| Para
conhecer a essência da alquimia psicodélica você
pode escutar “Lucy in the Sky with Diamonds”,
“I am the Walrus” ou “Strawberry Fields
Forever”. Pode desbaratinar-se em clímax plástico
diante de um quadro do Museu Van Gogh, em Amsterdam. Pode
praticar zen budismo, pode voltar aos livros de biologia e
relembrar as leis da natureza. Porque, dos efeitos que as
drogas psicodélicas proporcionam numa pista de dança,
a sensação eletrizante é apenas o que
há de mais aparente. Por trás dela há
um universo inteiramente desconhecido onde arte, filosofia
e ciência podem ser contatadas através de experiência
direta. Diante destas inusitadas possibilidades, parte da
camada mais ousada da juventude de todo o mundo – os
chamados “alternativos” – rega seus hábitos
noturnos com variadas qualidades de psicodelias.
Moralismos à parte, a experiência psicoativa
considera que o ser humano é organicamente capaz de
participar de incontáveis níveis de consciência.
Nosso estado normal, “careta”, seria apenas um
deles. LSD, ayahuasca, DMT, peiote, ketamina, mescalina, cogumelos
e muitos outros seriam a chave que destranca estas diferentes
portas perceptivas, possibilitando uma visitinha a outras
realidades dimensionais. Terence McKenna, um notório
pesquisador de botânica alucinógena morto em
2000, defendia que o cérebro humano se desenvolveu
quando o hominídeo desceu das árvores e começou
a incluir em sua dieta os cogumelos encontrados no solo. Já
para Timothy Leary, o pai da contracultura dos anos 60, o
consumo de psicoativos não deveria ser proibido, pois
o estado psicodélico é parte legítima
da condição humana, uma vez que nossas mentes
reconhecem e reagem à química lisérgica.
O princípio ativo dos cogumelos alucinógenos
é a psilocibina. Quando sintetizada, ela se transforma
no ácido lisérgico que espoca entre a platéia
de shows de rock e pistas de dança há quase
40 anos. No entanto, a experiência mais intensa desta
categoria é com cristal: 100 microgramas de LSD, delicadamente
guardado numa cápsula. A pureza e concentração
do aditivo ejetam o usuário para cerca de 20 horas
contínuas de viagem por um universo paralelo de luzes
caleidoscópicas, formas desconcertantes, movimentos
bamboleantes, texturas vítreas, alucinações
digitais. É quando passamos da condição
de simples mortais para a de super-humanos, capazes de enxergar
o estado de espírito das pessoas em seus próprios
rostos. Sinestesia é corriqueiro: é possível
visualizar as cores e formas do som, sentir o gosto do cheiro.
No auge da jornada, a mente já se habituou com essa
nova galáxia e começa a lidar com ela como se
fosse concreta. É quando o psiconauta literalmente
mergulha de corpo e alma na imaginação, freqüentemente
precisando de um tutor lúcido para vigiar seus passos.
Tão contundente quanto uma trip de cristal é
a chamada “k-hole” – um estado alucinógeno
extremo causado pela inalação de 200 miligramas
de ketamina, também conhecida como special k. Ketamina
é um anestésico veterinário que há
poucos anos tomou de assalto a cultura clubber européia
e norte-americana. Em pequenas doses, o special k dá
uma sensação de flutuação na hora
de dançar e um desligamento psicológico da vida
como ela é; em quantidades maiores, leva o usuário
a uma NDE, ou “Experiência de Quase Morte”.
Este estado acontece durante a k-hole, que dura aproximadamente
uma hora, enquanto o psiconauta fica permanentemente deitado,
de luz apagada, escutando música. A ketamina anestesia
o corpo gradativamente; o auge da experiência acontece
quando a mente não percebe mais a matéria física
e começa a funcionar como se ela não existisse.
Daí a natureza completamente espiritual, de quase-morte,
da k-hole: o usuário, acordado, tem visões semelhantes
a sonhos, quando chega a perder noção da própria
identidade, passando a reconhecer-se como um ponto abstrato
de energia.
O psiquiatra britânico Karl Jansen, uma autoridade
no estudo da droga, comenta que por mais radical que uma k-hole
seja, a overdose só acontece quando do consumo de mais
de quatro gramas de ketamina de uma só vez. Dependência,
só a psicológica, mas é suficientemente
para levar a pessoa a sérias baterias de tratamento.
No livro “Ketamine: Dreams and Realities”, Jansen
transcreve o depoimento de um rapaz: “Precisei parar
porque, mesmo sem estar sob efeito da ketamina, eu já
não sabia se eu estava vivendo no passado, no presente
ou no futuro”.
O mais popular dos psicodélicos ainda é o ecstasy,
já considerado uma “epidemia” mundial pelos
especialistas em saúde. Quando consumida, ninguém
fica indiferente ao furioso leque de estímulos que
a pílula provoca: “O ecstasy derrete o ego e
emerge o indivíduo na experiência emocional.
Ele alivia a ansiedade e anula a reflexão analítica
que distancia a pessoa do presente”, diz o filósofo
Gavin Gee-Clough no site Moq (www.moq.org). De fato, o princípio
ativo do ecstasy, o MDMA, foi desenvolvido na década
de 40 por cientistas interessados em tratar pacientes que
sofriam de choque pós-traumático. Há
quem acredite que o alto consumo da droga denuncie a urgência
que algumas pessoas têm em se auto-resgatar de uma realidade
cada vez mais sufocante.
Para concluir, valho-me das palavras que Terence McKenna
proferiu para a poderosa revista americana Omni em 1997: “Não
estou pedindo para que todas as pessoas tomem drogas, mas
acredito que assim como uma mulher deve estar livre para controlar
sua fertilidade, uma pessoa deveria estar livre para controlar
sua própria mente. Todos deveriam ser livres para tomar
o que quisessem, e estar bem informados sobre o que cada opção
envolve. Exatamente como acontece com educação
sexual. Hoje a forma com que lidamos com informações
sobre drogas é a mesma como fazíamos nos anos
trinta com sexo. Você aprendia através de rumores!
Então as pessoas acabam tendo idéias absurdas
sobre as coisas”.
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