O indie, nos anos 90, deu nascimento a inúmeros microcosmos musicais nos Estados Unidos. O AllMusicGuide (www.allmusic.com) fornece uma pequena lista:

: Synth-pop : Urban-Folk : Ska-Revival : Lo-Fi : Shoegazing : Paisley Underground : Jangle-Pop : Alternative Country-Rock : Punk Revival : Post-Grunge : Third Wave Ska-Revival : Neo-Psychedelia : Riot Grrrl : Space Rock : Adult Alternative Pop/Rock : Alternative Dance : Cocktail : Dream-Pop : Rockabilly Revival : Alternative CCM : Madchester : Neo-Prog : Cowpunk : New Zealand Rock : Retro Swing : C-86 : Queercore : Japanese Rock : Sadcore : Jam Bands : American Underground :

A frase do lead é a melhor definição para o subterrâneo estilo musical, derivado do indie e do alternativo norte-americanos. (Infelizmente não é minha; a ética ordena dar os devidos créditos a Mark Padgett, repórter do jornal Orlando Weekly, que forjou a frase acima numa matéria sobre o assunto.)

Talvez você nunca tenha ouvido falar em math rock. (Não se preocupe, o problema não é você – talvez nenhum leitor tenha.) Nascido nos EUA do início dos anos 90, despontando principalmente nas cidades de Chicago e Washington DC, o gênero teve seu ápice produtivo em meados dessa década, quando grupos como Polvo e Chavez chegaram a atingir grande sucesso – na escala das bandas fiéis à

cena independente, é claro. Filhote da fragmentação do que se convencionou chamar de rock alternativo/independente ou simplesmente indie, é um derivado do pós-rock e do pós-punk somado a características do rock progressivo dos anos 70. Dessa forma, comumente são citados

Nível I - Básico
O The Vermicious Knid é uma boa maneira de começar. Quatro jovens canadenses que fazem um rock com pitadas de math e emo com bastante energia e sentimento – tente “No Life Crisis”. Para entrar no clima mais cerebral do math, as garotas do V for Vendetta desfiam duos de guitarras com vocais chorosos e sussurrados, fazendo um math rock de qualidade e simplicidade. E se você gosta de Pixies e Sonic Youth, provavelmente vai gostar de Cursive . A faixa “Pulse” traz alguns dos elementos do math com muito cheiro de indie rock.


Nível II - Intermediário
O June of 44 é a base de inúmeras bandas de math e também uma das grandes referências no mundo indie. Nos anos em que existiu – a banda acabou em 2000 –, o June foi chamado de “superbanda”, por reunir tantos músicos influentes e que redefiniram o indie rock nos anos 90. Na página dedicada à banda no Epitonic, há seis faixas para download – comece pelas dissonâncias da guitarra de “June Miller”, continue com as atonalidades de “Escape of the Levitational Trapeze Artist” e encerre com o jazz-rock de “Anisette”. No site da gravadora , também se encontram alguns outros mp3.
Se você prestou atenção, notou que os vocais recebem menos atenção do que os instrumentos neste estilo de música. Uma das características dos artistas de math rock é a adoração por faixas instrumentais. Mas nem sempre elas são longas ou complicadas demais – como é o caso das músicas do The Letter E , quarteto do Brooklyn da qual faz parte Sean Meadows, ex-guitarrista do June of 44. “Goodbye” é uma música que prepara os ouvidos para desafios maiores. Preparado? Se o The Letter E é mais simples e com acento pop, o The Mercury Program eleva à arte o talento de compor música. Inspiração em linhas de baixo melodiosas e enérgicas aliam-se a um toque de onirismo – garantido pela inclusão de um vibrafone na formação fixa da banda. O clima de intimismo da faixa “The Secret to Quiet” parece negar as origens do quarteto – que vem da tropical Flórida.


