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Observem os animais. Nenhum deles dorme durante a noite, não
da forma como nós fazemos. Costumam dormir algumas
horas por dia, acordar, caçar, comer e dormir novamente.
Não convencionaram, como os seres humanos, dormir a
noite inteira. Mas pare por um instante e pense: por que será
que convencionamos a noite como período para dormirmos?
O que se sabe até agora é que o Homo sapiens
sapiens (nossa querida espécie) escolheu a noite como
seu período de sono devido aos perigos de uma caçada
noturna. Durante a noite, seria muito difícil para
nossos primos das cavernas obterem alimentos e defenderem-se
de seus então predadores.
Com o passar dos séculos, a vida noturna foi se tornando
uma constante na vida humana, depois que cidades, com seus
edifícios e infra-estrutura organizada, começaram
a ser erguidas uma após a outra. Nos tornamos mais
seguros, ascendemos ao topo da cadeia alimentar, nenhum lugar
do mundo onde hajam prédios, asfalto e bares pode oferecer
quaisquer riscos ou perigos durante nossas incursões
na madrugada.
No entanto, tente observar um fato muito interessante, que
nos leva a lembrar de nossos antepassados peludos: a nossa
forma de escolher um par para a noite. Nos comportamos como
os mesmos caçadores de outrora, selecionando locais
de caça (bares, boates, points); procuramos sempre
por um par que esteja de acordo com nossas necessidades (que
normalmente são físicas) e quando não
encontramos aquilo que queremos naquela zona de caça,
migramos imediatamente para outra. Sim, isso acontece também
quando encontramos presas que nos satisfaçam, pois
nunca nos damos por satisfeitos, sempre queremos mais.
O que faz de uma boate ou um bar um local ideal para essas
jornadas em busca de um companheiro ocasional satisfatório?
A maneira que estes lugares têm de proporcionar todos
os elementos necessários para os ritos de sedução
de nossa raça. A dança, o álcool, o calor
e a música são elementos essenciais para que
o macho ou a fêmea da espécie possam exibir seus
dotes, iniciar uma aproximação (ainda que cautelosa)
e quem sabe mesmo, alcançar seu grande objetivo naquela
noite: algumas horas de prazer sexual descompromissado. Somos
uns dos poucos animais que têm relações
sexuais apenas por prazer. Contudo, é interessante
notar que há um motivo muito mais profundo e instintivo
atrelado a este ato contínuo e inerente à sociedade
humana. O nosso desejo íntimo de perpetuar nossa espécie
é o que realmente nos leva a crer serem necessários
tantos parceiros durante toda a vida.
Além das várias razões biológicas,
há também muitas explicações psicológicas
para a necessidade dos indivíduos sociais humanos da
atualidade em possuir um lugar para encontrar seus parceiros.
A sociedade pós-moderna, com sua tecnologia desenfreada
e a globalização, trouxeram consigo uma angústia
interior que começou a ser notada desde a Revolução
Industrial, em 1850. Levado pelo imediatismo consumista, o
homem acabou por se distanciar de seus valores e princípios
tradicionais, criando com isso um vazio existencial que beira
a completa dependência, nos meios urbanos. Desta forma,
uma das maneiras de tentar preencher este vazio é procurar
diminuir as distâncias entre o indivíduo e seus
semelhantes. Procuramos, noite após noite, boate após
boate, bar após bar, atenuar nossa incessante e angustiante
necessidade de afeto, encontrando na vida urbana noturna um
perfeito nicho de atenções, glamour, festividades
e, eventualmente, a completa ausência da solidão.
Enfim, nossas semelhanças com nossos parentes animais
são maiores do que se pensa, levando-se em conta que
somos racionais, inteligentes e dados à vida social
relativamente organizada. Criamos o entretenimento como forma
de diversão e lazer, instrinsecamente ligados, de uma
forma ou outra, aos nossos mais profundos instintos e desejos,
formando assim um perfeito conjunto que torna a noite, nos
fins-de-semana de nossas vidas, um prazer incomum e peculiar
à nossa bela espécie.
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