O Natal está aí, e com ele aquele lero-lero: paz, alegria, fraternidade, enfim, uma modorra só. Entrar no clima é praticamente obrigatório. "Oba, festejemos! Entupamos nossas varandas com luzes e apetrechos decorativos esdrúxulos, vamos correndo inflacionar o mercado de pinheiros! Olha, amor, que coisa linda a árvore da Lagoa! Dirige mais devagar pra eu ver, vai!"
Eu, que vendo a alma no mercado publicitário, já estou há muito vacinado contra a pieguice natalina. Para ser mais exato, desde julho, quando começamos a fazer uma enxurrada infernal de campanhas com bolinhas, anúncios com renas e cartões de Natal corporativos. Aliás, nada mais detestável que um cartão de Natal corporativo. Ou você realmente acha que pro seu banco faz alguma diferença você ter um bom 2003 ou ser atropelado por um ônibus em pleno reveillón? Desculpem, vovós, mas não dá pra ter boa vontade com o Natal quando você trabalha em publicidade.
E como se não bastasse, ainda tenho que aturar o papo-cabeça-enfaixada dos tribalistas me entubando a tal da Mary Cristo ("blim-blom, blim-blom, nylon"!? Como assim!?)
Felizmente, eu não sou o único sádico doentio a defender o uso da árvore de Natal como lenha de fogueira. Isso é bom, porque como disseram em "Gremlins", se você não gosta de Natal, prepare-se para ser olhado que nem um leproso. E falando em "Gremlins"...

Não os alimente depois da meia-noite.

"Gremlins" é um dos mais interessantes subprodutos típicos da década de 80. O filme veio à luz pelas mãos do diretor do Joe Dante, do roteirista Chris Columbus (que tá aííí, fazendo Harry Potters...) e do ainda-não-onipotente Steven Spielberg. Mas vai, quem não lembra da história do jovem Billy Peltzer, interpretado por Zach Galligan (quem?), que ganha de Natal um Mogwai, espécie de mistura entre um Ewok e um Ursinho Carinhoso. Como deve ter algum sem-infância que não lembra, continuo: Peltzer desrespeita certas regrinhas básicas, como não molhar o bichinho e, principalmente, não o alimentar após a meia-noite, e o resultado é uma pacata cidadezinha norte-americana tomada por Gremlins (estes sim, uma mistura muito mais interessante, entre o Alien da Sigourney Weaver e um anão de jardim). E com a noite de Natal completamente arruinada, cabe a Peltzer resolver a bagunça, com a ajuda de sua namorada Kate, interpretada por Phoebe Cates (quem???).
Mas não é nada disso que torna o Natal de "Gremlins" macabro de verdade. O toque de mestre fica por conta de Kate, que por é por sinal a autora daquela metáfora do leproso. A moça odeia a data, e faz questão de explicar o porquê: numa noite de Natal, anos antes, seu pai simplesmente não chegou em casa. Dias de busca, e nada. Até que Kate nota um cheiro estranho vindo da lareira. Pensando ser um pássaro ou um gato morto, sua mãe chama os bombeiros. E o que eles retiram? O pai, que havia se vestido de Papai Noel e que quebrara o pescoço ao descer a chaminé. Macabro? Veja então a frase final da moça:
- E foi assim que eu descobri que Papai Noel não existe.

Morte ao Papai Noel!

Pois é, a palavra de ordem é maltratar o bom velhinho. E se você quiser entrar na fila, saiba que vai ter companhias do quilate de Tim Burton e Neil Gaiman. Burton tem em seu currículo o memorável "O Estranho Mundo de Jack" ("The Nightmare Before Christmas", 2000), animação em "stop motion" que pode ser vista como um pioneiro da série "para crianças, pero no mucho".
A história começa em Halloweentown, um mundo de criaturas fantásticas que vivem o ano inteiro em função de preparar a noite de Halloween. E é justamente após a festança que o bãmbãmbã do local, Jack Skellington, se mostra deprimido, cansado da rotina anual. Seu alento vem na forma de uma insólita idéia: tomar o lugar do Papai Noel e produzir junto com seus conterrâneos um Natal inesquecível. Mas, apesar de sua boa vontade, Jack não consegue captar inteiramente o espírito natalino, e seus preparativos tomam um tom por demasiado macabro, e cá estamos nós com mais um clássico e delicioso caso de Natal pela culatra. É, de boa intenções o inferno está cheio.
Se você curte especiais tipo "A Rena do Nariz Vermelho" ou "O Natal de Charlie Brown", "O Estranho Mundo de Jack" é uma boa chance de dar uma variada. Ei, alegre-se: quem é torturado no filme é o Papai Noel, e não você! Aliás, já era tempo de alguém punir o velho pederasta. Onde já se viu ficar enganando geração após geração de criancinhas, fingindo que existe? Tenho certeza que a Phoebe Cates concorda comigo.
E por fim, ao mestre Neil Gaiman (aliás, só como exercício de imaginação, que tal um filme "Sandman" dirigido por Tim Burton?). Nenhuma matéria envolvendo o macabro ficaria completa sem ele. A preciosidade da vez é o livro "Smoke and Mirrors" (no Brasil, "Fumaça e Espelhos", da editora Via Lettera, 303 páginas, 50 reais, comprem!). Em meio a uma série de contos e poemas que vão do irônico ao assustador, Gaiman nos brinda com o surpreendente "Nicholas was..."
Como o próprio autor explica, trata-se de um cartão de Natal encomendado por seus editores. Uma coisa, como você vai ver em seguida, é certa: eles não sabiam o que estavam fazendo.

"Nicholas was....

older than sin, and his beard could grow no whiter. He wanted to die.

The dwarfish natives of the Arctic caverns did not speak his language, but conversed in their own, twittering tongue, conducted incomprehensible rituals, when they were not actually working in the factories.

Once every year they forced him, sobbing and protesting, into Endless Night. During the journey he would stand near every child in the world, leave one of the dwarves' invisible gifts by its bedside. The children slept, frozen into time.

He envied Prometheus and Loki, Sisyphus and Judas. His punishment was harsher.

Ho.

Ho.

Ho."

Sem mais comentários, fico por aqui. Feliz Natal, senhoras e senhores.