| Para
a turma que viveu mil e uma noites de copos cheios, social
forte e música frenética, tudo o que era bom
acabou cansando. Este é o uníssono dos ex-notívagos
que, em nome da saúde, do desempenho profissional ou
de um novo amor, encerraram anos de rotinas de bares, espetáculos
e pistas de dança. Os hoje aposentados da madrugada
começaram bem cedo suas carreiras no agito e não
saíam menos de quatro vezes por semana.
“A noite acaba te levando
aos excessos. Traz muitos prazeres, mas cobra juros dignos
de Procon: gente nem sempre do bem, escuro, fumaça,
ressacas físicas e morais. Cansei do ‘Teatro
dos Vampiros’”, diz a assessora de endomarketing
Branca Lee, 26 anos, a exemplo do discurso da maioria dos
ex-notívagos. Já o músico e DJ Rafael
Beznos, 22 anos, vê a freada de suas atividades noturnas
com mais naturalidade: “As pessoas e os lugares mudam,
principalmente na cultura da noite, onde há um fluxo
muito dinâmico de estilos, lugares ‘quentes’.
Quando chegamos numa determinada fase, não há
razão para permanecer no trem. Descemos na estação
certa e a vida continua”.
Nem sempre a decisão
é voluntária. Elaine Vasconcelos, 23 anos, antiga
adepta da charmosa boemia de Santa Teresa e dos forrós
de São Cristóvão, só sossegou
quando passou sete meses em intercâmbio na pacata Lake
Tahoe, na Califórnia: “Foi radical. No começo
estranhei muito, tive a sensação de que estava
perdendo tempo da minha vida”. Alguns demoram para se
acomodar à nova realidade, como foi o caso de Alexandre
de Castro, 34 anos: “Comecei a deixar de sair quando
conheci minha mulher. Mas levei um tempo: no começo,
arrastava-a comigo para as festas. Quando parei mesmo, senti
um certo vazio, mas hoje tenho mais saúde e menos amigos
falsos!”. Elaine também contabiliza prós:
“Atualmente estudo mais, pratico ioga e meditação
e me dedico a uma ONG”.
Ex-notívagos podem
ter deixado as saídas compulsivas para trás,
o que não significa que dispensam baladas eventuais:
“A coruja que mora em mim piaria até não
poder mais! Apenas reinventei minha noite, que hoje tem mais
amigos, conversas, carinhos. Vou à boate quando me
dá na telha, mas não tenho mais aquela sensação
de obrigação”, comenta Branca Lee. Mas
mesmo com a freqüência reduzida, a resistência
às noitadas pode cair, como acontece com a mooder Alexandra
Marchi: “Agora, quando a madrugada vai passando, eu
começo a sentir fome, dor de estômago... mil
coisinhas que me fazem pensar que é hora de ir para
casa”.
As benesses de uma existência
livre de hábitos noturnos são incontestáveis,
mas há de se ter força de vontade. A falta dela
faz do também mooder Bernardo de Medeiros, 27 anos,
um herói da resistência: “O que me impede
de parar é um sentimento que bate lá pelas 22
horas de qualquer dia, seguido por uma penca de amigos variados
que tentam me levar para o mau caminho. Amo o universo de
uma boate e as relações que se estabelecem dentro
dele”. Então, para alegria dos nossos leitores,
ele parte para o Dama de Ferro, Casa Rosa, Bar do Mineiro.
Para dar conta das obrigações diurnas, Beni
dá a receita: “Despertador, um Engov, um comprimido
de Neosaldina e muita cara-de-pau”.
A perspectiva de reaver, com
força total, a antiga identidade de notívago
divide os Novos Sossegados: Alexandre diz “Nunca!!!”,
enquanto Alexandra espera que “Sim! Às vezes
brinco que virei uma velha coroca, mas tudo são fases.
Pode ser que eu me empolgue e comece a me jogar na noite de
novo”. Rafael fica no meio termo: “Talvez volte
para tocar, mas mais como uma missão de retribuição
por todas as bênçãos recebidas”.
E Branca fecha o assunto com a melhor das filosofias de bar:
“Os excessos da noite tiram seu equilíbrio –
literalmente! Mas nunca diga que deste drink não beberás”.
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