A passagem do DJ inglês Paul Oakenfold pelo Brasil cristalizou todas as atenções do público eletrônico para a Heineken Thirst – um agressivo pacote de ações de e-music que incluiu concursos para novos talentos das turntables e superespetáculos no Rio e em São Paulo. Semanas antes das apresentações, o efeito Oakenfold universalizou as semelhanças existentes entre os guetos trance, debê, techno, house e hip-hop, já que todos expressavam, com atabalhoada excitação, os receios e expectativas que costumam rondar os gênios dos sintetizadores.

A primeira apresentação carioca do inglês se deu no 00, quando os hypes perderam a classe e se lançaram em histérica caçada por um dos 250 convites VIP. Mas apesar da atraente proposta de dançar Oakenfold, em private, num dos locais mais charmosos da cidade, a festa ficou aquém do esperado: segundo Tom Leão, o papa do jornalismo alternativo, o set do DJ foi breve e o público estava mais interessado em carão do que em música, o que expôs a lamentável falta de intimidade dessa turma com o verdadeiro espírito dos eventos de música eletrônica. Um desperdício.

Surpreendentemente, o luxo em torno de Paul Oakenfold se ergueu na alardeada noite de 22 de novembro no Riocentro. Os mais independentes malucos da cena do Rio de Janeiro temiam o fracasso, o que, para eles, significa gente deslocada e produção atrapalhada. Que nada. A Heineken mostrou a que veio: do estacionamento à entrada, passando pela limpeza, espaço, bares, banheiros, equipamentos de som, iluminação, telões – tudo era impecável. Perfeito. Foi uma das raras vezes em que não foi preciso se sujeitar a qualquer tipo de desconforto para se divertir. Para completar, o público mostrou que selvagem bombação e harmonia com o próximo são incrivelmente compatíveis. E olha que estamos falando de uma coletividade composta por apenas 30% de aficcionados. O restante ainda está cursando o período introdutório da barulhagem eletrônica, mas já está começando como deve ser.

Pete Tong, o conviva de Paul Oakenfold no banquete eletrônico tropical, fez um set apenas interessante – nada que a primeira linha de DJs house nacionais não supere com certa facilidade. O povo carioca é o soro da verdade: só perde a cabeça por quem merece. Portanto, até a entrada de Oakenfold, a pista estava em modo warm up.

Mas foi só a estrela inglesa despontar no fundo do palco para o público vir literalmente abaixo, chegando a abalar as grades que separavam a pista de dança do púlpito eletrônico. Paul Oakenfold era todo olhares e sorrisos de estupefação para a massa em chamas, numa deliciosa conexão recíproca entre as partes. Se seu set fosse um gráfico, começaria lá embaixo e terminaria no ápice: as primeiras músicas eram ligeiramente mais suaves, com melodias delineadas por vocais femininos; mas passada a meia hora inicial, o DJ literalmente surtou e começou a executar o que existe de mais dançante em seu repertório. Dali em diante, a vibe seguiu para o alto e avante, completamente embalada por um fundo pontuado por batidas surdas que alinhavaram todas as músicas – o que certamente faz parte do ardil de técnicas de que dispõe para acorrentar o público à sua arte.

Afinal Paul Oakendfold é o Midas que já teve a honra de transformar em ouro preciosidades como U2, o próprio New Order, The Cure, Snoop Doggy Dog e Madonna através de sua badaladíssima atividade de produtor, levando-o a criar, em 1990, a label “Perfecto”, pela qual lança emergentes talentos da e-music e álbuns remixados. Mas foi através da excelente trilha sonora de “Swordfish” que ganhou projeção para as massas norte e sul americanas. Seu último feito foi o álbum “Bunkka”, lançado este ano com produções próprias.

O descontrolado delírio do público da Heineken Thirst era premiado com as diversas idas do DJ à boca do palco, onde realizava performances de encantamento diante do calor de toda gente. Era quando trocava a persona de deidade para a de deslumbrada diva, como se seu som fosse emitido não mais pelos equipamentos mas sim por seus braços estendidos em direção à pista de dança. E de dançar ninguém parava mais... fazíamos todos parte de uma extasiante geléia musical, vigorosamente batida pelo mais luxuriante de todos os chefs.

O fim do set do inglês foi contundente, no mais traumático sentido da palavra. Ele abandonou o espetáculo no pico; as pessoas ficaram inconsoláveis. O resultado foi que grande parte simplesmente não se contentou com as atrações seguintes e deixou o Riocentro na seqüência, perdendo a inacreditável execução do clássico house “Plastic Dreams”, de Jaydee, pelo DJ seguinte. Não os culpo. É compreensível que queiramos nos recolher às nossas insignificâncias quando desligam nossas fontes de alimentação musical predileta.