Não é de hoje que virou moda chegar nas festas (principalmente nas raves) tipo 5, 6 da manhã. Várias vezes liguei para amigos no intuito de combinar uma carona e eles disseram: "ah, mas só vou de madrugada, quando estiver clareando...". Não, sem dúvida, chegar de manhã tem o seu charme. Aliás, chegar tarde em festas sempre teve o seu charme. A pessoa fica imaginando se seus amigos (ou pretendentes) irão sentir sua falta ou não, sempre com uma reclamaçãozinha básica. Isso faz o ego inflar de orgulho e você se sente uma pessoa importante, essencial.

Mas será que essa é a melhor atitude a tomar ? Com tantos acidentes pelas estradas e com a nossa vida cada vez mais surpreendida pelas agruras da vida (leia-se violência), a boa é ficar perambulando pelo sereno ? Será que quando você chega a festa realmente está terminando ou começando ? E as pessoas ? São mais interessantes na hora da xepa ?

Pode ser que sim, pode ser que não. A questão é que a noite está cada vez mais descaracterizada como o horário ideal de curtir a balada. Muitos estão trocando o dia pela noite nos fins de semana. Abrem mão da praia de domingo para dormir quando chega das festas (por volta de meio-dia, uma da tarde).

O que pode ser feito (se é que precisa ser feito algo) para que isso volte ao 'nomal' ?

No verão que se acaba, não foram raras as raves e festas nas praias aproveitando o anoitecer. O sol morrendo no horizonte fazia com que aquele momento se tornasse mágico. Era o divisor do dia: ele deixava de ser ingênuo (o dia) para se tornar sério (a noite). E, convenhamos, quando o sol queria fazia um espetáculo sem igual para qualquer um, baladeiro ou não. Na noite, a decoração fluor fica mais enigmática e perde todo seu sentido no claro. É na noite que todos os gatos são pardos e você tem maiores chances de se dar bem, acredite. Você não precisa estar de óculos escuros e as pessoas vêem o seu olhar, a sua alma.

Na Solaris, rave de Carnaval em Amparo (SP), o melhor momento foi o anoitecer do terceiro dia de festival. Cláudio Brio fez a trilha sonora perfeita do pôr-do-sol, um progressivo inacreditável, estonteante. Logo em seguida, a natureza transposta em forma eletrônica do DJ inglês Jokke, ou simplesmente True To Nature. Sua performance foi para poucos, já que os tranceiros acharam que aquele era o melhor horário para dormir. Que nada... Jokke brindou os felizardos com a mais pura demonstração de respeito á seriedade, ou seja, a noite. E Matera, DJ carioca, fechou a trinca responsável pela magia que reinava em pleno laranjal psicodélico. A noite progredia e fluía lindamente, com calma, sem pressa. Para abençoados. Para felizardos que estavam no momento certo e na hora certa, sem seguir tendências. Apenas levando seu espírito para passear e se transportar para outra dimensão em horário pouco comum em raves.

Façamos isso mais vezes. Vamos celebrar o anoitecer através do trance progressivo. Antes que isso se torne comum entre os mortais...

Leia tb: A noite dos gatos psy