Se é natal para todos no mundo, porque não seria também nos desenhos animados? É verdade que eles não envelhecem e vivem num mundo à parte, mas o espírito do nascimento de Cristo perpassa a todos nós. No mundo dos cartoons, é visto de dois pontos de vista possíveis: ou com harmonia e paz, ou com sarcasmo e deboche. Geralmente o primeiro é mais adequado para crianças, e o segundo, bem mais engraçado.
Um dos pioneiros na animação natalina é Charlie Brown – que inclusive saltou das tiras para as telas exatamente com um especial de natal. Mas quem fez disto uma tradição foi Mickey’s Christmas Carol, ou, na versão brasileira, O Natal do Mickey. Na adaptação que tornou célebre o conto de Charles Dickens (Um Conto de Natal), o Tio Patinhas é Ebenezer Scrooge, um velho avarento que é visitado por três espíritos na noite de natal. Os fantasmas representam o natal passado, o presente e os futuros. Nessa terapia de choque, Scrooge aprende a ter bondade no coração. Alguém aí não viu?
O personagem Tio Patinhas, de fato, foi criado por causa de uma história de natal de Carl Barks, em 1947. Barks precisava de um tio velho e avarento, inspirado no Scrooge de Dickens – e até manteve o mesmo nome. Quase quarenta anos depois, Tio Patinhas foi utilizado no papel que inspirou sua criação. O curta (25 minutos) foi lançado em 1983, após dois anos de produção; desde então foi dublado para dezenas de idiomas e é um dos filmes mais reprisados da história da televisão. O desenho animado também marcou uma espécie de reestréia para Mickey, que na época andava pouco popular. Sua atuação (?) como Bob, o empregado explorado pelo patrão, rendeu-lhe fama e espaços temáticos na Disneylândia.
Mesmo quem não gosta de natal rende-se aos desenhos natalinos – porque podem ser uma ótima fonte para tirar sarro da data comercial, digo, comemorativa. E quem curte aproveita para embalar-se no Jingle Bells e demais canções tão repetidas nas animações. O único porém de todos eles é a meteorologia. Afinal, natal com neve é só em desenho animado mesmo...


Mini-guia rápido de desenhos animados natalinos

Garfield
Com seu mau humor e senso irônico característicos, Garfield encara uma viagem à fazenda dos pais de Jon - enstusiasmado com a festa. A mãe, feliz da vida com a reunião da família, enche a mesa da ceia com delícias – enche meeesmo, já que a mãe de Jon é uma cozinheira enlouquecida. Estranhamente, a árvore é enfeitada logo após o jantar - provavelmente um efeito da neve excessiva nas mentes dos roteiristas. Não falta nada, nem mesmo canção natalina, cantada com direito a coro infantil e tudo. O melhor da família perfeita, em que cada um dos personagens tem defeitos, mas é um ser humano maravilhoso em seu íntimo, blah blah blah. Tem até um abraço meigo de Garfield em Odie pelo presente - um coça-costas. No meio de tudo, muitas canções. Piegas até a espinha.

Charlie Brown
O Natal de Charlie Brown, de 1965, foi a primeira animação da tira de quadrinhos Peanuts – e já nesse começo nas telas o simplório garoto é marcado como fracassado. Charlie Brown está angustiado com o natal - assim como ficou na Páscoa, em Finados, com a chegada do inverno, as aranhas e os gansos e tudo mais. Ninguém manda cartões de natal pra ele. Enquanto todos estão felizes, Charlie está deprimido. Lucy tenta dar uma força para o garoto, e o escala como diretor da peça de teatro natalina do colégio – esperando, em troca, ser escalada para o papel principal. O erro de Charlie Brown acontece quando ele vai arranjar uma árvore de natal: ele esnoba os modelos multicoloridos de alumínio (?) e traz um galho torto, mas natural, que, na sua visão purista, simboliza o espírito natalino. É claro que fracassa. Mas, como é natal, os amiguinhos ficam com pena e armam uma decoração fantástica para seu galho. Uma canção alegre, e todos estão sorrindo.

