| Quem
não sonha em ficar rico?
“’O
Homem que Copiava’ tem muitas piadas, um soneto
completo e alguns assassinatos”
Jorge Furtado |
Jorge Furtado certamente já sonhou. E não teve
pudores em transformar esses devaneios num dos mais criativos
filmes da nova safra do cinema brazuca. Em “O Homem
que Copiava”, o diretor cria uma fábula urbana
imersa em colagens, desenhos, animações e muitas,
muitas citações, onde o dinheiro é quase
o protagonista.
E se não é o dinheiro, então o que é?
O quarteto principal do filme mostra personagens já
vistos muitas vezes antes no cinema, na TV e na literatura
– mas construídos e interpretados com uma solidez,
essa sim, rara de ser vista. A arma indefectível de
Furtado é o roteiro, arte em que é mestre, e
donde surgem criaturas perfeitamente inseridas na Porto Alegre
suburbana e distante do perfil europeu que é freqüentemente
vendido para o resto do Brasil.
O filme, que vem atingindo excelente performance nas bilheterias
(nos primeiros vinte dias foi assistido por mais de 240 mil
espectadores em todo o Brasil), acende uma luz amarela: será
que o mocinho pode virar bandido e ainda assim ser mocinho?
Quem foi mesmo que disse que os fins justificam os meios?
ANDRÉ
Lázaro Ramos (“Carandiru”, “Madame
Satã”) dá vida a André, um introvertido
operador de fotocopiadora (“É que nem xerox,
só que de outra marca”, o personagem explica)
de uma pequena papelaria. É um garoto de vinte anos,
que não chegou a completar o segundo grau; mora com
a mãe, sonha ganhar dinheiro com seus desenhos e é
apaixonado por Sílvia, a garota que espiona com seu
binóculo. “Ele é uma pessoa que não
consegue dividir com o mundo as suas angústias, seus
sentimentos, o que ele tem de bom. Ele simplesmente não
consegue dividir. É muito interno, fala pouco, a gente
ouve muito o que ele pensa. Ao mesmo tempo, ele tem um pensamento
muito criativo”, diz o ator.
E será que isso justifica as atitudes do personagem?
André é quieto e pacífico, que ao falsificar
dinheiro vê uma saída para os pequenos problemas
do seu cotidiano. Mas ele quer mais, quer levar a garota amada
para longe, e para isso precisa de dinheiro grosso; então
decide roubar um banco. Aprende a usar uma arma, fere um homem,
e depois se torna um assassino. Tudo isso com o apoio de seus
amigos – o funcionário de um armazém de
velharias, a balconista da papelaria onde trabalha, um traficante
que vai chantageá-lo mais tarde, e a própria
donzela.
Tudo à melhor moda Forrest Gump: as coisas simplesmente
correm ao seu encontro, sem que ele dê dimensões
dramáticas ou grandes questionamentos às atitudes
que toma. André age impulsionado pelo seu amor –
em nome dele, supera a timidez, ambiciona uma vida melhor
com a mulher que ama, monta um estratagema para se aproximar
dela. Por amor, assalta um banco para fugir com ela para o
Rio de Janeiro. Mas um segurança cruza seu caminho,
e André atinge-o com um tiro na perna. Ele, o espectador
descobre mais tarde, é o pai de Sílvia, que
será eliminado com frieza profissional.
SÍLVIA
Sílvia tem dezoito anos. É batalhadora, trabalha
como balconista numa loja de roupas simples, à noite
estuda – e não poderia ter ganhado melhor intérprete
do que Leandra Leal. A jovem atriz empresta um ar doce e inocente
à garota que, no fim das contas, de ingênua não
tem nada. “A Sílvia precisa de dinheiro para
sair do mundo em que vive. Ela odeia o lugar onde vive. Perdeu
a mãe quando tinha dez anos e foi criada depois pelo
pai, que ela nega. (...) O único impedimento para ela
sair dali é o dinheiro, só fica ali porque precisa
sobreviver. Mas é muito esperta, planeja e prevê
as coisas; ao mesmo tempo, tem uma sabedoria tranqüila”,
diz Leandra, que, com o auxílio do figurino, se adaptou
perfeitamente à atmosfera da cidade de prédios
feios e sujos.
