| Foi
um escândalo: cerca de vinte pessoas presas, apreensão
de drogas, pais histéricos e manchetes nos jornais
e televisão. A operação conjunta de promotores
do Ministério Público Estadual e de agentes
do CORE na rave Omega, ocorrida em 14 de junho em Niterói,
aqueceu o debate sobre a entressafra que a cena trance enfrenta
há meses. Com exceção de festivais de
grande porte ou das privates – festas pequenas e pouco
divulgadas – as raves têm se encaixado na velha
expressão “festa estranha com gente esquisita”,
para total desolamento de DJs sérios e público
autêntico. Tremenda bad trip.
Integrantes da lista de discussão Psy Carioca permitiram
que a Mood publicasse suas considerações e reflexões
sobre o incidente. Com a palavra, quatro tranceiros de coração:
Antes de tudo quero deixar claro que repudio totalmente a
logística da polícia brasileira, mas obviamente
a polícia é só mais um dos "tijolos
podres na parede de nossa sociedade", tendo em vista
que está longe de ser a única culpada pela atual
situação. Cada vez mais fica comprovado que
os holandeses estão certos, drogas são problema
de saúde pública, não da polícia.
Mas infelizmente quem tem poder de mudar, tem interesse na
manutenção, então não acho que
veremos tão cedo qualquer mudança neste sentido.
Acredito, contudo, que a ação da polícia
trará alguns resultados positivos. Lembrando, mais
uma vez, que na minha opinião, os fins não justificam
os meios que foram utilizados, pois alguém sempre sai
prejudicado, como aconteceu neste final de semana com as pessoas
que pagaram para se divertir e foram invadidas. Sem falar
da repercussão que isso acarretará com quem
trabalha com música eletrônica.
Nossas raves de trance há muito estão completamente
distorcidas, os valores pregados são opostos da prática.
Obviamente me refiro à maioria dos freqüentadores,
pois, como tudo na vida, não se pode generalizar. Entretanto,
para ir a uma rave de trance não é necessário
conhecer os valores dos idealizadores e dos freqüentadores
da vertente, mas simplesmente respeitar tudo e todos de um
modo geral. Infelizmente, este único pré-requisito
não vêm sendo cumprido.
Eu acredito ser falta de respeito utilizar, conscientemente
ou admitindo os riscos, no meio de uma festa, uma quantidade
de droga acima da capacidade de controle. O usuário,
nesta condição, vai precisar ser assistido por
uma outra pessoa, que na maioria das vezes não desejaria
ser responsável por uma vida e também não
está capacitado para tal. Este uso incontrolado ainda
tem outro efeito, o de inviabilizar a diversão das
pessoas que presenciam o estado deplorável desses usuários.
Os resultados positivos da ação da polícia/
exposição na mídia serão que o
medo de represálias vai inibir esse consumo acima do
controle e irá diminuir o número de freqüentadores
que utilizam as raves apenas como um lugar para se drogar,
sem nenhum apreço por algo que outros não desejam
que se acabe ou seja totalmente difamado.
- João Harres, 23 anos, produção musical
Acredito que isso tudo que está acontecendo será
muito positivo, pois vai nos levar de volta às origens,
quando a cena era pequena e as festas
fechadas para os amigos. Nós não deixaremos
a cena morrer e para isso temos que nos unir e criar alternativas.
Uma decisão eu já tomei: vou boicotar as mega
produções e farei a minha
parte pra que o movimento volte ao que era...
- Alexandre de Castro, 34 anos, administrador de empresas
A filosofia rave ainda não se perdeu. Quem foi na
Entre Amigos, ou no Chill-Arte, é prova disso. E quem
olhar pra dentro de si mesmo pode encontrar ou não,
né?
- Paulo Catran, 24 anos, produtor musical
As propostas menores (de rave) não podem deixar de
existir. São elas que mantêm a cena aí.
Acho paradoxal que, uma parada tão pequena como o Chill-Arte
(ocorrido em 13 de junho na praia da Macumba) tenha tanta
ou mais energia que uma festa da Ômega, com cinco mil
cabeças, por exemplo. É a sintonia... o prazer
do que se está fazendo... galera atenta à proposta...
isto tudo influi em se uma festa vai ser boa ou não.
- Felipe Barbirato, 23 anos, economista
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