| A
cantora lírica italiana Gabriella Benzazoni Lage sempre
foi muito afeita a festas, saraus e algumas extravagâncias.
Receber convivas em sua casa, mansão que abrigava os
mais efervescentes salões da alta cultura carioca nas
décadas de 40 e 50, e interpretar "Carmem"
de Bizet ainda são suas marcas mais lembradas. Reza
a lenda que, além de oferecer boa música e servir
iguarias finas vindas diretamente das Europa, a contralto
italiana trazia artistas estrangeiros para suas festas e mandava
passar bandejas com jóias entre os convidados. A mansão
de três andares e 24 cômodos da qual estamos falando
é mais conhecida atualmente como Parque Lage, onde
hoje funciona a Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Propriedade
herdada pelo armador Henrique Lage, marido de Gabriella, a
mansão foi projetada por um arquiteto italiano na década
de 1920 e construída com mármores e azulejos
importados da Itália, tudo para satisfazer os caprichos
da cantora lírica.
Os
anos passaram e os tempos de ostentação também.
Endividado com o Banco do Brasil, Henrique Lage cedeu a mansão,
os jardins e a floresta nativa, única área de
mata atlântica primária que restou da Floresta
da Tijuca original. De lá para cá, o Parque
Lage readquiriu aos poucos a vocação para as
grandes festas e foi cenário de acontecimentos históricos.
Foi tombado pelo Governador Carlos Lacerda, virou sede da
Escola de Artes Visuais, foi locação de dois
dos filmes mais importantes do Cinema Novo brasileiro, "Macunaíma"
de Joaquim Pedro de Andrade e "Terra em transe"
de Gláuber Rocha, revelou uma das mais criativas e
extrovertidas gerações de artistas plásticos
brasileiros com a exposição "Como vai você,
Geração 80?", abrigou peças de teatro,
performances, recitais de poesia e voltou a ser palco de festas
e shows de Raul Seixas, Caetano, Tim Maia, o Free Zone e o
acústico MTV do Paralamas de Hebert Vianna.
Nesse
cenário cercado de verde e colunas de mármores
italiano, aboletado no legítimo suvaco do Cristo e
aos pés do Corcovado, a festa Parque Lounge encerrou
o ano de 2002 no Rio com duas edições pra lá
de disputadas na mansão dos Lage. Por trás do
trocadilho com a palavrinha da moda, que qualifica nove entre
dez lançamentos de discos e boites mudernas, o Parque
Lounge guarda um conceito bem interessante. Em cada noite,
uma banda, um DJ e um vídeo experimental que o site
da paulistaça Erika Palomino preferiu classificar como
uma "mistureba de música, projeções
e artes, que é a cara do Rio".
Quem abriu os trabalhos no dia 07 de
dezembro foi a drum n’ bossa do BossaCucaNova. Com dois
discos lançados ("Bossacucanova vol.1" de
1998 e "Brasilidade" de 2002) e um repertório
recheado de hits da Bossa Nova arranjados com uma novíssima
roupagem orgânica & eletrônica, o BCN e o
standard do debê carioca DJ DaLua foram os chamarizes
que transformaram a primeira edição do Parque
Lounge num sufoco para entrar. Mesmo com pouco jabá
na imprensa e alguma divulgação por email, o
boca a boca de uma festa aberta ao público no Parque
Lage e com show do BossaCucaNova fez os ingressos desaparecerem
dos pontos de venda antecipados. Resultado: o lado de fora
da mansão ficou abarrotado com desavisados de última
hora querendo entrar de qualquer maneira. Na porta, a produtora
da festa Mariana Warth anunciava: "Só entra quem
tiver convite ou nome na lista". Até mesmo o baixista
da banda Brasov, Lucas Marcier, que se apresentaria naquela
mesma festa dali a 15 dias, foi barrado. Lotação
esgotada. Dá para imaginar o vulto da cantora lírica
Gabriella Benzanoni Lage calhando de aparecer por lá,
não entrava nem atravessando a parede.
Lá
dentro, o BCN com a cantora Cris Delanno nos vocais, DJ DaLua
nos graves das carrapetas e Márcio Menescal na guitarra,
filho do papa da bossa Roberto Menescal, comandavam o suingue
que ecoava pela mata do Jardim Botânico. Clima ameno,
show quente e uma sucessão de hits da Bossa Nova para
balançar o corpo bronzeado no melhor estilo carioca:
ao ar livre, cercado de árvores centenárias
e com vista para o Cristo Redentor lá em cima. Na seqüência,
canções do segundo disco do BCN não deram
tempo nem para entrar na fila da cerveja: "Rio"
(de Ronaldo Bôscoli e Roberto Menescal), "Nanã"
(de Mario Telles e Moacyr Santos), "Água de beber"
e "Garota de Ipanema" (de Tom e Vinícius).