A garota é o centro da ação de André,
já que suas atitudes são movidas pela paixão.
Passamos cinco sextos do filme acreditando que Silvia é
a menininha bobinha, uma Cinderela presa num apartamento do
pai, tarado e malvado. Até descobrirmos que ela não
era passiva, ao contrário: antes que André tomasse
coragem de aproximar-se, ela já maquinava como poderia
usar aquele amor para atingir seu objetivo – sumir da
cidade e encontrar a esperança de um novo pai e de
uma nova vida. E quando se aproxima dele, e corresponde aos
seus sentimentos, não hesita em convencer André
a matar o próprio pai, como na tradição
dos piores filmes de suspense, onde “a mulher seduz
um homem e o convence a matar o marido para ficar com o seguro”.
Furtado, no entanto, trata de absolvê-la criando a dúvida
de uma figura paterna dúbia, de identidade incerta,
e que pode ter abusado sexualmente da menina (o que justifica
a vontade de matar em qualquer filme, em qualquer país,
em qualquer época).
MARINÊS
Luana Piovani, que só pela beleza irretocável
já merece estar em todo e qualquer filme, também
cai como uma luva na pele de Marinês, colega de André
na papelaria. É uma femme fatale do subúrbio,
a fútil que não usa calcinha e quer casar com
um ricaço.
A rigor, é a que menos se envolve em sujeira durante
todo o filme. Serve como laranja para receber o prêmio
da loteria e mantém o pai de Sílvia ocupado
enquanto a bomba é plantada no apartamento; mas nunca
assume uma postura “bandida”, mantendo-se alheia
à maior parte das armações de André
e Cardoso. É apenas a garota atraente que sonha com
vestidos caros e camas com dossel – mesmo que para isso
tenha que comer (e com vontade) o Pedro Cardoso.
CARDOSO
O personagem tem até o mesmo nome do ator que o interpreta,
Pedro Cardoso. É o chinelão que gosta de posar
de classe média. Está enlouquecido por Marinês,
e por intermédio dela conhece André. Seu maior
dilema é que parou de fumar, por necessidade da paquera.
O ator fala sobre o personagem: “O Cardoso é
um cara que embarca na aventura do André. Como todo
mundo no Brasil, vive numa situação precária
de dinheiro, meio sem horizonte. Quando ele vislumbra uma
oportunidade, ele entra. Meio desamparado. São pessoas
sem futuro.”
Talvez nessa última frase encontre-se a essência
da fábula moderna de Furtado – dar um futuro
para quem não tinha, através de saídas
ilegais – as únicas possíveis para pessoas
à margem da sociedade que são. Cardoso quer
as notas falsas de André, quer uma parte da bolada
da loteria, quer ficar rico para enfim botar as mãos
(literalmente) em Marinês. Mas é um atrapalhado,
é medroso, arrisca por não ter outra saída
– ele sabe que é sua chance única de ter
grana e a mulher desejada ao mesmo tempo. Tal como André.
Uma nova maneira de sonhar
O que o filme nos apresenta é um novo viés dos
contos de fadas. Ao optar pela tragicomédia –
mais comédia do que tragédia –, Furtado
pinta com tintas leves o sonho dourado de conquistar o elo
perdido entre a vida e a felicidade: o amor e o dinheiro.
Mesmo quando transforma o garoto pacato num assassino que
não carregará fantasmas por seus crimes. O diretor
não parece preocupado com uma leitura literal da obra
(o que certamente levaria a uma onda de falsificações
caseiras de cédulas monetárias, no mínimo).
Furtado sempre terá o salvo-conduto de estar retratando
algo que já acontece, embora não ganhe capa
de jornal. Ao dar a redenção a seus personagens
de uma maneira obtusa, sob o ponto de vista ético,
ele tenta salvar todos os desesperançados da nação.
Pelo sim, pelo não, só estou tentando descobrir
que marca de fotocopiadora André usou no filme.
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