Quinze anos depois de sua morte, Chet Baker continua um mistério. Ininteligível enigma musical, sua obra é venerada nos quatros cantos do planeta, à exceção de sua terra natal, os EUA. À sombra de seu herói Miles Davis – que sempre o desprezou, dizendo que ele tocava "pior do que eu até quando eu era um junkie inveterado" – Chet nunca foi reconhecido como um dos grandes nomes da música americana, e não raro seu nome está ausente das listas e compilações dos melhores do jazz. Um terrível equívoco que aos poucos parece estar sendo notado, com os recentes lançamentos literários e musicais sobre a obra deste magnífico artista.

Chet nasceu Chesney Henry Baker, em Yale, no estado de Oklahoma, EUA, no ano de 1929. Aos onze anos, estimulado pela mãe, começa a ter aulas de música e ganha seu primeiro trompete. Ouvindo discos antigos, o menino aprende sozinho as noções básicas do instrumento e, apesar de freqüentar aulas de teoria musical na escola, mostra-se incapaz de ler uma partitura sequer. Mesmo com tais limitações, destacava-se pela sua musicalidade e ouvidos extremamente aguçados.

Após alistar-se no exército e passar um tempo em Berlim com a banda militar, Chet retorna ao EUA em 1948 e começa a tocar nos clubes de Los Angeles, sozinho ou em jam sessions. Ainda sem perspectivas profissionais, Chet vai estabelecendo seu estilo e começa também a desenvolver uma maior sensibilidade musical, a despeito de seu público, como se vê em suas anotações à época:

"Parece-me que a maioria das pessoas só se impressiona com três coisas: a rapidez com que se pode tocar, a altura que se pode atingir e o volume do som produzido. Acho isto um tanto exasperante, mas agora, mais experiente, vejo que provavelmente menos de dois por cento do público sabe realmente ouvir."

A grande chance de Chet veio quando foi escolhido para fazer uma turnê com Charlie Parker em 1952. Apesar de ter sido um trabalho curto, foi o suficiente para que ele fosse reconhecido no mundo do jazz da Costa Leste dos EUA, ou "a parte branca do jazz". Depois, juntou-se ao quarteto do grande saxofonista Gerry Mulligan, alcançando grande sucesso, para finalmente então formar seu próprio quarteto em 1955, quando viaja com seu conjunto pela Europa.

Começa então a grande viagem - não só no sentido literal - de Chet Baker. O uso continuado de drogas e suas sucessivas prisões fizeram dele uma figura única no showbizz, com seu tipo galã de Hollywood (ele era a cara de James Dean) em eterno duelo com o establishment. Nas palavras de Carol Baker, sua terceira e última esposa, Chet era o "caos permanente misturado com puro gênio".

A figura do músico, contudo, ficou mais associada à do trompetista e intérprete romântico, um dos precursores do "cool jazz", cuja voz límpida e aveludada foi fonte de inspiração assumida da bossa nova de Tom Jobim e João Gilberto que surgiria anos depois.

A obra de Chet, um reflexo de sua vida atribulada, é extremamente irregular e diversificada, desde as famosas baladas já citadas até experimentalismos "groovies" na década de 70, quando gravou com diversos músicos e - sempre de mãos dadas com as drogas - passou por momentos embaraçosos em sua carreira, como apresentar-se com trajes típicos mexicanos, entre outras doideiras. O espancamento de que foi vítima em 1968 - e que o fez perder a maioria dos dentes - foi o golpe de misericórdia para que seu rosto nunca mais fosse o mesmo. Aos quarenta anos, Chet parecia ter cem.

Ainda hoje, seu trabalho desperta interesse, e não é difícil encontrar solos de Chet permeando os atuais "chill outs" e "lounges" da vida, confirmando a perenidade de seu talento, mesmo tanto tempo depois da fatídica noite de 13 de maio de 1988, quando despencou - ou se jogou - da janela de um hotel em Amsterdam, encontrando finalmente a paz.


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LIVROS:

"Memórias Perdidas" - Chet Baker (Jorge Zahar Editor)
"No Fundo De Um Sonho" - James Gavin (Companhia das Letras)


FILMES:

"Let's Get Lost", documentário de Bruce Weber


PRINCIPAIS ÁLBUNS LANÇADOS NO BRASIL:

"Let's Get Lost" (BMG Brasil / Pacific Jazz)
"Hot And Cool" (Movie Play)
"She Was Too Good To Me" (Sony / CTI)
"Gerry Mulligan & Chet Baker: Carnegie Hall Concert (Sony / CTI)
"Diane" (Eldorado / SteepleChase)
"Let's Get Lost (trilha do filme de Bruce Weber - BMG Ariola)
"White Blues" (BMG / Camden)