Ligar a televisão hoje em dia é como abrir uma janela: tudo o que você vê na tela está mais perto do que você imagina. A programação apresentada hoje está fortemente sustentada em pessoas comuns, como eu e você.

Um dia o fulaninho está sentado no boteco da esquina com amigos, batucando o seu tan-tã. No seguinte está se apresentando para centenas, milhares de pessoas, num palco enorme onde ao fundo se enxerga um telão com o nome da mais nova sensação do pagode brasileiro. Pulula do Domingo Legal para o Domingão do Faustão, passando pelo Raul Gil, para ganhar discos de ouro, ou passar um dia passeando e gastando dinheiro alheio com uma fã. Ainda acumula intimações judiciais de comprovação de paternidade de mulheres ensandecidas, loucas para meter a mão numa parte da bolada que está acumulando com sua fama repentina.

Piada? Quem dera fosse, mas atualmente a fama está tão banalizada que a história pode estar acontecendo agora mesmo não com um, mas com vários pequenos grupos que sonham com reconhecimento, dinheiro fácil e dezenas de fãs se atirando aos pés implorando um autógrafo ou um pedaço do guardanapo sujo utilizado na última refeição. Ser famoso parece mais fácil do que nunca, sendo necessário apenas o esforço de colocar seu nome e seu trabalho em qualquer rádio ou televisão e colher os louros da glória.

Sabemos que não é assim tão simples. Mas de repente o nosso amigo que trajava roupas de gosto bastante duvidoso e invadiu a Radio Atlântida há algumas semanas atrás pensou que poderia ser. Para quem ainda não sabe o rapaz, de posse do CD da sua banda e de um revolver, “solicitou” ao locutor que colocasse seu som no ar. O resultado disto, fora os traumas no pessoal da estação, o aumento do pânico e todo o transtorno causado pelo deslocamento dos policias até o local, ainda não sabemos. Talvez algumas noites na cadeia. Mas talvez este fato nos ajude a pensar no atual fenômeno do show biz nacional e mundial.

Nunca a televisão esteve tão povoada de tipos que você encontra no centro da cidade, nas filas dos bancos, numa sinaleira ao lado do seu carro. São pessoas que em sua maioria surgiram de bairros pobres das grandes metrópoles, têm pouco estudo e tiveram a sorte de em algum momento da vida, serem vistas por alguém capaz de ganhar dinheiro com elas. Estão aí para provar isso as grandes vendagens de música sertaneja e pagode, e os grandes salários do futebol brasileiro. Não quero ser radical. Sei que algumas delas tem talentos que podem ser aproveitados. Mas acho que atingimos um ponto em que não existe mais critério mínimo para aparecer na televisão.

Agora responda: o que você pensa ao constatar que alguém que não tem metade do seu conhecimento cultural, possui um padrão de vida muito superior ao seu, muitas vezes com menos esforço e sem suportar dezenas de pessoas do escritório loucas para puxar o tapete e passar por cima de quem estiver no caminho? Eu confesso que fico indignado ao ver a Carla Perez com toda sua ignorância jogando dinheiro pra cima enquanto eu ralo muito, como você, para poder pagar meu carro. Mas onde ela anda hoje? O que faz para viver? Poucos sabem, poucos se interessam em saber.

Os astros e estrelas mais badalados do momento, daqui a dois minutos não são mais ninguém. Kleber “Bam-bam”? Não lembro dele não. Alguém sabe quem foi o vencedor do No Limite 2? Respostas que há pouco tempo estavam na boca das pessoas, hoje são absolutamente ignoradas.

O mais importante atualmente não é ter uma boa profissão, ser um bom pai de família. Estes são valores do passado. O star system nacional permite que as pessoas tenham seus 15 minutos de fama da maneira mais altiva possível, com direito a passeios na ilha da Caras e até exames de DNA, para ser esquecido no momento seguinte. Mas não importa, o importante é estar aparecendo. Mesmo que para isso seja necessário colocar um revolver na cabeça de alguém.

28-10-2003 23:55