| Um
desafio definir a banda paulista Pedra Branca. Arriscar “experimental”
não é somente um bom chute: é o único
que vai a gol, e mesmo assim é muito pouco. No mais,
frustra-se qualquer tentativa de enquadrar o som que produz
– a entrevista foi pontuada por vagos silêncios
a respeito de seus conceitos ou destinos. Mas não caiamos
na ocidentalizada noção de que silêncio
é uma qualidade vazia. Assim como o Tao enaltece a
não-ação e os cientistas holísticos
comprovam o turbilhão de energia que existe no ponto
zero, as reticências de Aquiles Ghirelli, Luciano Sallun
e João Ciriaco carregam indispensáveis dados
a respeito do ambient que executam.
Fácil
entender por que. Primeiro: palavras são um artefato
grosseiro para expressar o sutil espectro musical que o Pedra
Branca se propõe a alcançar. Eles preferem tocar
seu universo ao invés de descrevê-lo. Segundo:
apesar da austeridade verbal, as performances do grupo envolvem
abundância, multiplicidade. Espalhados sobre os panos
estampados que cobrem o palco, descansa um arsenal de instrumentos
étnicos, mais alguns curiosos aparatos inventados pelos
próprios integrantes em sua ânsia em descobrir
os timbres que se escondem em objetos improváveis.
Descalços, sentados no chão, Sallun se alterna
entre o árabe alaúde e a cítara magnífica,
enquanto Aquiles se debruça sobre o aborígine
didgeridoo, a tabla indiana ou suas poesias. Da mesma forma,
mas munido de um headphone vermelho e pick-ups, João
opera beats eletrônicos e insere samplers de discursos
que resgatam zigotos brasilianistas. Ainda tem tempo para
a tanpura indiana, o africano udu e chocalhos indígenas.
É um assombro que os músicos dêem conta
de tantas ferramentas sem dispor dos quatro braços
das deidades hindus. Ainda mais notável é a
habilidade de conjugar instrumentos de origens tão
plurais na formulação de uma mensagem musical
verde e amarela. Para este fim, pesquisam colagens –
hábito introduzido pelo músico e DJ Alfredo
Bello, que está produzindo o primeiro CD do grupo e
eventualmente se apresenta com ele. Por comandar os equipamentos
eletrônicos, João se detém mais na exploração
de discos e vídeos, dos quais extrai vinhetas potencialmente
comunicadoras das raízes nacionalistas. Glauber Rocha
tem sido alvo de seu interesse, “porque mostra o Brasil
verdadeiro, não um país montado num cenário
cinematográfico para vender no exterior”.
Em tempo algum um show é igual ao outro. O Pedra Branca
é partidário da improvisação como
poucas bandas o são. Nada é mecânico:
a cada virada, os músicos deliberam sobre as variadas
possibilidades acústicas que surgem, e as exploram
ao sabor da imaginação. Estão inteiros
no palco, sensíveis uns aos outros e confiantes no
resultado de suas experimentações individuais.
Manejam os instrumentos com segurança, fecham os olhos
para mergulhar no som; depois, se encaram estáticos,
dissolvidos numa viagem profunda. Além da música
de irresistível apelo místico, batidas contemporâneas,
grooves deslizantes e delays psicodélicos, o magnetismo
da tríade está em sua “mise en céne”
totalmente orgânica – uma raridade num mundo de
atrações pré-fabricadas e de egos nervosos.
Rapidamente a platéia se avoluma, fixada como mariposas
na luz.
Freqüentemente um espetáculo de Pedra Branca
inclui a intervenção de outros artistas. Isto
acontece tão pontualmente que arrisco dizer que, se
você não viu um estranho juntar-se a ele no palco,
ainda não teve uma experiência clássica
sobre o grupo. As participações especiais de
cantoras, percussionistas, trompetistas, poetas, bailarinas
e VJs remodelam tudo aquilo que até então se
entendia por “jam”. A receptividade da banda para
expressões paralelas é tão notória
que, certa vez, a dançarina contemporânea Nathalie
surpreendeu até mesmo os músicos com uma excêntrica
performance-relâmpago, desdobrada no ímpeto da
casualidade. Desavisados, tremei.
Diante da eloqüência de Pedra Branca, você
não precisa de um texto. Precisa, sim, de uma chance
de capturá-lo em ação. Se não
mora em São Paulo, é preciso ter a atenção
de um caçador de pedras preciosas: garimpe nas agendas
culturais paulistas, passe os olhos nos flyers dos melhores
festivais de música eletrônica – quando
toca nos chill-outs, as pistas principais perdem a supremacia.
Enquanto produtores do resto do país comem mosca, cresce
o mito em torno do grupo.
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