Apenas uma semana depois da ressaca de carnaval e as águas de março já anunciavam o fim do verão na Cidade Maravilhosa... nada melhor para requentar os tamborins do que um bom show.

A primeira vez em que vi Arthur Maia ao vivo foi numa de suas memoráveis apresentações no Mistura Fina ao lado do guitarrista americano Hiram Bullock, união que acabou resultando no álbum “Black Fusion Band Ao Vivo”. O intimista palco do Mistura Fina, porto seguro do jazz no Rio de Janeiro, sempre me pareceu a segunda casa de Arthur e sua banda, o que aguçou minha curiosidade em relação a uma apresentação no Ballroom.

Chegando lá, surpreendi-me com o pequeno número de pessoas presentes... algumas caras conhecidas, outras nem tanto. Pouco tempo depois, uma constatação: o público era basicamente formado por músicos, fossem amigos, colegas ou admiradores de Arthur Maia e sua banda. Alguém cochicha ao meu ouvido: “O Milton tá aí”. E subitamente eu começo a me sentir a Hildegard Angel da MPB. Ou melhor, da MIB.

Se for pra rotular, que ao menos façamos direito. Muito antes de servir de sigla para um filme de caçadores de extraterrestres, MIB significa “Música Instrumental Brasileira”, corrente menos difundida da música nacional, onde Arthur Maia figura como um de seus expoentes mais representativos. Sobrinho do lendário baixista Luizão Maia, começou tocando bateria na infância até ganhar, aos 15 anos de idade, um baixo elétrico. Desde então, Arthur não parou mais de tocar, acompanhando artistas como Gal Costa , Jorge Ben Jor , Ivan Lins, Marisa Monte , Djavan e Gilberto Gil , só para citar alguns.

A tal da MIB, obviamente, não tem jabá em rádios nem clipe na MTV. Seu público é formado basicamente por músicos de diversas faixas etárias e calibres, mas de forma alguma se resumindo a estes. Inicialmente jazzístico, o som de Arthur Maia hoje se tornou uma verdadeira salada musical, com arranjos que fundem jazz, funk, swing, samba e blues, influências que o músico traz na bagagem dos diversos estilos por onde transitou. Como os mais sensíveis poetas já atestaram, a boa música não pode ser descrita em palavras, e só mesmo ouvindo o trabalho de Arthur para comprovar isto.

A restrita galera que compareceu ao Ballroom naquela quarta-feira chuvosa sabia disto, e não se abalou nem mesmo com o considerável atraso para o início do show. Talvez soubessem que algo inesquecível estava por vir. Quando finalmente a banda pisa no palco, Arthur comanda sua trupe na abertura com “Samba Dali”, para já emendar com duas músicas de seu primeiro CD, as consagradas “Grooveland” e “Arthur E O Gigante”, esta última um fino jazz de primeiríssima qualidade.

Dado o pontapé inicial, Arthur avisa ao público que o show terá muitos convidados, e que a apresentação será algo como uma festa entre amigos. Na mesma hora me indaguei “será que o Milton vai dar uma canja?”, mas achei melhor não sonhar alto, e esperar pra ver que surpresas afinal estariam por vir. Algumas babas depois, entre elas “Alívio”, co-autoria de Arthur com Djavan, a coisa volta a esquentar.

E então começa o sobe-e-desce do palco: a cada música executada, novos convidados eram apresentados. O primeiro a tacar fogo no caldeirão foi Jorjão Barreto, uma fera dos teclados, seguido pelo guitarrista Celso Fonseca , que além de tocar, ainda cantou duas músicas com a banda, com destaque para a belíssima “Polaroide”, composta em parceria com Ronaldo Bastos. Após a saída de Fonseca, a banda emenda outra baba, desta vez o motel-hit “You’ve Got A Friend”, mela-cueca de Carole King imortalizada na voz do calvo James Taylor. Como se isso já não fosse suficiente, um Orfeu sobe ao palco para cantar junto com a banda. É Toni Garrido , gastando o gogó no refrão, fazendo do show o momento “Fama”. Hora de pegar uma cerva e rezar para que a coisa melhore. E até agora, nada do Milton sair da cadeira.

Já munido de uma geladinha, vejo que minhas preces foram atendidas. Devidamente enxotado do palco, Garrido dá lugar a Daúde , que sacode a galera com o melhor arranjo de “Chove Chuva” (Jorge Ben Jor) que já vi em toda a minha vida. Na seqüência, uma versão funkeada de “Hoje Eu Quero Sair Só” (Lenine/ Mu Chebabi/ Caxa Aragão), digna dos mais inspirados momentos de Sly & The Family Stone.

Daí pra frente, foi só alegria: com outros convidados de peso como o fantástico Carlos Malta e o virtuoso guitarrista Sérgio Chiavazzoli, eu me pego totalmente surpreendido com a constatação de que uma canção boba como “I Wanna Hold Your Hand” pode soar maravilhosa se tocada em ritmo de frevo, ainda por cima se for emendada com “Brasileirinho”.

A festa já estava ficando com cara de que ia terminar... e ainda eram 3 horas da manhã!! E o Milton, cadê? Arthur então chama toda a galera pro palco pra o grand finale... se aproxima do microfone e dispara o convite: “Chefia, se quiser chegar...”. Pra bom entendedor meia palavra basta, e Milton Nascimento sobe ao palco do Ballroom ao lado de Arthur, Daúde, Carlos Malta, Celso Fonseca e o resto do “dream team”... para júbilo total da massa que dançou e cantou ao som do clássico “Mas Que Nada” e pôde voltar pra casa com um sorriso estampado no rosto cantarolando “obá, obá, obá...”. Ah, e Toni Garrido não subiu mais ao palco, não...

Um show memorável, que consolida o trabalho de Arthur Maia como um dos mais talentosos e versáteis instrumentistas de sua geração. Seus arranjos, sempre criativos e originais, compensam um ou outro deslize de repertório... mas onde foi parar “Cristina”, de Tim Maia e Carlos Imperial, cujo arranjo rasta-funk não deixava ninguém parado? Deixou saudades...

A apresentação serviu também para divulgar o novo disco de Arthur Maia, apropriadamente intitulado “Planeta Música”. Lançado pelo selo independente Cabeçadura Records, o álbum mostra toda a abrangência do som de Arthur, com destaques para “Planeta Música/Cascavel” (dueto com Seu Jorge sobre tema de Antonio Adolfo), “De Ombro” e “Muchacha” (com o mestre Paquito D’Rivera no sax). Também participam do álbum alguns dos maiores músicos da atualidade, como os bateras Carlos Bala e Denis Chambers, o guitarrista Mike Stern, e o percussionista Marcos Suzano. Um deleite para os tímpanos.