Seu semblante impávido não esconde, Claudio Brio. A música que você toca é para dançar até o cerne da alma. “Até”, não. “Inclusive”. Ou “principalmente”.

Afinal, o que esperar de um DJ que fica de intimidades com a música eletrônica já nos anos 80? Sua banda de technopop ensaiava New Order, Depeche Mode, Kraftwerk. Deve ter ficado tudo gravado em seu sol e ascendente aquarianos: Claudio Brio nasceu para executar os códigos do futuro. Isto ele pôde provar para a massa trance depois de um grande hiato musical, apenas em 1999, quando começou a guiar pick-ups psicodélicas. Aproveitou e provou, também, para todos aqueles que chiaram quando abandonou a carreira de consultor empresarial para se devotar às artimanhas dos sintetizadores.

“Pensavam que eu estava louco, mas todo o meu movimento foi de resgate da minha personalidade”

Sorte a nossa que foi um caminho sem volta. Sorte idem que ele continuou sendo ousado até mesmo dentro do próprio início de sua trajetória trance, quando deixou para trás os tracks mais populares da época para desbravar um tal “A Progress in Trance”, de DJ Anti. Diz ele que ficou deveras impressionado com o estilo e a qualidade da masterização do álbum. Dali por diante, remanejou seu olhar para o progressivo, até que, em 2001, já havia se tornado uma referência nacional da vertente. Desde então, seu peculiar paladar musical faz dele estrela indispensável nos mais disputados line-ups do país.

Sua principal linguagem é aquela que sai das caixas de som, dado que se faz entender por um número maior de gente. Mas tão bem quanto toca música, Claudio Brio pensa música. Balançando discretamente no canto de uma pista de dança, enquanto aguarda o momento de entrar na cabine, é um prato cheio para quem gosta de discutir cena e som. Nessas horas dá para ver o deslocamento de sua atenção auditiva para a mente; então, eis que desperta um interlocutor de privilegiado conhecimento trance:

“No Brasil, as pessoas confundem progressivo com minimal, a ponto de agora sermos o único país do mundo em que o progressivo é diferente de ‘progressive’. O que acontece por aqui é que o minimal é chamado de ‘progressivo’, e o progressivo de ‘progressive’”.

Entendeu?

É bom que tenha entendido, porque ele passeia do progressive trance ao progressive house, do minimal ao progressive trance do norte da Europa. Pegue qualquer um dos felizardos que testemunhou sua apresentação no Solaris Dance Festival: Claudio Brio está no flyer, será um set de evoluções das mais inesperadas. Naquela ocasião, seis da tarde, o DJ começava com faixas radiantes; a medida em que a noite avançava, aplicava grooves mais e mais redondos, freando as BPMs para inacreditáveis 128. Desenhou, com música, o claro que se tornava escuro. O bass-line, no entanto, estava lá do começo ao fim, independente:

“É ele que mantém a pista dançando enquanto as melodias de médio fazem o público ter a possibilidade de viajar em seus pensamentos e emoções mais profundos. A forma com que construo o set está baseada na idéia de se voar sem decolar: as pessoas se dão conta de que estão voando sem ter notado que sequer decolaram. Gradativo, progressivo!”

Então é simples entender por quê o clima na pista se recicla quando da entrada de Brio. Ele é DJ para quem sabe escutar música em favor de um transe dinâmico: uma vez fisgado, dificilmente se consegue desvencilhar-se da hipnose. Não é para baladinha, pegação, pastilhagem. Num pico sinestésico, é possível constatar que seu som tem formas harmônicas, simétricas, estéticas – a pura essência da psicodelia original.

“DJing é como um espiral: você capta a energia da festa, interioriza e a devolve através de tracks. As pessoas reagem, você capta novamente, interioriza e devolve com mais outra música, e assim vai”

De modo que Brio é um DJ dos relacionamentos. Fato que se reflete na forma com que alimenta seu case. As faixas que desfila são adquiridas através de promos presenteados por artistas e labels daqui ou de fora, assim, no tête-a-tête. Também compra discos originais pela internet, com alta predileção por Son Kite, Vibrasphere e Nuken. E, no ano passado, resolveu que ele próprio deveria produzir música, o que resultou no lançamento das faixas “Deep Smile”, pela Trama, e “Loathing”, pela DJ World. Ambas em parceria, é claro: a primeira com o DJ Feio (projeto Trautonium) e a segunda com Feio e Kamaraum (projeto Stogo). Já a partir da aliança formada com James Monro (projeto Liquid Structure) produziu duas músicas e, enquanto aguarda a volta do DJ ao país, prevê muitas outras.

Isso é o que você vê e escuta. Mas Claudio Brio também movimenta bastidores, como os da festa paulista Spectral Gate, dele e de Feio. A festa já acumula duas turnês, que mesclaram estrelas internacionais – Logic Bomb, Talamasca, S-Range, Hux Flux, Dimitri Nakov, Jean Borelli, Human Blue, Reefer Decree – com as nacionais – Rica Amaral, Mack, Matera, Marcelo Vor, Rodrigo Leal, Pedro Turra. Para 2003, prevê uma Spectral Gate ainda mais consistente, mas não dá detalhes. Limita-se a dizer que um evento, para ser bom, tem que ter sinergia entre público, produção e DJ. Conclusão possivelmente tirada na pista principal do festival alemão VOOV, sua ambição declarada:

“Foi o melhor dance floor que já vi até hoje”

O que ele vê e escuta, publica na coluna que mantém num conhecido web-site. Sobre esta tarefa, chama mais atenção para o fato de aprender com os leitores do que para o de ser um formador de opinião. Uma humildade, sobretudo quando lembramos de que ele é prodígio na manobra de assuntos polêmicos. Lancemos a questão da popularização das raves, por exemplo, e deixemos que Brio se manifeste:

“A conseqüência positiva da popularização é que, com o crescimento da cena, temos mais eventos, vendemos mais músicas. Com a injeção de dinheiro, acontecem festas mais estruturadas, com mais atrações internacionais e artistas que poderão investir em seus estúdios. A conseqüência negativa é que se aproximam pessoas que não tem nada a ver com a história e começam a fazer festas, tocar e se envolver visando apenas o dinheiro, a moda... e atraindo pessoas que não têm idéia do que é uma rave. Fazer o quê? Temos que aprender a conviver com isto. Acredito que, num futuro próximo, além das grandes festas, as privates de público selecionado voltarão com tudo. Assim poderemos manter a expansão da cena e também conservar a vibe homogênea em eventos de menor porte”

Na retórica como nos amplificadores: Claudio Brio enxerga dois olhares adiante do resto de nós.


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