Texto: Joana Coccarelli
Fotos: Joca Vidal

Foi o Encontro dos Magos do Brasil, mas podem chamar de Earthdance 2002 – a rave internacional de filosofias pacifistas que destina parte de sua renda para causas humanitárias ao redor do globo.

A união do conceito da festa com a engajada juventude que desperta para horizontes místicos formaram, ao longo do período de celebração, uma Sociedade Alternativa com o mesmo propósito da fundada por Raul Seixas e Paulo Coelho nos anos 70: criar um campo de energia positiva e, com isto, imantar nosso pobre planeta Terra para a atração da harmonia. A Earthdance, que em 2002 emplacou sua quinta edição e realizou-se simultaneamente em 108 cidades mundo afora, conheceu em Cachoeira Alta, Minas Gerais, uma das mais genuínas práticas de seus ideais de excelente trance em nome da paz.

Gente normal não botaria a menor fé no projeto; quem desdobrou quilômetros de rodovias para participar do gathering eram autênticos malucos-beleza disfarçados de homens urbanos, que revelaram suas verdadeira identidades assim que se deixaram ionizar pelos 110 metros de queda d´água da cachoeira que batizava a festa. Raver que é raver sabe que a verdadeira psicodelia está muito mais no verdejante corpo de Gaia e na alucinógena progressão trance do que na alquimia que se encontra numa seda, num papel ou numa pílula.

O terreiro eletrônico iniciou-se na noite de sexta-feira, 11 de outubro, com o inconfundível dark trance do DJ Joe (SP), o que permitiu que gente ainda contaminada pelas grandes cidades exorcizasse restos de civilização. Para esse povo, hype é ser visceralmente natural e espontâneo; o conceito de “gente bonita” é datado, quase risível. Ainda bem, porque o inédito groove redondo adotado por gênios como MACK (SP) ou Marcelo VOR (SP), foi feito para se dançar descalço, descabelando-se, olhos revirando a cada contorção sonora. A novidade deriva da emergente vertente progressive (não confundir com trance progressivo!) e foi a mais deliciosa sensação musical do festival; poucas eram as turntables que se limitavam à nervosa rasgação Goa ou à grave elasticidade das bases que marcaram a Earthdance 2001, quando era possível sentir a terra tremer a grandes distâncias. O festival deste ano primou por apresentar, em primeira mão, um sensacional painel de tendências trance que certamente embalarão os melhores eventos do gênero nos próximos muitos meses.

Na noite de sábado Swarup (GO), a autoridade máxima do psy brasileiro, orquestrou a versão mineira do ritual que acontecia, ao mesmo tempo, em todas as Earthdances do planeta. Enquanto executava seu set de vibes exponenciais, um globo flamejante saiu do meio da fogueira acesa na pista de dança e, como xamânicos ancestrais, as pessoas começaram a correr e a dançar ao redor das chamas - só para confirmar que raves são a leitura contemporânea de milenares cerimônias de contemplação divina, num autêntico movimento de volta às raízes!

Alheios a tudo isto permaneciam os adeptos do chill-out de tendas bicolores, esteiras de palha e almofadas de estampas metafísicas, onde lindas são as moças desgrenhadas que dão colo a barbudos de mil anéis e tatuagens passionais. Aquilo que os antenados do asfalto chamam de lounge é muito mais: chorinho eletrônico, acid-samba e jazzy-bossa foram brilhantemente executados pelo queridíssimo DJ Alquimix (SP), enquanto os tradicionais acústicos ambient encontraram em Smurf (SP) toda a gama de desmaiados sons da natureza. Só quem sabe a hora de parar de bombar tem o privilégio de continuar exercitando uma mente skywalker com “Light my Fire” executada em cítara!

Como se não fosse suficiente, a futurista anarquia da Earthdance 2002 ainda ofereceu sessões de meditação dinâmica, heiki, shiatsu e estudos do Calendário Maia – ciência que caiu nas graças dos ravers ao defender que natureza é a materialização da espiritualidade. O fim das atividades trance, na noite de segunda-feira, refletia-se no esvaziamento da área de camping, que perdia contingente para a Babilônia de gravatas degoladoras. Maluco mesmo é ser tão feliz assim e ter coragem de voltar para a vida careta; até o próximo grande festival, o jeito é ir fingindo que ela tem algo a acrescentar.