Programado para passar antes do show
do BossaCucaNova, o vídeo "Temporal", de
Maria Continentino, foi engolido pelo videocassete atropofágico
arranjado pela produção do Parque Lounge. Numa
segunda tentativa após o show, o vídeo mostrou
que estava mesmo esfomeado: engoliu a fita de novo. O projeto
de graduação em Comunicação Social
(ECO – UFRJ) de Maria Continentino ficou para a segunda
edição do Parque Lounge. No resto da noite,
DaLua assumiu e só parou quando o galo cantou no ritmo
quebrado do debê.
No dia 21 de dezembro foi a vez da
queridíssima do underground carioca Brasov animar a
festa com projeções de Gabriela Gusmão
e o suingado brazuka do DJ Zé Otávio. Dessa
vez, a produção do Parque Lounge se preparou
para enfrentar o sucesso de público: barrou a galera
sem convite na entrada do Parque, e não na porta do
casarão; contratou uma equipe de seguranças
bem preparada; reservou o estacionamento só para os
convivas e até colocou aquele tradicional cartaz nos
bares, "Ficha no caixa". Impecável.
Dentro da mansão dos Lage, mais
uma primorosa apresentação do Brasov, uma banda
que você só entende mesmo o que é quando
vê ou ouve. E mesmo assim, tem gente que não
consegue entender nada, mas não deixa de achar muito
bom. Formada por músicos de primeira, o Brasov faz
um laboratório de música performática
experimental que foi feita para rir e dançar, ao mesmo
tempo. Entre seus hits estão músicas como o
jingle das piscinas Tone, o tema do seriado americano "Chips",
a "Conga conga conga" da mulher-bunda Gretchen,
o clássico "Maria Fumaça" da Banda
Black Rio e composições próprias que
eles classificam sem muito critério como música
de casamento búlgaro, por exemplo. Quando não
são instrumentais, as músicas dos caras vêm
com letras deliciosas, numa língua tão original
que você não entende nada. É música
instrumental pra rir e dançar meeesmo.
Difícil de entender também
é que o Brasov, uma banda que faz shows há quase
três anos, fora meses ou anos de gestação
e ensaios, e que já teve clipe concorrendo na categoria
Democlipe do VMB da MTV ("O homem objeto"), não
tem um único disco gravado. Nem fita k7 demo em banquinha
de show independente você encontra. (Alô selos
independentes e gravadoras paguem a gravação
de um disco do Brasov antes que acabe!!!). Por falar em acabar
(isola na madeira aí ô), um rumor que surgiu
antes da segunda edição do Parque Lounge dava
conta que esse poderia ser o último show do Brasov.
E mais, o babado que rolava é que esse show nem aconteceria,
pois a banda já estaria se desmontando cansada de correr
atrás da profissionalização gravadora-clipe-disco-shows.
Boato por babado, o show aconteceu no melhor estilo Brasov,
com muita festa e performances hilárias. Quem acompanha
a banda desde o início, percebeu algumas mudanças
no repertório. Do som dançante e estiloso com
o duo de metais (sax e trompete) endiabrado de Daniel Vasques
e Felipe Rocha, a banda navega para dois caminhos distintos
que se misturaram no show do Parque Lounge: um mais pop dançante
e outro voltado para uma vertente ska alucinada que a banda
já havia apresentado no show/projeto "Tributo
ao Inédito" no Armazém 5.
Como é de praxe, a banda termina
o show evocando a música de abertura do sensacional
"Show de Calouros" do SBT, com uma homenagem non
sense ao figuraça Pedro de Lara. Ah, um detalhe que
já ia sendo deixado de lado: o figurino da banda mudou.
As camisas sociais coloridas para dentro da calça com
prega incorrigível e cinto fivelão foram substituídas
por confortáveis cuecas samba canção
e as tradicionais camisas Hering estampadas com as frases
"Estamos trabalhando para melhor servi-lo", "Em
breve, novo figurino", "Desculpe o transtorno"
e "Volte sempre". Esperamos que, em 2003, novas
edições do Parque Lounge faça-nos voltar
sempre ao Parque Lage.
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