabe o nome original? Quase igual, Police Academy.)
Outra grande pergunta é: afinal, quem define o título
do filme em português? A resposta é mais simples
do que se imagina: um brainstorm envolvendo todo o staff de
marketing das distribuidoras – e até outros departamentos,como
ocorre na United Internacional Pictures, onde a gerência
de vendas e a diretoria geral também participam. As
alternativas escolhidas são enviadas para o estúdio
produtor para aprovação. Na maioria dos estúdios,
não existem regras ou manual definido para estas adaptações,
(exceção: as policies (diretrizes) impostas
para filmes da Disney e da Fox Filmes). A interferência
do diretor/produtor do filme na adaptação de
um título é rara. Siqueira lembra de David Lynch:
“Mesmo ele, que é conhecido pelo controle total
sobre seus filmes, nem opinou sobre o título brasileiro
de Mulholland Drive”. Mas ele também cita uma
exceção: Minority Report, que Spielberg exigiu
que se mantivesse o nome original, em inglês.
A cultura local tem forte influência nesse processo.
“Existem uma série de expressões na língua
norte-americana que não encontram equivalente no português”,
explica Telma Gadioli. Maneco Siqueira dá um exemplo:
“Lançamos no Brasil Teenagers – As Apimentadas.
Originalmente, o filme chama-se Bring it On, uma expressão
idiomática norte-americana que os brasileiros não
conhecem”. Ainda sobre a cultura, ele explica: “É
claro que as pessoas são românticas igualmente
nos EUA, Europa e no Brasil. Mas cada um tem seu jeitinho
de dizer as coisas”.
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| MULHOLLAND
DRIVE à CIDADE DOS SONHOS (tradução
literal: Avenida Mulholland) – Europa Filmes
“Foi moleza. O diretor (David Lynch) abriu
uma entrevista dizendo que, para ele, “Mulholland
Drive” é algo como uma cidade dos
sonhos. Foi instantâneo, e todos gostaram
porque lincou com cinema, sonhos, cidade, Hollywood.”
ABOUT
A BOY à UM GRANDE GAROTO (tradução
literal: Sobre um Garoto) – United
“Um Grande Garoto” é o título
do livro de Nick Hornby em português, e
que foi lançado antes do filme”.
WE
WERE SOLDIERS à FOMOS HERÓIS
(tradução literal: Fomos Soldados)
– Europa
“Soldado fica restrito ao público
masculino, e herói é muito mais
abrangente, charmoso e dentro do espírito
do filme. Depois de assistir ao filme, você
descobre que eles foram mesmo é heróis”.
VANILLA
SKY à não sofreu alteração,
nem recebeu subtítulo – United
“O nome não tinha como ser traduzido,
e por não ser de difícil pronúncia,
decidimos não acrescentar subtítulo.
Além disto, por ser um filme com Tom Cruise,
a publicidade pré-lançamento foi
tão grande que valia a pena manter o título
original”. |
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E como fica a “chiadeira” dos cinéfilos?
“Nunca poderemos agradar a todos. Somos uma empresa
comercial e o filme é um produto. Quando não
podemos traduzir (literalmente), tentamos o melhor título
possível, visando o público-alvo do filme em
questão”, justifica a United. “A polêmica
faz parte da democracia, e temos que respeitar isso”,
ressalta Maneco Siqueira.
Mas, acredite, tem quem ache que a habilidade dos brasileiros
para titular filmes também é uma arte. José
Teles, escritor, jornalista e crítico do Jornal do
Commercio (de Recife), é um entusiasta da adaptação.
Em um artigo que rendeu muitas críticas (leia aqui),
ele diz, entre outras pérolas: “Sempre achei
que brasileiro tem mais jeito pra botar título em filme
do que pra fazer cinema. (...) Nada de traduzir ipsis literis,
mete-se um título que chame a atenção
do cinéfilo”. No texto, ele diz que “Sem
Destino” é muito melhor título do que
Easy Rider (“Uma Viagem Tranqüila”, clássico
de Dennis Hopper) e que ninguém em sã consciência
entraria num cinema para assistir a “O Recém-Formado”,
mas que alguém “genial” resolveu adaptar
The Graduate como A Primeira Noite de Um Homem (outro clássico,
este com Dustin Hoffmann). E mais adiante, reclama: “Constato
que estamos perdendo também esse dom. (...) Corra,
Lola, Corra? Sem a menor criatividade. Eu rebatizaria o filme
de Pernas Pra Que Vos Quero, ou então, lembrando Easy
Rider, Correndo Contra o Destino, ou ainda, aproveitando um
termo em voga, Lola, A Preparada”. É claro que
o cronista exagerou um pouco na ironia, e explica melhor na
entrevista por e-mail concedida à MOOD. “Acho
que a tradução depende de vários fatores.
Antes de tudo ela tem que ter um atrativo para o consumidor.
Claro que se exagera no sensacionalismo e aposta-se na estupidez
de quem vai ao cinema. Acho que quando não dá
pra traduzir literalmente, deve-se bolar um título
que chegue perto do original. Sei que é difícil,
mas é pra isso mesmo que o pessoal é pago”.
Teles faz apenas uma ressalva: “O que não se
deve fazer é como os portugueses, que não raro
traduzem ao pé da letra. The Godfather lá é
O Padrinho”.
Se os argumentos foram suficientes para entender melhor essa
barafunda que é a questão da adaptação
dos títulos, ainda não apagam totalmente a decepção
dos fãs – os maus exemplos ainda são maiores
do que os bons. A polêmica, ao que parece, não
terá um fim tão cedo. Resta a nós, platéia,
simplificar as coisas: simplesmente assistir aos filmes!
29-10-2003 8:42
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