O esquema é woodstockiano: cinco dias acampados num estonteante pico ecológico ao som das maiores autoridades psicodélicas do mundo, sem intervalos entre uma e outra. Eis a realidade dos mais radicais amantes do psytrance, vertente conhecida pelas preferências diurnas, ao contrário das demais culturas da e-music. Aqui, a luz do sol é a matriz de tudo aquilo que se entende como indispensável para um bom festival, como a apreciação da natureza, a possibilidade de se inteirar com todo tipo de gente e os estímulos visuais que garantem um transe espiritualmente transformador.

Mas dentre esta que é a platéia mais extravagante do universo eletrônico há um grupo de rebeldes ainda mais excêntricos. São os trancers noturnos – aqueles que brotam na pista no momento em que a esmagadora maioria começa a se recolher, exausta, em suas tendas de nylon. É quando as sombras espicham-se sobre a terra batida, anunciando um poente dentro de uma hora. Além da vantagem de um clima mais fresco para dançar, estes ravers contam com maiores possibilidades de encontrar DJs do sub-estilo progressivo, o que melhor dramatiza a escuridão da noite.

Isto se falamos de uma situação ideal, como foi o caso do extraordinário festival Solaris, ocorrido no último Carnaval numa fazenda em Amparo (SP). A produção do evento, ciente das largas distinções de público e atmosfera existentes entre dia e noite trance, programou a mais inteligente seqüência de feras do progressivo para orquestrar o último luar da festa. O DJ Cláudio Brio assumiu as pick-ups com músicas tão dançantes quanto pede um final de tarde e, a medida que anoitecia, executava faixas marcadas por graves cada vez mais pesados, numa das mais perfeitas transições sonoras dentro de um único set. Quando entregou o pódio eletrônico para o dinamarquês True to Nature, a audiência era sensivelmente menor em quantidade, mas incrivelmente mais consciente sobre a complexidade do som progressivo – os muitos rapazes e as poucas moças presentes deleitavam-se com o fato de fazerem parte de uma elite underground dentro da heterogênea cultura psicodélica. O carioca Matera veio em seguida para provar que, a exemplo dos excitados adeptos do full-on, essa turma também perde a cabeça com facilidade, e arrancou seguidos gritos de euforia da pista de dança.

Infelizmente nem todos os produtores de festivais trance dão a devida atenção ao refinado público noturno; caso realmente se esmerassem, atenderiam aos pedidos dos próprios artistas de progressivo, que declaradamente preferem se apresentar no escuro. Afinal, a compatibilidade deste sub-estilo com a penumbra é indiscutível: o groove do progressivo é caracterizado ora por freqüências espaciais, semelhantes a filmes de ficção científica, ora pela clara representação sonora das camadas mais profundas do solo, como simulacros de terremotos. Tais efeitos criam uma atmosfera muito mais próxima dos preceitos cósmicos cultuados pelos trancers do que o agitado full-on solar.

Acima de toda essa discussão estão outras formas de arte trance noturna. A clássica decoração com painéis e móbiles fluorescentes, que saltam aos olhos com a farta distribuição de luz negra na pista, é digna de profissionais de grife como a Tripodelic, de São Paulo. Apesar da graça estar toda na noite, o décor também atrai a atenção dos ravers diurnos – mas a mesma sorte eles jamais terão com as incríveis projeções do VJ Alexis, por exemplo. Tal qual uma sala de cinema, é preciso estar escuro para que as imagens lançadas sobre telões e lonas da pista de dança ou chill-out sejam plenamente apreciadas. Através de equipamentos próprios para a finalidade, Alexis desfia um número de efeitos visuais, que vão de alucinantes amorfismos a sucessões de clipes de temáticas particulares da cultura psicodélica eletrônica.

Na noite trance os gatos não são pardos. São, sim, progressivos, fluorescentes e cinematográficos - absolutamente exclusivos.

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