Pluto
Da família Disney, especiais de natal não faltam, e em grande número. E um dos mais divertidos é A Árvore de Natal de Pluto. Mickey e seu cão cortam um pinheiro para enfeitar sua festa – e, sem querer, carregam consigo os esquilos Tico e Teco, que se divertem entre os enfeites. Pluto descobre os intrusos arruaceiros, mas é claro que Mickey não entende os latidos do pobre cão. Como já era de se esperar, Pluto destrói a árvore e os presentes – e os esquilos são desvendados. Mas nada de briga – é Natal, e todos acabam cantando uma bela canção natalina juntos, com direito a uma ponta de Donald, Pateta e Minnie. Pelo menos é engraçado pra caramba.

Os Simpsons
Os Simpsons ganharam vários especiais de natal. No primeiro deles, Marge usa todo o dinheiro guardado para os presentes removendo uma tatuagem que Bart faz no braço (um coração com a palavra “mamãe”), contando que o bônus de natal de Homer, na usina, seja gasto com os mimos. Mas naquele ano não haverá bonificação, e o pai de família se vê numa enrascada. Ao invés de contar à família, ele decide arranjar um bico – como Papai Noel numa loja de departamentos. O pagamento, infelizmente, é uma ninharia, e ele decide apostar os trinta dólares nas corridas de cachorros. Obviamente perde, mas acaba levando para casa o perdedor – o Ajudante de Papai Noel, que se tornaria o cão de estimação da família Simpson. É ovacionado pela família com a chegada do animalzinho, e tudo acaba bem.
Enquanto passam os créditos, uma bela canção de natal.

Tom & Jerry
No primeiro desenho natalino da dupla, o rato mais sacana dos quadrinhos diverte-se entre enfeites da árvore e presentes, até que o cabeçudo Tom é confundido com um deles. Aí começa a caçada de sempre, garantindo as risadas de sempre. Lá pelas tantas o gato vence – tranca Jerry fora da casa, no inverno e na nevasca inclemente. Mas é natal, e acossado pela culpa, acaba saindo para resgatar o rato – que virou picolé e é descongelado na lareira. Os dois acabam felizes, e o que é melhor, num cartoon sem canções.

Beavis and Butthead
O natal destes escrotos é uma das muitas releituras feitas sobre a história clássica de Dickens. Beavis, em sonho, é visitado pelos fantasmas do natal passado, presente e futuro. Nessa versão, Beavis é o dono da lanchonete onde trabalha, e o diretor da escola é seu chapista escravizado. Os fantasmas surgem do video pornô que ele tenta assistir e mostram que se ele continuar tratando mal seu funcionário, todos os filhos dele morrerão e o próprio Beavis acabará sendo enterrado sem nunca fazer sexo. Mas como a moral não funciona com QIs abaixo de 15, o que ele aprende é que o futuro é um barato – já que ele será chefe, terá um videocassete e filmes pornô.

Pernalonga e Taz: O Arrepio Antes do Natal
Num dos muitos desenhos natalinos com Pernalonga e sua turma, Taz acaba tomando as roupas e o trenó do Papai Noel – e vai fazer bagunça na casa do coelho, que, como sempre, controla a situação.

Johnny Bravo
Mesmo recente, já virou referência em se tratando de cartoons natalinos. O desastrado protagonista esquece de postar sua carta para o Papai Noel e decide entregá-la pessoalmente.

Space Ghost
No Space Ghost Coast to Coast, o programa de natal é uma espécie de retrospectiva dos melhores momentos do ano. Entre três pedaços de episódios, Space Ghost, Brak e o Conselho do Inferno cantam canções natalinas – exceto quando Zorak interrompe gritando “gabba gabba hey”.

Outros desenhos que também ganharam episódios natalinos: Jetsons, Flinstones, Pinky e Cérebro, Tiny Toon, os Muppets, Gasparzinho, He-Man, Mr. Magoo, Pantera Cor-de-Rosa, Smurfs, Ace Ventura, Barbie.