Math Rock Avançado
Aqui reside uma das poucas bandas que orgulha-se do seu rótulo. E também é uma das primeiras a ser chamada assim – lançou seu primeiro álbum em 1992. Seus músicos são venerados e quase sempre citadas como influência. O Don Caballero leva o math rock para o seu lado mais math, ou seja, verte para o lado mais jazz do estilo. Até mesmo porque o grupo não tem vocalista – todas as composições são instrumentais, recheadas de melodias intrincadas, arpeggios em profusão, linhas de baixo proeminentes e um rapaz chamado Damon Che na bateria. Incensado por 9 entre 10 bateristas da cena indie, Che tem técnica e pegada cada vez mais raros nesta geração de loops e programações eletrônicas – ele consegue fazer uma melodia transformar-se num solo e não chatear o ouvinte! Aliás, essa é uma particularidade das músicas do Don Cab: as faixas ultrapassam facilmente os 7 minutos de duração, mas as mudanças de andamento e tempo evitam o sono e os solos que só servem para satisfazer o ego do músico. Comece por “June is Finally Here”, uma homenagem aos amigos do June of 44.
Outra banda que segue o instrumental apurado é o The Mahogany Throttle, cuja longa carreira os transformou numa espécie de altar do estilo. Aproveite que eles são generosos e disponibilizaram dezenas de mp3 no seu site – escute primeiro “Spur of the Movement”.
Seguindo uma linha mais noise, estão os alemães do Soon Li . Levando atonalidades e ruídos ao extremo – tendo até um trombone sua formação fixa, o Soon Li é uma das poucas bandas a fazer math rock fora da América do Norte – a outra vem da Escócia, chama-se Eska e traz o math para bem próximo do rock ‘n’ roll visceral.

Quer mais?
O site Epitonic é uma boa fonte de mp3 e informações sobre as bandas, separadas pelo estilo. Outros bons diretórios ficam no site da loja online CD Baby. Achar CDs de math no Brasil é tarefa hercúlea – para não dizer impossível. Mas nos sites das bandas há informações de como adquirir os álbuns.

como influências o King Crimson e o Rush – e, na outra ponta, bandas como, Fugazi e especialmente o Slint – uma espécie de pai do math rock, que, nas músicas, abusa das variações de tempo, da alternância de vocais sussurrados com gritados, sempre tocando baixinho para em seguida explodir os alto-falantes.

Tão breve como nasceu, o rótulo de “math rock band” foi rejeitado. Numa época onde um retorno às sonoridades cruas e toscas eram valorizadas – e o Nirvana era alçado à salvação do rock –, prezar linhas instrumentais complexas e até mesmo ególatras era ir na contramão do mundo demais. O math rock dificulta e intelectualiza as coisas de propósito, ao contrário da tendência, que era a sonoridade suja, tosca, de garagem. Os detratores do estilo o tacharam de música para nerds. E num momento particularmente propício para que bandas do underground conseguissem exposição na mídia e bons contratos, tocar “nerd rock” era ficar cada vez mais enterrado no mundo indie. Das muitas bandas hoje identificadas como e com o math rock, apenas meia-dúzia assumiram o estilo em sua época – entre elas Don Caballero, que em pouco tempo tornaria-se referência para quase todas as bandas de math.

Mas dizer que math é algo como o “hardcore com predisposição ao jazz” é simplificar. A melodia é sempre presente; é um estilo emocional, muitas vezes melancólico. Em abundância ocorrem sobreposição de vocais, linhas de baixo harmônicas e marcantes, guitarras angulares, bateria imponente e com pegada, alterações de andamento, “paradinhas” silenciosas (descubra em “Grand Design”, do The Union of a Man and a Woman . Tudo isso com pitadas de dissonâncias, atonalidades e microfonia. É como se um punk esquizofrênico começasse a tocar a Nona de Beethoven. Algumas bandas chegam a soar como um Slayer mais quebrado (caso do Gaffer); outras aproximam-se do virtuosismo instrumental elevado à perfeição (como o Volta do Mar e seus dois baixos, um de cinco cordas e o outro de seis). A energia é mantida também por causa do tamanho das bandas, geralmente enxutas e coesas – às vezes mesmo duos, como o Zod , que é formado apenas por baixo e bateria, e o Bozart, guitarra e bateria.

Falatório à parte, a relevância do math rock é a revitalização da técnica instrumental sem deixar cair a peteca do rock, em várias vertentes – ainda há uma boa quantidade de bandas trabalhando no estilo, desde as mais pop até as puxadas para o metal. Sem negar a origem punk, redireciona a atenção para o talento. Freqüentemente as músicas não são fáceis de ouvir; por isso lhe falta popularidade. Mas, inegavelmente, merece seu espaço na prateleira e no playlist daqueles que admiram o rock melhor trabalhado e acabado.

 

28-10-2003 23:54