Texto: Joca Vidal
Fotos: Joca Vidal

 

Imagine você, três dias num lugar paradisíaco, sem ninguém pra te encher o saco, fazendo o que der na telha? Além disso, ouvindo um trance ora progressivo ora psicodélico e se refrescando numa cachoeira de 110 metros? Junta isso tudo com um pessoal tranqüilo, vivendo em harmonia, todo mundo numa mesma sintonia - em um esquema bem riponga mesmo, peace and love. Pois é, pode parar de imaginar porque esse lugar existe e essa festa aconteceu entre os dias 11 e 13 de outubro em Cachoeira Alta, localizada na Serra do Cipó, distante uma hora e meia de Belo Horizonte.

A Earth Dance 2002 contou com umas 1.500 pessoas vivendo em comunidade. Todos estavam ali aprendendo, trocando idéias sobre arte, cultura, música e paz, pelo menos era isso que esperavam os organizadores do evento. A consciência ecológica estava presente em cada participante que, na medida do possível, colaborou para que o lugar não fosse emporcalhado demais. Desde antes do início da festa a organização alertou sobre o papel que cada um teria que fazer para que a natureza não fosse prejudicada, como não tomar banho na cachoeira com sabonete, não jogar lixo no chão, levar sua própria larica e etc. É claro que um evento desse porte traz problemas de infra-estrutura (os banheiros volta e meia entravam em colapso, faltou água...), porém nenhum deles estragou a festa, que rolou sem maiores estresses.

O festival contou com os melhores DJ’s de trance do Brasil como a carismática Ekanta (Alto Paraíso), Fred (BH), George (SP), JP (BA), Laurent (SP), Luiz (Floripa), entre vários outros. Não faltaram DJ’s ‘consagrados’ como Swarup, goiano radicado em Brasília que representa o selo alemão Spirit Zone na América Latina. Swarup fez um set original, começando com cantos indígenas antes de mixar com a batida ‘tranceira’ tradicional. Os cariocas do MPA fizeram um live-act (tipo uma banda, só que de trance) com duas grooveboxes, guitarra e instrumentos percussivos. O som do grupo é altamente inovador, misturando forró, reggae, dub e outros ritmos ao trance e levou o público ao delírio em pleno meio-dia de sábado com o sol a pino. Se você acha que o som parava em alguma hora do dia está redondamente enganado: o som não parava nunca. Para alguns isso era ótimo, com a cabeça feita não dava mesmo para parar de dançar (e beber litros d’água). Para outros o som acabava se tornando infernal depois de um tempo. Um dos atrativos para essas pessoas era dar uma esticadinha no chill-out, no caminho para a cachoeira. O chill-out era um espaço perfeito para dormir, meditar, conversar e namorar. Localizado no meio de três tendas, ficava a uma distância segura do “batidão” e proporcionava momentos viajantes a todos que pediam arrego. Era lá que os malabaristas se encontravam, com suas pernas-de-pau, malabares, espadas, bolas e diabolos.

A cachoeira alta era o refúgio do pessoal na hora do aperto. Como o sol era impiedoso, durante o dia era impossível não dar uma passadinha por lá. Parecia uma praia, onde todos se encontravam. Em suas águas gélidas, as pessoas pulavam, faziam topless e relaxavam. Alguns arriscaram um corajoso rapel do alto de seus 110 metros. Quando a madrugada chegava vinha um frio de 12 graus que te obrigava a pegar um casaquinho na mala. Esse tempo doido ditou o horário de quase todos os presentes. Como durante o dia era praticamente impossível ficar dentro da barraca, o ideal era curtir a festa quando o sol bombava. Ao anoitecer, o lance era se recolher para recarregar as energias e voltar na madruga para ver o sol nascer e começar mais um dia.

No sábado, por volta das 19:30, aconteceu o ritual. Todos deram as mãos formando uma roda enorme, o círculo sagrado. Uma fogueira imensa foi acesa proporcionando um visual chapante, bem ao estilo do público presente. A fogueira queimava um globo que subia e descia freneticamente e todos ficavam paralisados vendo o espetáculo. No final, alguns rezavam, outros se abraçaram e dançavam. Tudo isso buscava a conexão global entre as pessoas ao som de “Prayer for the Peace”, uma música considerada hino. Não entendi muito o significado deste ritual, porém foi um momento marcante que fez com que, naquela hora, o sentimento de peace and love se tornasse atual, mesmo que em alguns outros lugares do mundo (e do Brasil) o bicho estivesse pegando.

Agora imagina você participar de um evento como esse, lavar a alma, e chegar em sua cidade e dar de cara com as notícias sobre política, guerras e outras desgraças que assolam o Brasil e o mundo? Não foi difícil para alguns caírem em uma certa deprê...