Toda caretice há de ser expurgada.

A de heterossexuais e a dos próprios gays. Urgentemente.

Porque, num mundo cujo estado natural é a diversidade de raças, credos, culturas e orientações sexuais (sim!), toda caretice é perigosa. Perigosíssima. E, como a tolerância aos caretas só reforça o comportamento reacionário, sejamos mais eficientes.

Abramos o verbo.

Façamos barulho. No mesmo volume e bom som que os carros das Paradas do Orgulho Gay do Rio de Janeiro e de São Paulo estão fazendo neste mês de junho. E expurguemos toda a ignorância que existe nos corações quadrados. Aliás, este é o vértice do preconceito. A ignorância.

Se até hoje ela não foi expurgada por bem, através de uma detida reflexão sobre o ridículo dos argumentos que sustentam a homofobia, então que seja no susto. Um sustinho só não faz mal a ninguém, e vai reafirmar o tal do respeito. Uma chamada de atenção acompanhada de um ar de surpresa, tipo “como-assim-uma-declaração-desta-em-pleno-século-XXI?”. Se você é gay, é sua obrigação. Se você é hetero, é sua obrigação também. Porque se você é gay, você fará isto pela sua auto-estima, e se você é hetero, você fará isto porque é uma atitude concordante com a sua compreensão sobre a diversidade das coisas e das pessoas.

É preciso fazer os caretas se envergonharem de suas atitudes caretas. Se o desrespeito contra gays perdura mesmo trinta anos depois de Stonewall, é porque tem gente que continua achando que há espaço para isto. Que as pessoas vão rir, ou não vão falar nada. Nunca pensa que alguém pode se sentir tremendamente desrespeitado. Ou pensa que, se alguém se sentir assim, ora, é merecido! Mais uma vez: você não precisa ser gay para sentir-se desrespeitado com atos e palavras que diminuem os gays. Caretas precisam começar a se sentir seriamente desconfortáveis com sua própria homofobia. Não os gays. Não as outras pessoas. Ninguém tem nada a ver com a homofobia dos caretas; ninguém, além deles mesmos, deveria se sentir mal por causa dela.

Esta linha de raciocínio muda a forma com que os gays lidam com sua própria homossexualidade. Assumir sua orientação sexual deixa de ser um problema – é uma simples questão de coerência. Afinal, nada mais esquisito do que um gay que insiste em negar sua condição! Parece que ele tem motivos para se sentir intimidado e, conseqüentemente, mentir. Como se ele próprio acreditasse que ser gay é um problema. Esta é a caretice gay. Isto precisa ser expurgado.

Um gay que olha qualquer hetero com receio, e se comporta de forma a constrangê-lo, é um careta tão infeliz quanto o homofóbico. Ele também precisa sentir a vergonha que existe nesta ação. Isto também precisa ser expurgado.

Não há argumento nas galáxias que consiga classificar qualquer forma de amor como desajustada, perigosa, vergonhosa – sobretudo num mundo que se torna mais e mais decadente exatamente por falta de amor. Logo, toda forma de amor é sagrada, e deve ser tratada como tal.

Estamos entendidos?